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Conheça o Tinkercad — o “Autocad” para o resto de nós!

Ferramenta de design colaborativo da Autodesk quer levar a cultura da arte de fazer coisas para qualquer pessoa, independente da idade, gênero e área de conhecimento.

No fim do ano passado entre um evento e outro lá fora, passamos alguns dias na região de São Francisco para visitar algumas empresas — entre elas a Autodesk — que sempre tem algo super bacana para nos mostrar quando estamos lá por perto da sua sede no complexo One Market Plaza:

Dentre os encontros agendados pela empresa aqui do Brasil (thanks Kelli, thanks Pri!) um dos mais interessantes foi uma conversa que tive com Guillermo Melantoni, gerente de produtos responsável pelo Autodesk Tinkercad, uma ambiciosa e empolgante iniciativa de levar a cultura do desenho técnico assistido por computador (ou CAD) para qualquer um interessado em fazer qualquer “coisa”, independente da sua idade, gênero ou área de conhecimento.

Mas o que é o Tinkercad? Antes de mais nada, ele não é um Autocad freeware ou coisa do tipo e sim uma ferramenta gratuita para modelagem e impressão de objetos em 3D voltada para crianças (e também marmanjos) de todas as idades:

Melantoni explicou que uns 5 ou 6 anos atrás, quando surgiram as primeiras impressoras 3D, ele e o CEO da Autodesk perceberam que estavam diante de uma nova revolução tecnológica onde — num futuro não muito distante — qualquer pessoa poderia projetar e produzir suas próprias “coisas” sem depender de uma grande infraestrutura como uma fábrica.

E foi nesse momento que eles perceberam que, apesar de todo o seu grande know-how e imensa linha de produtos e serviços, eles não tinham nada que pudesse atender a essa nova geração de realizadores, o que engloba praticamente todos aqueles que não são técnicos nem engenheiros que hoje já trabalham com programas de CAD/CAM.

Assim o grande desafio da empresa era de criar um nova ferramenta de design para “o resto de nós” que não conhece as complexidades desses sistemas e que fosse tão simples de usar que até uma criança poderia criar e fazer suas próprias coisas.

Para encarar esse projeto, a Autodesk criou um grupo liderado por Melatoni que se organizou como se fosse uma startup, ganhando assim bastante agilidade tanto para acertar rápido quanto para errar rápido, maximizando assim os resultados dentro de um orçamento limitado.

Mas antes do Tinkercad o seu grupo desenvolveu uma suíte de aplicações chamada 123D sendo que sua ferramenta de modelagem 3D se chamava 123D Design e também era uma aplicação freeware voltada para hobbistas, sendo que muitos deles…

… fazem parte de uma demografia conhecida como movimento Maker que é entusiasticamente apoiado pela Autodesk ao ponto de ela ter adquirido o site Instructables em 2011 e até ter construído uma super infraestrutura para apoiar a sua comunidade — o notório Pier 9 Workshop de São Francisco:

E por que investir tanto nesses “negócios”? — Com mais de 2 milhões de membros registrados (e inúmeros visitantes casuais,) os frequentadores do Instructables representam um imenso mercado consumidor para os produtos da Autodesk, já que se eles vão mesmo precisar de um software inventar e construir suas “coisas”, melhor fazer isso de maneira legal e organizada com os softwares da Autodesk e não da concorrência… né?

E como no caso da famosa suíte de aplicativos de escritório do pessoal de Redmond, estar desde sempre familiarizado e habituado a trabalhar com os softwares da Autodesk já é um grande incentivo para que essas futuras gerações de profissionais que optarem por carreiras nas áreas de design ou engenharia procurem proficiência nos produtos mais avançados da casa e não da concorrência… Né?

De fato, essa idéia também não é nova já que ela data da época em que a IBM doava mainframes para escolas técnicas e universidades para que os futuros profissionais da área de TI fossem educados e, consequentemente, preferissem trabalhar com seus produtos e serviços.

Mas por uma questão de racionalização, a linha 123D foi aposentada e sucedida pelo Tinkercad que foi adquirido — ou mais exatamente salvo pela Autodesk — em 2013 por oferecer diversas vantagens, entre elas a de ser uma ferramenta na nuvem totalmente online e escrita em WebGL, o que permite que qualquer usuário possa acessá-la a qualquer hora e em qualquer lugar a partir de um PC com navegador Web.

