CES, redes sociais e privacidade (um caso de terror corporativo no avião)

C

Hoje eu conheci um executivo da indústria de tecnologia no Brasil, mas não precisei trocar uma palavra com ele para descobrir seus gostos, o que ele quer fazer em Vegas e até mesmo que o chefe está machucado.

Por uma questão de privacidade, não vou revelar o nome do executivo ou dar detalhes que possam comprometer alguém (o ocupante do assento 8E sabe, mas é amigo e não vai contar). Este texto é uma lição de moral, claro.

Mas o que presenciei foi a típica ideia do brasileiro de que “estou dentro do avião, ninguém me conhece, ninguém fala português, posso fazer o que eu quero”. Foi no voo 1839 da United Airlines, entre Houston e Las Vegas, hoje de manhã.

Entrei no avião, fui pro meu lugar (7F), uma janela na primeira fila da classe econômica de um Boeing 737. O assento do corredor (7D) foi ocupado logo depois, e o dono do 7E demorou um pouco a chegar.

Fiz minha cara de poucos amigos e fiquei no meu canto. Até que os fones Beats do 7E começaram a vazar som – o 7E estava ouvindo uma playlist da Motown no Spotify, depois alternou para um Metallica nervoso. E percebi que ele era brasileiro, e que os fones dele eram uma porcaria.

Não que “ser brasileiro” seja o problema – pode ser com qualquer um. É achar que você está na classe econômica, apertado ao lado de outras pessoas (OK, a gente tinha espaço na frente para as pernas) e acreditar que ninguém vai ver o que está fazendo. Vale notar que o avião tinha um sistema de entretenimento pago (DirectTV) e eu estava realmente curioso com o papo alheio, sem usar o Wi-Fi do Boeing.

Bônus se você tiver um cargo executivo e não pensar nas consequências disso – vai que do seu lado tem um jornalista querendo notícia? (Lembrei do meu amigo Renato Galisteu, jornalista e hoje marketeiro digital na Oracle, que vira e mexe encontrava gente de tecnologia discutindo projetos de TI e falando mal de cliente no trem da Marginal Pinheiros, em São Paulo). O público não é privado, certo?

Nagano comenta: Esse negócio de falar do trabalho (e mal do chefe) antes ou depois do expediente é algo tão sério que um executivo da Intel me contou certa vez que eles mantém sua própria companhia aérea que faz a rota diária entre San Jose e Hilsboro no Oregon só para levar e trazer o pessoal da empresa.

Quando perguntei o motivo, ele me explicou que era para minimizar o contato do pessoal da Intel com seus colegas de outras empresas em vôos regulares, onde sempre rolava o clássico papo aranha que invariavelmente começava com — “E ai, o que tem feito de bom?

O interessante é que a Intel só emprega aviões da Embraer na sua frota, ou mais exatamente seis modelos ERJ-145.

A culpa mesmo é do WhatsApp, aí entrando na particularidade do brasileiro. Sim, transformamos uma ferramenta de chat rápido em algo oficial para trabalho (não! não! não! usa e-mail ou algo que não seja perene, Slack, TeamWork, Google Hangouts). Quem nunca olhou os nomes bizarros de grupos de WhatsApp no ônibus ou metrô? Ou para o Facebook alheio? Você está ali, longe, prestando atenção no seu mundinho virtual, ninguém ao lado vai ver, né? Vai sim, porque humano é curioso – ainda mais em um local de privacidade negativa, como um meio de transporte.

O primeiro grupo era relacionado a UFC/lutas (ignoro o tema). “Custa X mil o ingresso, é sujeira usar o cartão. Vou tentar a sorte no cassino, vai que dá e a gente vai vou”. (Oi? bem, pelo menos ele tinha consciência sobre o uso do cartão de crédito. Ao menos poderia ganhar muitas milhas, dependendo do cartão).

Seguiu o tema sobre futebol – o 7E torce para o São Paulo ou para o Santos, não deu para ter certeza -, mas depois da decolagem (já no Wi-Fi do avião, mas sem desligar a rede de dados/modo avião – outro hábito tonto de frequentador de ponte aérea) a coisa escalou.

Primeiro o 7E discutiu números do faturamento da empresa em dólar e reais com algum subordinado. Até então, achei que era alguém “do comercial”, mas não. E era um montante alto, na casa dos centenas de milhares de reais (ou dólares, já que eles estavam indecisos). A conta, aparentemente, não fechava e alguma explicação estava sendo dada (o 7E estava com uma expressão séria no rosto, mesmo com o som ainda vazando dos seus Beats).

Depois, entrou no tema do chefe ou diretor regional, que se machucou durante as festas de fim de ano – mas como bom workaholic, mesmo machucado segue no escritório, ainda que de forma limitada. O 7E respondeu um e-mail do chefe desejando melhoras, e aí vi o cargo dele na tela do iPhone (gente, lembra: classe econômica. É apertado mesmo): Country Manager Brasil, XXXX.

E daí a coisa seguiu – alternando entre mensagens pessoais, outras de trabalho, muitos likes no Facebook e no Instagram, avisos para outros subordinados que estava ainda no avião, tudo misturado no mesmo smartphone. Se country manager de qualquer coisa fosse, no mínimo instalaria um filtro 3M de privacidade na tela do iPhone e dividiria as coisas – trabalho num aparelho, pessoal no outro. Mas é um saco andar com dois telefones, afinal.

Nem precisa ser country manager: basta ter poder de decisão e ter noção de que certas informações não devem chegar ao público. Vai que eu sou o concorrente e ele não sabe?

Sorte que, dessa vez, era só um jornalista curioso e entediado num voo de 3 horas querendo contar uma historinha de terror corporativo sem causar mal a ninguém. E olha que fiquei grande parte do tempo olhando a paisagem ou cochilando.

E, caro 7E, tem mais um motivo pra dividir pessoal do profissional no smartphone: eu vi você abrir aquele seu grupo (aquele do grupo de futebol, que você esconde da mulher, né?) e o aparelho travar por alguns instantes, mesmo sem carregar aquele videozinho maroto de mulher pelada – e você viu que eu vi e ficou assustado, quase chegando ao portão em Las Vegas.

Eu fiz cara de paisagem e virei pro outro lado. Dica de amigo: desabilita o download automático de mídia no WhatsApp, tá?

De qualquer modo, ótima CES pra você, caro companheiro de viagem do 7E. Espero que da próxima vez que você sentar ao meu lado seu smartphone esteja protegido contra curiosos. E boa sorte no cassino!

Disclaimer: Henrique está em Vegas a convite da Dell (não, este texto não é sobre a Dell!). Fotos, opiniões e casos de stalker corporativo dentro de aviões são todas dele.
E, sim, ele escreveria o mesmo texto independente da nacionalidade do desprevenido ao lado – aqui, só calhou de ser brasileiro do mercado de TI. 

 

Sobre o autor

Henrique Martin

Henrique Martin é o fundador do ZTOP+ZUMO e da newsletter de tecnologia Interfaces. Já escreveu na PC World, PC Magazine, O Estado de São Paulo, Folha de S. Paulo e criou o ZTOP+ZUMO em 2007, referência em conteúdo original sobre tecnologia em um mundo pós-PC.

Disclaimer: o ZTOP+ZUMO tem links de afiliados com a Amazon e pode ser
remunerado caso você clique em links neste artigo e compre algo.

RSS Podcast SEM FILTRO




+novos