Retrotech: Voigtlander-Olympus Bessa Digital Hack (Parte 1)

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Na primeira parte desse artigo, como juntar uma lente clássica dos anos 1950 com uma câmera digital moderna? Veja a seguir.

Esse post atendende a uma sugestão do nosso leitor Alexandre Fabian de que eu fizesse alguns textos sobre tecnologias realmente retrôs que tenho jogadas aqui na Zumo-caverna, de modo que aproveitei a deixa pra botar em prática um projeto que vinha adiando faz tempo e me ocupar com alguma coisa diferente além de ler gibi, pensar em maldades, fazer reviews e escrever para este ZTOP. 

Valeu Alexandre! 😀 (e se você não der um Like eu não solto a segunda parte viu???)

Ah sim. A segunda parte deste post já está no ar!

Como sabem eu curto fotografia (duh!), câmeras antigas (duuh!) e lentes clássicas (duuuh!) e como muitos entusiastas deste esporte, a gente tende a acumular bastante muita tralha, em especial aquelas traquitanas que a gente traz pra casa para quem sabe —  um dia — pode servir para alguma coisa né?

Este foi o caso do equipamento abaixo — uma Voigtlander Bessa I — uma câmera de fole (ou folding camera) que comprei na feira do Bixiga por uma merreca, já que sua aparência externa não é das melhores, até sob o ponto de vista do cara quem me vendeu!

Mas pela minha experiência com esse tipo de câmera, mesmo que seu exterior esteja bem surrado, se ela permaneceu sempre fechada é grande a probabilidade de que o seu interior esteja bem preservado, o que foi o caso desta Bessa I, cujo fole de couro estava praticamente intacto, assim como o seu conjunto de lente/disparador.

De fato, o que realmente me chamou a atenção dessa câmera é que ela veio equipada com uma excelente objetiva Color-Skopar de 105mm/f3.5 montada em um disparador Prontor-S que é a opção mais “premium” se comparada com a “de entrada” equipada com uma lente Vaskar de 105mm/f4.5 (a mais simples e menos desejada da linha).

Para quem não sabe a Color-Skopar é uma cópia da objetiva Tessar da Carl Zeiss (embaixo), famosa pelo seu design simples (formado por quatro elementos em três grupos) e grande nitidez, o que faz dela uma excelente relação de custo x benefício. Reza a lenda que o maior problema dessa lente é que a Zeiss nunca conseguiu evoluí-la para uma abertura acima de f2.8, o que obrigou a empresa a desenvolver novos desenhos como Sonnar e Planar.

Tessar_diagram

Minha intenção ao comprar essa câmera era de, caso encontrasse outra Bessa I boa, barata e até com Vaskar, eu a compraria e trocaria a lente — mas isso nunca aconteceu. 🙁

Anos atrás, publicamos aqui no ZTOP uma nota sobre um fotógrafo chamado Jonas Krøyer que adaptadou a frente de uma câmera de fole Ikonette numa Nikon D300 DX:

Isso até acendeu uma lâmpada na minha cabeça — mas não durou muito — já que o projeto de Krøyer exigia a construção de um suporte de metal para sustentar o conjunto da lente + fole e isso estava um pouco fora das minhas habilidades manuais.

Mais recentemente, encontrei iniciativas semelhantes aquiaqui e aqui o que me fez voltar a se interessar nisso. Mas na maioria dos casos, esses hacks envolvem gabiarras, a destruição parcial da câmera ou o uso de anéis e adaptadores bastante exóticos e difíceis de encontrar no mercado.

No caso da minha Bessa, remover o conjunto da lente é uma operação bem simples, já que ela fica presa ao resto do corpo por meio de apenas um anel de rosca que é facilmente alcançado quando abrirmos o compartimento do filme com a frente fechada…

Bessa_lens_Bessa_remove_lente_1_leg

… e removido com o uso de uma ferramenta apropriada:

Feito isso, basta reabrir a frente da câmera e remover a lente. A melhor parte dessa história é que essa operação pode ser facilmente revertida caso algum dia queira voltar a usar essa câmera.

Aqui podemos ver o conjunto da lente e disparador de folha (leaf shutter) em todo o seu esplendor. Seu funcionamento é simples: Basta armar o mecanismo com a alavanca do disparador e acioná-lo baixando o gatilho.

Bessa_lens_Bessa_remove_lente_4_leg1

Já os ajustes de velocidade (1/250 a 1 seg + B) e abertura (f3.5~f22) são feitos por meio de anéis de alavancas visíveis na lateral da lente:

Bessa_lens_Bessa_remove_lente_6a_leg

Na parte de trás podemos ver sua rosca de fixação de 31,5 mm, que por sinal é uma medida bastante exótica diga-se de passagem.