Fora isso, o Tinkercad também enfatiza o conceito de comunidade, incentivando a interação entre seus usuários que podem mostrar, discutir e compartilhar seus projetos…

… permitindo assim que outros também possam encontrar uma fonte de inspiração no melhor estilo “uia! dá pra fazer isso?” e até mesmo usar um projeto pronto como ponto de partida para criar seus próprios objetos ou seja, o ecossistema do Tinkercad incentiva o chamado aprendizado contínuo onde o usuário é sempre desafiado a estabelecer um objetivo e procurar os conhecimentos necessários para realizá-lo:

Outro grande atrativo desse software é que ele ensina alguns conceitos bem interessantes como “botar a mão na massa” ou mais exatamente modelar objetos em 3D no computador — uma habilidade por sinal muito valorizada nos dias de hoje, inclusive no mercado profissional.

De fato, o Tinkercad faz isso de maneira bem intuitiva e até lúdica, já que o seu método de desenho lembra vagamente esculpir objetos com massa de modelar: você começa com uma forma básica que você vai apertando aqui e esticando lá até chegar no formato desejado, algo tão comum nas nossas vidas que chega até a ser instintivo.

Talvez o único conceito mais “complexo” que as pessoas podem saber fazer (mas acham que não sabem), é o uso de figuras geométricas como ferramentas que são tanto para adicionar quanto retirar “material” do objeto. Algo que — depois de bem explicado — todo mundo vai lembrar daquela idéia de fazer furos ou recortar contornos usando um prato ou copo:

Aqui outro exemplo mais elaborado:

Uma das consequências mais interessantes dessa idéia de reunir pessoas ao redor de um interesse em comum por meio de uma ferramenta catalizadora como o Tinkercad foi a formação de grupos temáticos apoiados pelo produto por meio de ferramentas especializadas, bibliotecas específicas até páginas dedicadas para este ou aquele tema/assunto/especialidade.

Por exemplo, a mais simples e singela (para não dizer inusitada) delas é o Tinkercad para Plantadores de Suculentas, que ensina como modelar e imprimir pequenos vasos a para cultivar plantas suculentas:

Interessante destacar que empresas como a Shapeways desenvolveu um curioso serviço capaz de produzir peças de cerâmica com moldes impressos em 3D a partir de peças desenhadas no Tinkercad:

Outros grupos são mais populares como o Thinkercad para fãs de Pokemon (Gotta make ‘em all! )…

… e o divertido Tinkercad para Fidget Spinner, o chamado “bambolê da geração Z”:

Já outros grupos dependem de ferramentas específicas de software como o Tinkercad para Blocos

… que converte — ou mais exatamente — decompõe um objeto criado originalmente no Tinkercad

em bloquinhos de montar em diversas escalas ou níveis de dificuldade baseado no número de peças como o fácil (até 1 mil peças)…

médio (algo entre 1 e 5 mil peças)…

… e o avançado (acima de 5 mil peças):

Fora isso, o sistema pode apresentar um esquema de montagem passo-a-passo (ou mais exatamente camada por camada) do projeto, permitindo assim que qualquer um possa entender como ele foi construído e possa ser replicado:

Esse conceito de decompor objetos também é utilizado no impressionante Tinkercad para Minecraft

… onde os projetos em 3D…

… podem ser convertidos (ou seriam pixelizados?) automaticamente em bloquinhos de Minecraft e salvo no jogo por meio do utilitário MCEdit (mais detalhes aqui).

E o resultado?

Interessante notar que esse processo de decomposição do modelo em blocos é feito por meio de um simples seletor de modos na tela principal do editor do programa…

… que no modo padrão (de desenho) é conhecido como Tinkercad Design, mas que com um simples clique do mouse…

… passa para o modo “Blocks” que converte o projeto em bloquinhos também em três níveis de resolução (1x, 2x e 3x). Note também que a biblioteca de formas e figuras do lado direito da tela mudou para tipos de materiais presentes no Minecraft, como Stone, Bedrock, Block of Iron, Quartz, Obsidian etc.

