Retrotech: O Tesouro de Sierra Madre (ou que diabos esse cara está fazendo na capa?)

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Conheça o livro que deu origem ao clássico filme de John Huston, o mistério do seu autor e a estranha edição brasileira de 50 anos atrás.

Da série “livros bacanas que você nunca quis ler porque já viu o filmeO Tesouro de Sierra Madre, de B. Traven, é a obra que deu origem…

… ao clássico filme homônimo de 1948

… dirigido por John Huston com Humphrey Bogart, Tim Holt e Walter Huston…

…que frequentemente aparece nas listas das melhores filmes de todos os tempos, o que não deixa de ser uma façanha notável para uma história que não tem mulher bonita, músicas com dancinha, sabres de luz e o astro do filme ainda me perde a cabeça (no sentido mais exato da palavra) e morre no final.

Na época em que estava doido atrás desse livro faz uns 3~4 anos, eu sabia da existência de duas edições nacionais: Uma mais antiga de 1964 publicada pela Editora Civilização Brasileira, e outra mais recente que saiu pela Paz e Terra em 1984 que são edições meio raras, mas não exatamente caras no mercado de usados, o que me faz crer que esse título nunca foi republicado nas últimas décadas no Brasil por simples falta de interesse.

Assim, no fim das contas eu cansei de procurar por esse livro e acabei lendo a versão em inglês no Kindle que parece ser baseada numa edição de capa dura de 1967 cuja tipografia do título é muito parecida com a usada no título do filme Planeta dos Macacos de 1968:

Mas depois de tanto tempo, eis que estava eu na semana passada moscando num sebo da cidade e acho isso na prateleira pela bagatela de R$ 20 ???:

Esta por sinal é a notória edição de 1964 da Editora Civilização Brasileira com tradução de Fernando de Castro Ferro

… e que é identificado nas primeiras páginas como parte da coleção Biblioteca do Leitor Moderno (ou BLM — volume 45) voltada à divulgação da literatura estrangeira entre os anos de 1961 até 1980 com quase 188 obras no seu catálogo.

Para um livro de mais de 50 anos de idade, ele até que está bem conservado, passando a impressão de que foi lido algumas vezes (duh!) e descansou na estante pelas décadas seguintes.

Livro x Filme

O que me lembro deste livro (da época que li no Kindle) é que a história é bem mais rica que no filme (duh!) mas, no geral, não muda muita coisa sendo que locais como o hotel Oso Negro são descritos com mais detalhes e fatos como o ataque ao trem que no livro é um acontecimento a parte contado por Lacaud (Cody no filme) antes do ataque dos bandidos mexicanos ao acampamento do garimpo.

O livro também meio que demora a ir ao que interessa, já que as 50 primeiras páginas do livro narram as desventuras de Dobbs em Tampico e depois nos diversos campos de petróleo da região a procura de emprego na companhia de Moulton (que não aparece no filme). Só depois disso é que ele conhece Curtin quando trabalhou para McCormick e só lá pela página 70 é que eles partem para Sierra Madre juntos com Howard.

Assim, no geral, John Huston fez um excelente trabalho no seu roteiro, tornando a narrativa original de Traven apenas mais linear e com um ritmo bem mais adequado para um filme…

… mas para isso retirou algumas partes bem bacanas como os contos preventivos da La Mina Agua Verde e da Doña Catalina Maria de Rodriguez que Howard contou para Dobbs e Curtin para ilustrar seu ponto de vista em alguma discussão.

Cadê seu distintivo?

A propósito, a antológica frase “Badges? We ain’t got no badges. We don’t need no badges. I don’t have to show you any stinkin’ badges!” dita pelo bandido Gold Hat (Alfonso Bedoya) …

… faz parte de um diálogo bem mais longo entre o dito cujo e Curtin (não Dobbs!) e que aparece assim no livro:

