Windows 10 no PC com Snapdragon? — Qualcomm e Microsoft explicam

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Empresas reconhecem que o Snapdragon não é mais veloz que seu concorrente em algumas aplicações x86 de processamento intensivo da CPU  — mas isso realmente importa?

No fim do primeiro dia do Snapdragon Tech Summit 2017, representantes da Qualcomm e da Microsoft se reuniram com a imprensa e analistas dos EUA e Europa para falar sobre o Windows 10 rodando na plataforma móvel Snapdragon para PCs.

E apesar de estar no grupo da América Latina, este ZTOP estava tão interessado no assunto que dispensou a próxima atividade da agenda e ficou no auditório para ouvir esse papo.

Henrique comenta: Nagano, como assim você deu o perdido?

Nagano explica: Como ensinou o meu chapa e mentor de profissão Niso Levitas — “Trabalho primeiro, vagabundear depois!

Para responder às perguntas, subiram ao palco Miguel Nunes, gerente de produto para Windows na Qualcomm…

… e Erin Chapple, gerente geral do grupo do Windows na Microsoft.

É Core ou é Celeron?

E como era de se esperar, a primeira pergunta da plateia foi direto ao assunto: Como vai ser o desempenho das aplicações legadas de 32 bits do Windows nessa nova plataforma? E se comparado com os chips da Intel podemos esperar uma experiência de uso mais de “Celeron” ou de “Core”?

Nunes explicou que existe uma grande diferença entre essas plataformas e a maneira com que o sistema operacional tira proveito desses recursos, o que por sinal não se limita apenas ao núcleo de processamento propriamente dito, já que muitas tarefas são repassadas para outros componentes como o chipset, GPU, DSP etc.

Sob esse ponto de vista, só o desempenho bruto da CPU pode não refletir corretamente a chamada “experiência de uso do usuário”. Assim, uma das maneiras com que a Qualcomm está avaliando o desempenho no seu equipamento é realmente usando-o em situações reais do dia a dia executando aplicações comuns do mercado.

Já Erin disse que o sob o ponto de vista da emulação, o seu grupo passou muito tempo avaliando qual é a melhor maneira de criar uma camada de emulação que oferece a melhor balanço entre compatibilidade e desempenho.

Assim a primeira coisa a ser dita é que o sistema operacional foi totalmente recompilado de modo que o seu código roda nativamente no processador ARM. Só isso faz com que o sistema operacional e todos os recursos e serviços do Windows 10 rodem no desempenho nativo do chip da Qualcomm.

Nagano comenta: O termo “desempenho nativo” é bem interessante já que isso pode indicar que, como no x86, a experiência de uso do Windows pode variar com o uso de um processador ARM mais ou menos performático.

Em relação à camada de emulação usada para rodar as aplicações Win32/x86, o que a Microsoft fez foi ampliar a camada de abstração de “Windows on Windows” (WOW) — que hoje é usado para executar aplicativos de 32 bits em processadores de 64 bits —  e utilizar um tradutor binário dinâmico para executar a carga (de instruções) da aplicação de fato convertida em subcódigo ARM que é armazenado em memória cache, RAM ou mesmo no disco rígido, com o objetivo de acelerar o seu processamento no subsistema de aplicações.

O que tudo isso significa é que as aplicações que utilizam mais intensamente a CPU sofrerão mais com a degradação do desempenho se comparada com outras que utilizam mais intensamente a GPU ou mesmo a rede. Isso porque elas têm que lidar com um código que, por diversas vezes, vai precisar ser recompilado de x86 para ARM de acordo com a demanda.

Para minimizar esse problema, Erin explicou que o Windows 10 possui meios de monitorar a experiência de uso do usuário (Windows 10 Telemetry?) e identificar quais são suas aplicações mais utilizadas, de modo que essa informação pode ser usada para recompilar as DLLs mais solicitadas pelo SO para código ARM que passam a responder às chamadas de função (function call) das aplicações X86, criando o que ela chama de “compiled hybrid portable executables“.

Isso é o mais próximo de um código ARM nativo que pode ser obtido sem ter que reescrever o programa, proporcionando assim — com o passar do tempo — um certo ganho de desempenho.

Porém, ela observa que — no caso de um hard reset — esse cache de código ARM pode ser limpo de modo que o sistema volta para a estaca zero.

Baseado nisso, a expectativa é que a maioria das aplicações x86 rodem quase que na mesma velocidade de uma aplicação nativa. Isso porque a maioria dos programas “comuns” para Windows acessam diretamente as APIs do SO que já foram recompiladas para ARM, incluindo as funções gráficas.

Concluindo, Erin está bem satisfeita com o desempenho apresentado pelos programas em x86 rodando na plataforma Snapdragon.

A executiva também ressalta que seu time mantém um estreito relacionamento com o grupo do Office com o objetivo de que essa suíte de aplicativos de escritório seja afinado para rodar da maneira mais perfeita possível na plataforma Snapdragon. Isso porque o Office não foi recompilado para ARM de modo, que ele roda no modo emulado.

A explicação dada para isso é que a Microsoft não quer mexer no ecossistema do Office que hoje já é habitado por uma grande quantidade de Add-ins já desenvolvidos, de modo que recompilar o Office para ARM exigiria que todos os desenvolvedores de apps fizessem a mesma coisa.

