Vi uma sinfonia composta por IA (e é melhor se acostumar com a ideia)

V

Da série “coisas aleatórias que acontecem na minha vida”, vim à Cidade do México ver uma orquestra tocar a “sinfonia inacabada” de Schubert… que foi terminada por uma inteligência artificial em um smartphone da Huawei (!)

Longa história curta, Franz Schubert morreu antes de terminar sua 8a. sinfonia, deixando apenas dois movimentos prontos (e um rascunho do terceiro movimento). Existem diversas teorias se a sinfonia acabou ficando de lado porque o autor achou que era muito complicada para terminar ou porque Schubert pegou sífilis em 1822 (morreu da doença em 1828).

Esta é a obra de Schubert, em dois movimentos, a “Sinfonia Inacabada”. Dramática, intensa e… sem final.

Corta pra 2018/2019: estamos em uma era da humanidade que podemos resolver problemas sérios e não tão sérios com ajuda da tecnologia.

A Huawei teve a ideia de terminar a obra de Schubert usando inteligência artificial. Sim, é um grande exemplo de como usar algo histórico para chamar atenção para sua marca de forma polêmica – e os chineses não estão errados em fazer isso.

Polêmica? Sim.

Mexa com a obra clássica de qualquer autor – ainda mais 197 anos depois da sua criação original – e os puristas irão reclamar. Ou dizer que não é boa. Não estou aqui para avaliar se boa é ou não: ouvi a sinfonia agora “completa” e, com meus ouvidos leigos, percebi a diferença entre as duas primeiras partes de Schubert (leves, intensas, profundas) e as criadas pela AI da Huawei (mais rápidas, aceleradas, ansiosas, talvez um bom retrato do nosso tempo).

Mas vejo a reação purista similar a quem reclamou da tecnologia substituindo cavalos, ou disse que computadores não entrariam nos escritórios e até mesmo que sistemas operacionais amigáveis ao toque eram comparáveis a uma criança na neve fazendo xixi.

Usar novas tecnologias para criar conceitos que mudam a vida das pessoas é parte da nossa história recente. Reclamar que tecnologias são ruins faz parte da humanidade – e por isso não me espanta a qualidade de uma sinfonia finalizada por IA.

Antes da apresentação na última sexta, falei com Lucas Cantor, o compositor que ajudou a Huawei a ajustar os resultados da IA para algo mais palpável para ouvidos humanos. O comentário dele mais interessante foi que, usando aprendizado de máquina, a Huawei “alimentou” a IA em um smartphone Mate 20 Pro com toda a obra de Schubert de uma vez só, e o resultado foi “caótico”, nas palavras do autor. Tenho a curiosidade de ouvir as versões dessa obra de Schubert na versão “sem humanos” da IA – mas sei que isso não vai acontecer.

Para resolver esse caos, refizeram o processo e foram aos poucos dando as informações para a IA (perguntei detalhes do processo pro Lucas Cantor, mas ele disse que não sabia os detalhes técnicos de algoritmo) e refinando os resultados.

Até sugiro para a Huawei, neste ano ou no próximo, refazer o experimento com outro smartphone mais poderoso e outro “companheiro humano” para ver qual será o resultado – muito diferente ou muito parecido? Lucas Cantor, que já ganhou alguns Emmys, tem uma experiência maior com música de entretenimento e TV, e acho que a aceleração da obra tenha muito dessa influência humana.

Em tempo: baixe a sinfonia “completa” aqui e tire suas conclusões (arquivo MP3).

Disclaimer: Henrique viajou ao México a convite
da Huawei Brasil.
Fotos, opiniões e comentários infames sobre
música clássica são dele mesmo.

Nagano comenta: Essa iniciativa da Huawei é bem bacana no sentido de usar um smartphone e técnicas de aprendizado de máquina para compor músicas — apesar de que usar algoritmos para isso não é bem novidade ao ponto do Wikipedia até ter um verbete dedicado a esse assunto.

E segundo o que o Lucas Cantor disse pro Henrique, a empresa pode ter optado por este método.

O curioso é que se os chineses criaram um final para uma obra inacabada, os bretões juntaram um bando de expertos (ou como eles dizem, boffins) …

Clique para ampliar

… para produzir em 2016 um musical completo criado por computador:

Mais sobre isso aqui.

Sobre o autor

Henrique Martin

Henrique Martin já escreveu na PC World, PC Mag, Folha de S. Paulo e criou o Zumo em 2007. Em 2011, o Zumo se transformou no ZTOP, referência em conteúdo original sobre tecnologia em um mundo pós-PC. Siga-o no Twitter: @henriquemartin

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