Momentos mais tarde, o cabecilha, o de chapéu dourado, avançou para o meio do acampamento. Cruzou as mãos em frente do cinturão, indicando assim que não tencionava servir-se da pistola se não fosse atacado.
— Oiga, señor! Nós não somos bandidos. Está enganado. Somos a polícia montada. Andamos à procura dos bandidos. Assaltaram um trem, sabe?
— Está bem — respondeu Curtin. — Se são da polícia, onde estão os seus distintivos? Mostre-mos.
Distintivos? Que os distintivos vão para o inferno! Não temos distintivos; não precisamos deles. Não vamos mostrar-lhe quaisquer distintivos, seu grande cabrón e chingue tu madre! Saia daí, que tenho de falar com você!
— Eu não tenho nada para falar com você! Se quer falar, fale daí. Não se aproxime, ou levará um tiro.
— Vamos prendê-lo, por ordem do governador! Você não tem licença de caça, nem de porte de arma. Temos ordem para lhe confiscar as armas e a munição.
— Onde está o distintivo? — perguntou Curtin. — Mostrem-me, e eu talvez me decida a dar-lhes ouvidos.
— Vá, seja razoável. Não vamos prendê-lo. Basta que nos dê o fuzil e os cartuchos. Somos boa gente.
O homem deu dois passos em direção à trincheira. Quatro ou cinco dos outros foram atrás dele.
— Mais um passo… — gritou Curtin — e disparo!
—- No sea malo, hombre! Não lhe queremos fazer mal, pode estar certo. Seja um pouco mais sociável. Já lhe disse que não queremos fazer mal. Dê-nos as suas armas, e o deixaremos em paz. Garanto-lhe — disse ele, sem contudo se acercar mais.
— Preciso do fuzil para defender-me. Não o posso dar.
— Atire para cá esse pedaço de ferro enferrujado, e nós partiremos logo.
— Nada feito. O melhor que têm a fazer é darem o fora sem a minha arma, e depressa. Estou quase perdendo a paciência com essa conversa fiada.

Aliás, no livro Dobbs não foi morto por Gold Hat e sim por outros três criminosos anônimos que também deceparam sua cabeça com um facão. Algo por sinal que Huston não quis deixar de fora do filme de modo que ele teve que se virar para fazer uma montagem cuja ação é tão vaga, sutil e subliminar que o fato em si pode até passar batido para quem não sabe do que se trata:

Por fim o mais curioso é que ao contrário do filme, no fim Curtin e Howard ainda recuperaram dois sacos de ouro que não foram rasgados pelos bandidos, de modo que — no fim das contas — o final do livro não foi tão “infeliz” para os protagonistas (fora Dobbs, é claro!)

O mistério de B. Traven

A identidade real de B. Traven (se é que esse é o seu nome) nunca foi revelada e ele é meio que um mistério no mundo literário, assim como a jornada deste livro, já que ele foi publicado pela primeira vez na Alemanha em 1925 com o título Der Schatz der Sierra Madre e só saiu em inglês em 1935 na Inglaterra mas não nos EUA.

Isso porque Traven era um bolchevista roxo, anti-capitalista e pró-anarquista que não ia muito com a cara e os ideais dos norte-americanos.

Suposta foto de B. Traven ou de Ret Marut ou de Traven Torsvan ou de Otto Feige ou de Traven Torsvan Croves ou sei lá!

Dizem que ele provavelmente nasceu na Alemanha em 1882 (ou 1890) e, na época em que o filme foi feito, já tinha se exilado no México que foi o pano de fundo de muitas das suas obras, sendo que em 1946 seu agente literário Hal Croves (que muitos desconfiavam ser o próprio Travis) trabalhou para Huston como uma espécie de consultor do livro.

Hal Croves durante as filmagens no México

Vale a pena destacar que em 1964, Traven (na época com 82 anos) escreveu uma mensagem especialmente para os leitores desta edição brasileira

…o que pode ter causando um certo alvoroço no nosso país que estava em vias de (ou que tinha acabado de) passar por um golpe militar o que me faz pensar que se alguém fosse pego com esse livro debaixo do braço não poderia ser chamado de subversivo ou coisa pior.

Sintam o drama:

ALGUMAS PALAVRAS PARA OS LEITORES BRASILEIROS DE B. TRAVEN

Todos os países latino-americanos, independentemente do tipo de governo que tenham, atravessam períodos de graves convulsões, tanto econômicas como políticas, distintas na forma e na essência daquelas que outras nações, em outros períodos, experimentaram. São muitas as causas desses problemas, mas a mais evidente é a generalizada ignorância em que seus povos vêm sendo mantidos, ao longo de séculos, por políticos corruptos e certas forças obscuras.

Durante a maior parte do século passado e até a primeira década do atual, o México sofreu a violência de uma implacável ditadura militar que, em dada fase de sua história, chegou a durar 33 anos consecutivos. O agravamento das condições econômicas e políticas alcançara tal ponto em que não havia outro caminho, senão o revolucionário, para que o povo se libertasse da abominável situação em que vivia.