Assim, o que a Microsoft deseja é oferecer um mesmo produto com os mesmos recursos e, consequentemente, com a mesma experiência de uso para todos os usuários de PCs, seja ele usuário de um PC com um chip x86 ou ARM e, como ela disse no começo da sua explicação, isso exige um balanço entre desempenho e compatibilidade.

Fora isso a estratégia do pessoal de Redmond é de também oferecer apps já compiladas para ARM na sua lojinha de aplicativos de modo que, com o passar do tempo, apps de processamento intensivo também possam tirar o máximo proveito do Snapdragon.

Sob esse ponto de vista, dá para entender porque que todos os equipamentos apresentados no evento (aqui e aqui) rodavam o notório Windows 10 S

… que foi feito para instalar e rodar apenas programas baixados da sua lojinha:

Apesar de que isso não deixa de ser tecnicamente uma recomendação, já que tanto a Asus quanto a HP oferecem a opção de upgrade (sem volta) para a versão Pro.

Quando questionado se o uso intensivo de aplicações x86 poderia influenciar ou não no consumo da bateria, Nunes explicou que, dentro de um ambiente de trabalho onde um notebook fica em uso contínuo por umas 7~8 horas, pode se esperar uma autonomia em torno de 36 a 48 horas mesmo usando aplicações x86. De fato, o executivo diz que ele não vê diferenças visíveis de consumo pelo fato do programa ser ARM nativo ou não.

Ele disse que a diferença sim vai ser sentida só depois de um usuário de um notebook com Snapdragon recarregar sua bateria no fim de semana e perceber que passou um ou mais dias usando o mesmo e a bateria ainda não caducou. Algo que soa como música nos ouvidos daqueles que viajam muito e nem sempre dispõe de uma tomada por perto.

Mas já que estavam falando de processadores ARM, um jornalista inglês perguntou se essa plataforma é capaz de rodar aplicações de Android. Erin respondeu prontamente que não já que suporte para Apps de Android não faz parte do foco desse produto.

E o Windows 10 para Snapdragon será vendido na forma de CD/DVD de instalação para o consumidor final? — Erin acredita que não — ou pelo menos não por enquanto — já que pelas conversas que ela já teve com fabricantes OEM, nenhum deles por enquanto tem a intenção de vender um PC com Snapdragon sem sistema operacional.

Sob esse ponto de vista, o modelo de negócios do PC com Snapdragon se assemelha mais ao dos smartphones e tablets, de modo que o executivo também já confirmou que sua empresa está negociando com diversos parceiros e fabricantes de OEM de modo que, num futuro próximo, ele espera anúncios de novos produtos com marcas locais ou mesmo de grife, e isso sem falar de modelos com diferentes configurações, padrões de formatos e faixas de preço.

Falando nisso, um jornalista especulou se a Microsoft poderia aproveitar essa deixa para voltar ao mercado de dispositivos móveis com um handheld ou mesmo um phablet com Snapdragon + Windows 10. Erin não caiu nessa e disse que hoje estamos falando apenas sobre PC sempre conectados.

Nunes foi mais aberto na sua resposta enfatizando o potencial e a flexibilidade da sua plataforma de modo que você só pode imaginar os diferentes padrões de formato que podem ser criados no futuro.

Mas ai sobrou para ele já que outro jornalista usou esse argumento para perguntar se essa nova plataforma não poderia ser aplicada a um PC Gamer. 

Nunes explicou que, neste exato momento, o esforço é de trazer todas as vantagens do mundo dos smartphones com tecnologia Qualcomm para os notebooks, ou seja, altíssima integração de componentes, baixo consumo de energia, câmeras de alto desempenho, sensores diversos, comunicação sem fio etc.

E é claro que sua empresa está sempre em contato com a comunidade de desenvolvedores com o objetivo de aperfeiçoar essa plataforma, mas — por enquanto — a estratégia é de consolidar esses “valores ligados à mobilidade” que é exatamente o grande atrativo do Snapdragon.

Ou seja, neste momento não é objetivo da Qualcomm desenvolver um super computador de altíssimo desempenho para jogos já que — de novo — este não é o foco dessa plataforma.

Erin também observa que, como a maioria dos jogos mais recentes (e pesados) só rodam em sistemas de 64 bits, o Windows para ARM estaria “fora desse jogo” (no sentido mais exato da frase). Isso porque o seu emulador x86 só funciona com programas de 32 bits.

Em contrapartida, ela não vê problemas em rodar jogos mais antigos e/ou clássicos como os chamados retrogames como aqueles comercializados pela Good Old Games (GOG). De fato, Nunes explicou que como esses jogos podem rodar até melhor no Snapdragon porque sua GPU é extremamente eficiente e como o SoC como um todo não esquenta muito, a partida pode fluir de maneira mais macia e estável.

Legal né?

Disclaimer: Mario Nagano viajou para o Havai a convite da Qualcomm, mas as fotos bacanas, opiniões brilhantes e piadinhas infames são dele mesmo.

Sobre o autor

Mário Nagano

Desde o século passado Mario Nagano analisa produtos e já escreveu sobre hardware e tecnologia para veículos como PC Magazine, IDGNow!, Veja e PC World.
Em 2007 ele fundou o Zumo junto com o Henrique assumindo o cargo de Segundo em Comando, Editor de Testes e Consigliere.

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