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[SXSW 2015] 8 tecnologias do Japão

Durante anos indo a eventos, congressos, feiras, lançamentos, esbarrei em muita coisa incrível e, bem, muita tralha no meio do caminho. O SXSW mudou minha percepção:

Como funciona, no geral? Exibições vivem de empresas montando estandes com um único propósito: fazer negócios. Você contrata uns demonstradores, treina-os (ou traz sua equipe junto para ajudar), troca cartões de visitas com interessados, faz negócios.

Países costumam fazer isso também, selecionando ideias, conceitos, produtos para “vender” a ideia de que é legal investir/comprar/fazer negócios com aquele lugar – Brasil, Reino Unido, Alemanha, Argentina e França são só alguns exemplos de quem está no SXSW.

Menos o Japão. O Japão faz isso, mas leva a outro nível. É muito raro ver um stand do Japão numa CES ou MWC – quase sempre porque o mercado local se sustenta, é diferente do resto do mundo e, bem, o idioma é uma baita barreira.

Nagano comenta: Uma analogia bem interessante que já ouvi da Terra do Sol Nascente é que o arquipélago japonês são as Ilhas Galápagos da tecnologia: um local onde certos produtos com características tecnologícas únicas surgem e sobrevivem e aparentemente só prosperam naquela geografia. Um bom exemplo é o leitor de e-books “Galapagos” da Sharp, cuja tela é mais comprida para se ajustar melhor ao modo de leitura (na vertical) dos textos em japonês:

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Outro exemplo ainda mais bizarro são os aparelhos de Fax que ainda vendem (muito bem) no Japão. Também dizem que os dumbphones ainda estão firmes e fortes lá devido a sua facilidade de uso (= teclado físico) e a autonomia da sua bateria ser contada em dias em vez de horas.

Mas o Brasil também não deixa de ter as suas esquisitices no que se refere aos seus hábitos de consumo. Acho que um bom exemplo local são aqueles boom-boxes monstruosos que mais parecem “Weapons of Bass Destruction” do que reprodutores de música:

Panasonic_boom_box

Já ouvi do colega Rogério de Paula, antropólogo, etnografista e pesquisador da IBM que ouvir música alta com caixas de som imensas é coisa de brasileiro, ao contrário dos americanos, japoneses e europeus que, nos dias de hoje, usam mais fones de ouvido. Para eles ouvir música é uma experiência pessoal, enquanto que para nós, música é uma experiência social que precisa ser compartilhada — mesmo que seus parentes e/ou vizinhos e/ou estranhos que estejam por perto gostem ou não.

Philips_boom_box

Vai entender né?

No SXSW, o Japão trouxe o que tem de melhor: ideias muito doidas que podem (ou não) se concretizar. Em vez de falar de como seu software é incrível (ponto pro time da Coreia do Sul e seus “Gangnam Hackers”), trouxeram hardware, software, redes sociais e outras coisas que são simplesmente fora do nosso raio de simples entendimento. É meio como se toda a maluquice futurista dita nas palestras do evento todo se materializasse em meia dúzia de estandes.

A moça do vídeo acima, uma artista performática japonesa, era um grande destaque ao entrar na zona do Japão na feirinha do SXSW. Usando produtos dos criadores locais, ela chamou a atenção. Curioso é que todo mundo perguntava da “cobra robótica” e a resposta (do japonês extasiado com a procura de tanta gente) era “isso é só um acessório de moda, ela é uma artista”. Então tá.

E aí andando pelo corredor japonês, fui descobrindo coisas.

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1) Kakaxi. Seu lema é “Conheça sua comida, da fazenda à mesa”. O Kakashi é um sensor para fazendeiros colocarem nas suas plantações. Conectado à Internet, envia dados para uma rede social de mesmo nome, onde o consumidor consegue acompanhar como está o crescimento das plantas e a qualidade do serviço prestado pelo fazendeiro. Por outro lado, os consumidores postam receitas e fotos dos produtos usados, criando um ciclo virtuoso. Está em fase de financiamento ainda, e me parece algo muito específico para mercados locais no próprio Japão.

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2) Silhouette User Interface, da Juice Design. Baseada em gestos – e ainda bem primordial, apesar de bastante exata – usa reconhecimento de movimentos para capturar objetos em tela (parecia um Kinect, na verdade).

Nas fotos acima e abaixo, a brincadeira era “pegar sushi” na tela em menos tempo (consegui 3 fileiras de sushi em 24 segundos!). Em tempo: Juice significa, na melhor tradição nipônica, “Japan User Interface Communication and Entertainment”.

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3) Moff: é uma pulseira + app para brincar, envolvendo sons e movimento. Já está à venda na Amazon e, bem, os vídeos abaixo explicam tudo (ou não).

4) Rapiro: kit robótico para ensinar a programar. Se quiser, dá para conectar um Raspberry Pi a ele para ampliar suas capacidades. Vem desmontado e suas funções são programáveis e customizáveis. Preço médio sugerido: US$ 530 (já à venda também).

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5) Re:Sound Bottle

Uma das coisas mais divertidas que vi, a Re:Sound Bottle é um projeto em busca de financiamento (vai lançar página em breve no Kickstarter). É uma garrafa de remixes e sons, você grava e modifica em tempo real, usando sensores para mudar ações (caso alguém pergunte, sim, dá para gravar num cartão SD).

6) Orphe: Outro em busca de financiamento (via IndieGogo), é um tênis com uma faixa de LEDs na lateral comandadas pelo computador/smartphone via Bluetooth e Wi-Fi (as configurações incluem um processador ARM e LEDs com mais de 100 cores distintas, além de uma API aberta). Michael Jackson ficaria orgulhoso.

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7) ZaaZ: japoneses têm uma questão com aromas (certo Nagano?). Então, a ZaaZ oferece produtos cheirosinhos, como cartões de visita, caixas de joias e até mesmo uma máquina que emite cheiros (para uso em varejo). Sim, as caixinhas tinham cheiro do que prometiam, menos a de “dangerous wasabi”, que era simplesmente fedida.


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Nagano comenta: Sim, já ouvi essa história também. Dizem que os nipões tem um senso de olfato mais sensível e alguns são até capazes de, por exemplo, saber que você comeu alho só pelo odor emanado pelos seus poros. De fato, alguns guias japoneses chegam a recomendar que os ocidentais evitem consumir esse vegetal/planta/tempero/obra do capeta antes de qualquer encontro mais social e/ou chique.

8) XBen: é a promessa de uma “nova era” para o clássico bentô (=marmita) japonês. Além de carregar sua comida, tem dois motores de vibração, luzes LED, bateria recarregável e um sensor de toque. Pra que? Para incentivar a conversa entre as pessoas, oras! E levar sua comidinha!

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Henrique Martin já escreveu na PC World, PC Mag, Folha de S. Paulo e criou o Zumo em 2007. Em 2011, o Zumo se transformou no ZTOP, referência em conteúdo original sobre tecnologia em um mundo pós-PC. Siga-o no Twitter: @henriquemartin