A polêmica arte de criar uma startup, pelo co-fundador do Waze

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Uri Levine fala sobre os grandes desafios de criar uma startup de sucesso (e outras coisinhas que ele não coloca no PowerPoint dele).

Aconteceu ontem em São Paulo o 20° Encontro Locaweb  – e um dos destaques do evento foi a presença de Uri Levine, co-fundador do serviço de navegação Waze que foi vendido para o Google em julho de 2013 pela bagatela de ~US$ 1 bilhão.

Apesar desse sucesso fenomenal, o executivo se define como uma pessoa e cheia de idéias para encontrar a melhor solução para várias pessoas com um mesmo problema, ou seja, questionamentos simples do tipo “como posso escapar de um congestionamento de trânsito” levaram a criação do notório aplicativo de navegação.

E como muitos visionários, ele declarou que sua grande paixão é o desafio de resolver um novo problema de modo que ele foi um dos únicos fundadores do Waze que não foi trabalhar para o Google preferindo criar novas startups.

Por exemplo, ele é co-fundador e/ou primeiro investidor e/ou chairman da FeeXda Zeek, FairFly etc. No Brasil, fora o Waze, talvez o seu empreendimento mais conhecido seja o Engie (já analisado por este ztop)e o Moovit.

No geral sua apresentação foi interessante, porém nada fora do que qualquer cartilha do empreendedor ensina, ou seja…

… avalie bem a sua idéia, pense sempre em atender ao grande público, esteja preparado para receber um não na cara, erre rápido etc. e isso sem falar no que os americanos chamam de “Call for Action” que é a sua mensagem de incentivo para o mercado iniciar a sua transformação digital.

Mas como somos geeks, a parte da sua apresentação que realmente nos chamou a atenção foi quando ele começou a falar sobre a história do Livemaps e o seu funcionamento — ou seja — como os usuários desse serviço que, por sinal, começou como um app de handheld para coletar e repassar informações de localização e movimento para os servidores da empresa, criando assim, aos poucos, névoas de pontos que, depois de interpretadas…

… geram tanto as informações de tráfego quanto os próprios mapas utilizadas pelo serviço, sendo que a medida que mais e mais usuários se tornam “Wazers” mais e mais o serviço se torna melhor e mais preciso, criando assim uma espécie de ciclo virtuoso onde todos ganham!

Mas foi ai que nos surgiu a seguinte dúvida:

Se o elemento fundamental que faz o Waze funcionar é a informação gerada pelos usuários que, em troca, recebem informações precisas de trânsito, o que foi que a empresa fez para convencer os primeiros usuários a adotarem esse serviço já que, em tese, poucos usuários geram poucas informações que, em consequência possam ser insuficientes para gerar um bom feedback de trânsito?

Estávamos guardando essa pergunta para a coletiva de imprensa com Levine quando — no fim da sessão de perguntas e respostas com a platéia — uma participante se levantou (uma desenvolvedora?) e fez quase que exatamente essa mesma pergunta para o executivo e sua resposta foi, pelo menos para mim, fascinante.

De fato sua resposta é tão intrigante que resolvemos reproduzi-la na integra, em inglês e sem legendas abaixo. E por favor, ignorem a intromissão meio aloprada do mestre de cerimônias (entre 00:25 e 00:33):

Para aqueles que não dominam a lingua dos bretões, Levine achou a pergunta incrível e falou em alto em bom inglês que o que eles fizeram foi “enganar” (ou “cheat” em inglês) seus usuários.

Como assim? Ele explicou que em toda aplicação deste tipo é preciso alcançar uma certa “massa crítica” de dados ou usuários para que o sistema comece a pegar ritmo e funcionar por conta própria de maneira plena e eficiente, só que até que isso fosse alcançado, sua empresa “enganou” seus usuários fornecendo-lhes informações de trânsito geradas por eles e comprada de terceiros (como empresas de gerenciamento de tráfego) que foram injetadas diretamente no sistema.

Nessa mesma época eles também informavam para o usuário que havia um certo número de motoristas ao seu redor — só que eles não diziam o tamanho da área — o que poderia se estender por até 500 km!

No final ele ainda afirmou que toda empresa que chegou ao sucesso dependendo de massa crítica, “enganou” seus consumidores .

Como já dissemos, ficamos particularmente intrigados com essa resposta — em especial com o uso de frases to tipo “enganar o cliente” — já que isso não é o tipo de coisa que a gente costuma ouvir em coletivas de imprensa (media training anyone?)

De fato, durante o nosso encontro com Levine, voltamos à esse assunto e o questionamos se “enganar” poderia ser parte da estratégia de uma startup para alcançar o sucesso.

Antes de mais nada, ele disse que iria refazer suas declarações afirmando que o que sua empresa fez foi encontrar uma “alternativa” (ou “bypass” em inglês) para acelerar o processo, permitindo assim prover boas informações de transito para seus usuários até que a massa crítica fosse alcançada.

Agora sim! Isso é o tipo de coisa que a gente costuma ouvir em coletivas de imprensa!

 

Henrique comenta: isso é empreendedorismo criativo, ou usar conceitos de marketing para atrair mais consumidores. A questão correta é por quanto tempo isso foi feito até o dinheiro começar a entrar e eles pagaram as licenças corretas de mapas etc. e parar com a inflação de usuários até atingir a massa crítica.

De certa forma, até parece com a estratégia de certos influenciadores digitais (pra usar o termo do momento) com milhares de seguidores (humanos ou não), mas zero interação com eles.  

Vale ler esse post do Quora sobre reutilização de código – que se for pensar, copiar e colar é algo “eticamente similar” para uma startup a inflar números para dizer que um serviço já está cheio de gente. 

Sobre o autor

Mário Nagano

Desde o século passado Mario Nagano analisa produtos e já escreveu sobre hardware e tecnologia para veículos como PC Magazine, IDGNow!, Veja e PC World.
Em 2007 ele fundou o Zumo junto com o Henrique assumindo o cargo de Segundo em Comando, Editor de Testes e Consigliere.

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