Neste caso, concluí que a maneira mais simples e prática de integrar essa Color-Skopar no meu sistema digital seria colocar nela um engate de rosca universal M42 (a mesma usada na Pentax Spotmatic ou Zenit) por meio de um adaptador. Mas onde encontrar isso?

A solução mais simples é — na teoria — mandar fazer um anel a partir do zero, o que implicaria elaborar um projeto (ou pelo menos desenhar um croqui), comprar/encontrar a matéria-prima (sei lá onde) e achar um profissional/artesão especializado em usinagem de precisão capaz de fazer esse serviço.

Vale a pena observar que fora o custo da matéria-prima, este tipo de profissional costuma cobrar por hora de trabalho, de modo que quanto mais tempo ele passar calibrando a máquina, trocando ferramentas, usinando e dando acabamento na peça, a brincadeira pode ficar bem cara.

Passei um bom tempo quebrando a cabeça nisso, e numa bela manhã pensei uma solução mais simples e relativamente barata: Pegar uma tampa de corpo de câmera Pentax Spotmatic que já tinha comprado na Amazon e fazer um furo nela para fixar a lente — simples não?

Bessa_lens_Bessa_Tampa_Amazon1

Fabricado pela Fotodiox, esse acessório custa em torno de US$ 7 (~R$ 21), é feito de alumínio de ótimo acabamento e já vem com a rosca M42 ou seja, praticamente 90% do serviço já está pronto, exigindo praticamente uma operação de usinagem.

Apesar da tentação de meter a broca nela e tirar o resto na lima, é preciso estar ciente que estamos lidando com um equipamento de precisão, de modo que essa abertura precisa ter uma medida exata (para que a rosca de fixação da lente Color-Skopar passe sem folga) e esteja exatamente alinhada com o centro da peça, de modo que é realmente necessário a ajuda de um profissional especializado.

Mas como moro na capital do automóvel, tive a sorte de encontrar não muito longe de casa uma pequena oficina chamada Batisfer Solução em Usinagemonde um de seus donos gentilmente se prontificou a fazer o serviço na hora…

… o que tomou 20 minutos do tempo dele e R$ 15 da minha carteira.

Assim, o custo final de material e serviço foi de apenas R$ 36 (yaaay!) — ou pouco mais de US$ 12 (!)

Ai foi só encaixar o adaptador na parte de trás da Color-Skopar e fixá-lo com o anel original.

E tenho que reconhecer que o resultado final ficou bem melhor do que esperava.

Agora é só parafusar a lente na câmera e sair fotografando? — Na verdade não, já que para conseguir o foco em qualquer objetiva é preciso respeitar a chamada Distância Focal, que é a distância (em milímetros) entre o ponto de convergência da luz até o plano do sensor onde a imagem focalizada será projetada. Esta medida junto com a abertura do diafragma é que define a maior ou menor aproximação de uma cena assim como o ângulo de visão que o fotógrafo deseja trabalhar.

Bessa_lens_DF3c

 

E como está marcado na lente (embaixo), sua distância focal é de 105 (mm) de modo que é necessário encontrar uma maneira de fixar a lente exatamente — ou pelo menos perto — dessa medida.

A maneira mais simples que encontrei para  solucionar esse problema é com o uso de um fole de macro, um acessório que era usado em câmeras 35mm para alterar o ângulo de visão da lente, mantendo o alinhamento com o plano do sensor, permitindo assim focar objetos a distâncias bem menores. Este modelo em especial — fabricado pela VEB Pentacom não sei quando — possui um encaixe de lente padrão M42 e veio de “brinde” com uma câmera da Minolta SRT que, por sinal, nem é compatível com esse acessório (mas deixei guardado já que, quem sabe — um dia — a gente não vai precisar dele, né?)

Ai é só encaixar a objetiva na frente, a câmera atrás (no meu caso via adaptador M42 para Micro Four Thirds), acertar (mais ou menos) a distância focal da lente com o plano do sensor de imagem…

… e voilá: uma Voigtländer-Olympus Bessa Digital! — E ai… Quem precisa de uma Nikon D5 ou de uma EOS-1D para impressionar as garotas e os amigos nerds???

E como é fotografar com essa traquitana? — Esse vai ser o tema da segunda parte deste post. — Fiquem ligados (nota: tem dicas no meu Instagram)

Ainda em tempo:

Uia! uia! O pessoal do Petapixel escreveu uma nota sobre a minha adaptação 😀

Bessa_lens_Bessa_PetaPixel

Uia, uia, uia! O Pessoal do Hack-a-Day também curtiu minha conversão:

Hack-a-DayThanks Anool!

 

Sobre o autor

Mário Nagano

Desde o século passado Mario Nagano analisa produtos e já escreveu sobre hardware e tecnologia para veículos como PC Magazine, IDGNow!, Veja e PC World.
Em 2007 ele fundou o Zumo junto com o Henrique assumindo o cargo de Segundo em Comando, Editor de Testes e Consigliere.

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