ZTOP+ZUMO

Mãos ao alto… e a vida sem celular (e outros gadgets)

Vida sem celular é um novo projeto do ZTOP: como a vida louca da metrópole e sua criminalidade nos pode fazer desacelerar em relação a gadgets e tecnologia. Para começar, nosso chapa Bernhard Schultze conta um pouco como isso é (ou não) possível. Leia seu relato a seguir:

—-

Mãos ao alto! Isto é um…

… assalto”? Isso é coisa do passado. No início de maio, fui assaltado enquanto chegava à SEO Marketing, minha agência. Saí do carro com as mãos levantadas – vício dos filmes – ao que fui imediatamente corrigido: “ maluco, mano? Baixa as mão ou vai levar tiro.”

Resumo da história, foi-se o meu iPod vídeo preto série U2 que preenchia minhas necessidades musicais no carro, meu iPhone 4S novinho e meu iPad, que estava no porta-malas. Pois é, o carro foi junto (isso é outro causo, por sinal).

Mas nos momentos seguintes ao assalto, as imagens do iPad no porta malas e do celular nas mãos dos bandidos não me saíam da cabeça, e era essa a minha única preocupação. Todas as fases de todos os Angry Birds – original, Rio, Seasons, Space, passados com três estrelas.

E se o restore do backup do iCloud não funcionar? Terei paciência de passar de novo por todas as fases? Centenas de horas jogadas no lixo? Ainda consegui rastrear o bandido por alguns minutos pelo aplicativo “Locate my iPhone” em um iPhone de um colega de trabalho, mas os bandidos também estão ficando tecnológicos, e logo desligaram o celular para não serem rastreados.

Passado o susto, hora de me reequipar. Antes de decidir que celular comprar, resgatei um iPhone 4 com o botão central quebrado, apenas para poder ativar a linha. Demorei duas semanas para conseguir o novo microchip, e como é de se esperar de minha operadora, o tal “espere algumas horas para que o chip seja ativado” não acontecia nunca.

Desde que ganhei meu primeiro celular corporativo no século passado adquirido a peso de ouro, foi a primeira vez que fiquei três semanas sem dormir com o aparelho ao meu lado.

E, coincidência ou não, fazia muito tempo que não dormia tão bem. E de repente, foi-se aquela necessidade de fazer check-ins no Foursquare em todo o lugar que eu ia, e perder todos os mayorships da Ciclovia da Marginal do Pinheiros não doeu nem um pouco. Checava meu e-mail ao voltar ao trabalho, não precisava/podia fazê-lo do carro.

Dirigir, caminhar e almoçar sem a possibilidade de ser incomodado tornou cada atividade mais tranquila, intensa. E ficar sem ouvir meus hard rocks a todo e qualquer momento com meus fones de ouvido antirruído baixou minha adrenalina a níveis de pessoas normais e comunicativas.

Mais uma semana sem sinal de celular, nova visita ao posto autorizado mais próximo de minha operadora e um mea-culpa do tipo “mas seu chip jamais foi ativado“. Como ponto positivo, a recepcionista ativou uma função de acessibilidade no iPhone que emula o botão avariado, e eis que voltei a ter um telefone operacional. “Um funcionário da Apple me ensinou este truque”, afirmou a atenciosa recepcionista.

Finalmente passei a receber e efetuar ligações. Mas, de repente, ficar propositadamente sem celular passou a ser uma ideia não tão absurda.

Requer uma programação mais rigorosa para pegar filhos na escola, manter meu calendário online atualizado para que todos da agência saibam onde estou, e torcer para que não haja alguma situação  da qual me arrependa de fazer  algo impensável para uma pessoa que por anos a fio viveu conectada 24 horas por dia – ficar três meses sem o celular e sem meu fiel companheiro de insônias, o iPad. Será que eu suporto o processo de “desintoxicação”?

Começando em 5, 4, 3, 2, 1- JÁ!

———-

Os donos da casa comentam: Este ZTOP é bastante reticente a ter autores externos escrevendo por aqui.

No caso do Schultze, a coisa é um pouco diferente: conhecemos o cara faz algum tempo (o Nagano deve lembrar dele dos tempos de Intel), ele já prestou consultoria com a SEO Marketing para a gente (funciona, viu? :P) e a ideia de contar um pouco sobre a vida semi-desconectada é bem legal. Ele vai escrever aqui todo mês pra contar suas aventuras sem estar sempre conectado em todo lugar. 

Não quero que ele chegue ao radicalismo do projeto do Paul Miller, lá no The Verge – um ano sem internet! -, mas desintoxicar aos poucos dos excessos da tecnologia é algo que consideramos muito positivo. E algo que quero aprender também (isso porque o Bernardo não tem que moderar comentários…). E que venham os próximos meses.

crédito da foto: Shutterstock