Muitas pessoas acreditam, baseadas em informações inexatas, que a Revolução Mexicana tenha sido influenciada pela que ocorreu na Rússia. Simples constatação cronológica demonstra que isso não tem qualquer sentido: a Revolução Mexicana começou em 1910, ao passo que a Russa teve lugar ao fim da 1ª Grande Guerra. Além disso, nenhum dos líderes revolucionários mexicanos poderia ser considerado socialista. Dominados por nobre idealismo, desejavam apenas a justiça social e não se baseavam em ideologias ou programas partidários. Queriam livrar-se para sempre da ditadura militar que escravizara toda a Nação e sufocava sob o seu tacão os camponeses, os operários e boa parte da chamada classe média, embora fosse a mãe generosa e pródiga das classes abastadas, tornando os latifundiários e a Igreja Católica ainda mais ricos do que já eram ao término dos tempos coloniais.

A Revolução Mexicana, na verdade, resultou da sublevação de amplas camadas populares que viviam em condições abjetas de pobreza, subnutrição e analfabetismo e se encontravam submetidas a um estado de escravidão que nem mesmo os conquistadores espanhóis, com sua iria crueldade, haviam conseguido manter.

TERRA E LIBERDADE! — bradava Zapata, o grande e primitivo líder agrário, que não passava de um simples camponês.

ELEIÇÕES LIVRES, JUSTIÇA E DIREITOS CIVIS IGUAIS PARA TODOS! — exigia um jovem universitário do Norte, filho de abastada família.

MADERO TEM RAZÃO, E MATAREI QUEM NÃO APOIAR SEUS IDEAIS! — ameaçava o controvertido chefe revolucionário Pancho Villa.

DEVEMOS RESPEITAR, OBEDECER E VIVER PELA NOSSA NOVA CONSTITUIÇÃO! — conclamava Carranza, o dedicado e decidido líder dos Constitucionalistas.

Essas palavras de ordem, esses brados de estímulo calavam fundo no seio do povo sufocado e insatisfeito, que tinha sede de trabalho e não tolerava mais a circunstância de que oito décimos de todas as terras produtivas pertencessem a um pequeno grupo de latifundiários que as haviam roubado aos camponeses. Essa revolta dos sem-terra, dos intelectuais, dos estudantes, unidos e determinados, foi a chama que impulsionou a Revolução Mexicana e destruiu os grilhões da ditadura militar.

Em suas novelas tão cheias de drama e tão autênticas na descrição do panorama social mexicano à véspera de seu grande movimento libertário, B. Traven — que nasceu nos Estados Unidos mas é considerado um dos grandes vultos da literatura de seu país adotivo — nos explica em pormenor as condições determinantes da Revolução e as circunstâncias épicas de sua vitória.

Os brasileiros que lerem os trabalhos de B. Traven poderão estabelecer imediatamente um paralelo entre as condições econômicas e políticas existentes no México antes de sua Revolução e as que ainda hoje caracterizam a vida de todas as nações latino-americanas, inclusive o Brasil. Políticos sensatos e bem intencionados, não importa qual seja a sua ideologia, poderão adquirir, através da leitura dos romances de Traven que esta editora irá publicar regularmente, o conhecimento de que uma revolução, com todo o seu possível corolário de mortes e desgraças, pode sempre ser evitada se tiverem — eles, os políticos — a coragem e a firmeza para agir de acordo com o momento histórico em que vivem, contribuindo com suas ações para a efetiva emancipação de seus povos em lugar de servirem aos poderosos e aos donos da terra.

Desgraçadamente — e Traven é o primeiro a reconhecê-lo — tudo indica que os governantes e políticos nunca apreendem as lições que a História lhes ensina e repetem, com trágica e insensata monotonia, os mesmos erros que em outros tempos e em outros lugares os afastaram de seus povos e foram o estopim de revoluções prematuras e, muitas vezes, sem programa definido para o amanhã.

B. Traven

O mistério da edição nacional

Aliás, essa edição da Editora Civilização Brasileira é — na minha opinião — um mistério ainda maior, já que para mim sua capa tem mais a ver com um roqueiro cheio de peiote curtindo uma bad trip …

… do que três americanos maltrapilhos garimpando nas montanhas do México:

Cutin (Tim Holt), Howard (Walter Huston) e Dobbs (Humphrey Bogart)

Eu sei que a gente não deve julgar um livro pela capa, mas neste caso ela realmente não colabora né? ?

Mas também pode ser que naqueles anos de chumbo, esta capa até pode ter sido um subterfúgio que salvou muita gente de uma visitinha forçada à delegacia para bater um papinho político-literário com o delegado do plantão.

Mistéééério…. ???

Sobre o autor

Mário Nagano

Desde o século passado Mario Nagano analisa produtos e já escreveu sobre hardware e tecnologia para veículos como PC Magazine, IDGNow!, Veja e PC World.
Em 2007 ele fundou o Zumo junto com o Henrique assumindo o cargo de Segundo em Comando, Editor de Testes e Consigliere.

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