Melantoni disse que, a princípio, seu grupo manteve-se fiel ao conceito original do Tinkercad de ser uma ferramenta de modelagem e impressão de objetos, mas ao mesmo tempo eles começaram a pensar o que mais eles poderiam implementar nesse sistema já que, no fim das contas, a cultura Maker não se limita a fazer pecinhas de plástico mas também envolve outras áreas de conhecimento como de programação e eletrônica.

Daí nasceu o desejo de incorporar esses elementos dentro do Tinkercad já que, segundo o executivo — só quando você combina design com programação e eletrônica é que o negócio começa a ficar realmente incrível já que é nesse momento que você começa a pensar “puxa vida, posso fazer um isso! — Mas espere… Posso fazer isso e por uma luzinha na ponta… e ainda fazer com que ele toque uma musiquinha… do meu time favorito!!! ” e assim por diante.

De fato é muito inspirador quando vemos uma criança ter contato com o nosso produto e começa falar desse jeito, conclui o executivo já que, com essas ferramentas, não existe mais desculpas para qualquer um que tenha uma boa idéia não possa realizá-la e até produzi-la mesmo que em poucas quantidades, o que o livra de alguns incômodos como procurar um fabricante na China que só vai te atender se você encomendar um ou dois contêineres cheios.

E tudo que você precisa é de um programa navegador e acesso à internet!

E como o próprio nome sugere, o Tinkercad Circuits é o módulo de eletrônica do sistema que veio de outro produto da casa — o 123D Circuits o que em parte explica o visual da sua área de trabalho que é 2D o que, neste caso não faz diferença alguma e até ajuda a organizar as idéias.

O mais importante é que o Tinkercad Circuits mantém o mesmo espírito de “vamos pôr a mão na massa” o que neste caso é selecionar um ou mais componentes eletrônicos da sua rica biblioteca de partes e peças…

…que são arrastadas para a área de trabalho e dispostas de uma maneira organizada (ou não) para depois serem soldadas interligadas ponto a ponto por linhas que representam os fios que formam assim o circuito eletrônico:

Feito isso, basta ativar a função iniciar a simulação e se tudo ocorrer de acordo com o esperado, ele deve funcionar — No nosso exemplo, todos os LEDs coloridos devem acender:

O interessante do Circuits é que ele também conta com diversos instrumentos de bancada, o que torna a sua experiência de uso ainda mais realista. Nessa bancada virtual temos fonte de alimentação, gerador de função, osciloscópio

,,,e até o bom e velho multímetro

… e que pode ser usado pelo usuário como parte do projeto como se fosse um display ou para analisar diferentes partes do circuito…

… ajudando-o a localizar falhas ou compreender melhor o funcionamento do circuito.

E o mais bacana é que no caso de algum acidente ninguém se machuca ou leva um leva um prejuizo no bolso:

E por se tratar de um simulador e a disponibilidade de componentes imensa, é possível conceber projetos que talvez nem seriam viáveis no mundo real:

E fora os componentes analógicos (transístores, resistores, capacitores, relês etc.), o Tinkercad Circuits também incorpora um bom sortimento de chips discretos incluindo tipinhos clássicos como o oscilador 555 e o amplificador operacional 741, além de um monte de chips lógicos para uso geral da família 7400

… que permitem desenvolver circuitos lógicos capazes de ilustrar alguns conceitos básicos de como um computador digital funciona, como no circuito abaixo que soma dois números binários:

Mas para aqueles que preferem explorar conceitos mais modernos e avançados de eletrônica digital , a boa notícia é que na biblioteca de componentes do Circuits também há micro-controladores como o popularíssimo Arduino Uno R3 e o ATiny85 além de um pequeno sortimento de módulos sensores, atuadores e até uma interface Wifi!

Com isso é possível desenvolver diversos tipos de projetos na área de prototipagem eletrônica a partir de uma idéia própria ou mesmo de um circuito básico disponível na biblioteca do sistema:

Porém, o mais interessante disso é que além de montar o circuito, também é possível programar o microcontrolador dentro no Tinkercad já que ele conta com seu próprio editor de programas, cujo código fonte pode escrito tanto na tradicional forma de texto…

… quanto no mais moderno sistema de blocos baseado na linguagem Scratch:

E com o circuito montado e o código escrito, basta iniciar a simulação para ver o sistema funcionando (neste caso um simples medidor de distância):

E como já dissemos antes, a partir desses exemplos simples, é possível desenvolver projetos até bem sofisticados combinando todos os componentes disponíveis no Tinkercad:

De fato, a implementação mais recente desse sistema é o chamado Circuits Assemblies que combina os elementos do modelador de objetos do Tinkercad Design com o Tinkercad Circuits

… permitindo assim a criação de projetos ainda mais elaborados…

… como esse brinquedo iluminado:

Se comparado com o Circuits, a parte de eletrônica já disponível no Thinkercad Design ainda é relativamente simples, se limitando a componentes básicos como baterias, luzes, chaves, motores e alguns módulos já pré definidos como o Glow, Move e Spin, cuja fabricação e montagem estão detalhadamente descritas no site Instructables.

Interessante notar nessa biblioteca de componentes é que além do Arduino Uno, também já existem o Raspberry Pi e o BBC micro:bit que não estão presentes no Tinkercad Circuits (pelo menos por enquanto!)

A idéia por trás disso é que esses módulos e plaquinhas estão presentes mais como uma representação desses objetos físicos, ou seja, caso o usuário queira por exemplo, criar um mini gabinete para um Raspberry Pi…

… nada mais cômodo do que ter uma versão virtual à disposição para ver se ela se encaixa no seu projeto, né?

Com relação ao futuro, Melantoni falou que existem debates sobre a implementação de novas idéias, como por exemplo adicionar atributos de física aos objetos 3D (como peso, gravidade, resistência a flexão, atrito, vento etc.) o que poderia combinar bem com algumas tecnologias em ascensão como Realidade Aumentada e Realidade Virtual.

Porém o executivo observa que decisões desse tipo devem ser tomadas com muita cautela, já que um dos mantras do Tinkercad é exatamente que ele seja simples, de modo que o excesso de “complicações” pode até agradar os usuários mais “expertos”, mas isso também pode afastar os iniciantes que talvez seja um público até mais importante para a empresa.

Já outro recurso bacana que ainda está em desenvolvimento é o que ele chamou de “3D Electronics” que são circuitos eletrônicos montados dentro de módulos impressos em 3D, algo por sinal que ainda é meio ficção científica para o mercado, mas é o tipo de coisa que faz com que ele acorde de manhã sempre feliz e com vontade de ir para o serviço.

Ele disse que na época em que o Tinkercad foi adquirido, ele não era mais do que uma demo, mas com o suporte da Autodesk ela se tornou um grande produto com milhões de usuários cadastrados e que já se posiciona como uma das grandes big players no segmento educacional no ensino de STEM — uma verdadeira obsessão nos EUA já que esses conhecimentos são considerados primordiais da formação dos chamados profissionais do futuro.

De fato, o executivo usa como exemplo sua própria experiência pessoal, já que ele é pai de duas crianças – uma de 5 e outra de 8 anos.

Ele diz que ninguém é capaz de dizer como será o mundo quando seus filhos entrarem no mercado de trabalho, de modo que melhor coisa que ele pode lhes proporcionar é uma boa mentalidade e um conjunto de habilidades que façam com que eles sejam sempre aprender coisas novas. Isso não significa que aquilo que aprendemos hoje se torne inútil, mas talvez menos relevante.

Assim, manter a nossa veia criativa sempre ativa, curiosa e interessada em aprender (e fazer) coisas novas por meio da troca de idéias e da colaboração é a essência do que queremos proporcionar com o Tinkercad.

Para mais informações nós recomendamos que os interessados visitem o site do Tinkercad sendo que boa parte da sua interface também já está disponível em Português, incluindo o software de Design:

Be there, or be square!

Disclaimer: Mario Nagano viajou por conta própria para Califórnia e visitou o Pier 9 a convite da Autodesk. As fotos bacanas, observações brilhantes e piadinhas infames são dele mesmo.

Desde o século passado Mario Nagano analisa produtos e já escreveu sobre hardware e tecnologia para veículos como PC Magazine, IDGNow!, Veja e PC World. Em 2007 ele fundou o Zumo junto com o Henrique assumindo o cargo de Segundo em Comando, Editor de Testes e Consigliere.