Review: Nokia N900

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O Nokia N900 não é lá grande novidade para este Zumo: ano passado, na Finlândia, brinquei alguns dias com um, com o qual capturei belas imagens de Helsinki e registrei (com uma luz bem meia-boca) seu hardware. Faltou o tempo para um review completo.

Agora, com um N900 em mãos (e meu, por sinal), dá pra falar mais sobre o smartphone – ainda mais perto do seu lançamento oficial no Brasil. Mmmm, melhor definindo, está mais para um PC que tem telefone.

Vale dizer, antes de tudo, que o N900, com todas suas capacidades, é um aparelho de transição, basicamente algo feito para desenvolvedores explorarem o potencial do sistema operacional Maemo 5 de olho no que o vindouro MeeGo poderá fazer no segundo semestre. E o que importa mesmo no N900, do ponto de vista do usuário final? Vamos por partes:

1) Interface e sistema operacional

O N900 pegou o básico do Symbian e tornou-o ainda mais fácil e simples de usar. O N900 é o primeiro aparelho da Nokia sem botões na parte frontal e, diferente dos Androids (que têm um gerenciamento do aplicativo de telefone relativamente mal-acabado), a falta de botões… não faz falta. Existe um problema operacional sério, entretanto, no N900. Sabe-se lá por que diabos tudo (ou quase tudo, exceção feita ao… telefone!) só funciona na horizontal. O acelerômetro ajuda em alguns programas específicos, mas os principais modos de visualização do N900 estão na horizontal. Como o menu geral de aplicativos, mostrado abaixo.

Dá, entretanto, para configurar o telefone para abrir automaticamente toda vez que você coloca o N900 na vertical – mas aí é trabalho demais, né. Mais fácil colocar um atalho em cada tela principal e está ótimo. O N900 comporta até quatro telas principais, no mesmo estilo Android/iPhone, eu optei por usar duas apenas. Clique no botão de menu e aparece a tela de aplicativos:

O Maemo 5 é esperto na interface: como faz pra voltar se não tem nenhum botão? Simples, basta tocar em qualquer ponto da tela e você está de volta ao desktop inicial. O mesmo vale para qualquer outro comando/configuração. E, bem, ele é multitarefa mesmo, sem engasgar nem um pouco. Para fechar os programas, basta clicar no ‘x’ no canto de cada ícone. E tocar no ícone abre o aplicativo. O botão superior esquerdo leva de volta ao desktop inicial e também serve de atalho para o menu de aplicativos/configurações.

Um recurso integrado ao Maemo 5 e de extrema importância (para a qual os fabricantes de smartphones não acordaram ainda) é o backup, presente em um aplicativo específico. Ele faz cópia de segurança do calendário e configurações de comunicação, favorito, configurações e lista de aplicativos. Eu formatei o N900 para atualizar o seu firmware e o backup remontou todos meus aplicativos, baixando tudo de novo quando uma conexão estiver disponível.

2) Navegador

Android e iPhone têm browsers poderosos, sem dúvida. Mas o navegador de smartphone mais poderoso que já vi é o integrado ao N900, com renderização completa de páginas, incluindo Flash (dá pra fazer a festa no YouTube, Vimeo…). Não acho, pessoalmente, que o Flash é essencial, mas já que funciona no browser, vamos nessa. Olha como o Zumo fica:

Na falta de um app decente para Twitter, tenho usado o próprio navegador para usar o microblog. E funciona super bem. Um toque na tela ajusta o zoom (o controle de volume também funciona para afastar/ampliar o zoom) e ele entra direto em modo de tela cheia, podendo trabalhar com múltiplas janelas abertas.

Ah, sim, existe um Firefox pra Maemo. Usei duas vezes, é bom e estável, mas prefiro o original do aparelho.

Outro ponto bacana resolvido no N900 é o gerenciamento de conexões. Nada mais das mensagens irritantes do N97/5800 de “quer conectar?/tem certeza?”. Escolha uma, defina um ponto de acesso Wi-Fi e pronto. Não precisa mais, basta desconectar ou usar um widget que faz isso automaticamente.

3) Multimídia

Tocador de música OK (com um plug-in baixado no gerenciador de aplicativos consegue rodar FLAC e OGG), mas o grande destaque é o video player. Roda DivX nativo com legendas sem precisar converter e sem engasgar na reprodução. Veja na tela acima que, de algum modo, o N900 enxergou o HD do meu PC pela rede Wi-Fi, mas não tenho ideia de como acessar esse conteúdo ainda.

4) Aplicativos

Eu sei, você sabe, a Apple sabe, o Google também: a Nokia Ovi Store é o patinho feio das lojas de aplicativos para celular. O N900, porém, quebra esse ciclo ao fugir (em partes) da Ovi Store, que tem meia dúzia de apps compatíveis (e geograficamente localizados para o Brasil). Basta usar o Application Manager, um grande repositório de aplicativos para Maemo. Aqui entra o pulo do gato: você escolhe os catálogos que quer usar – os oficiais (Ovi, System Software Updates, Applications, Maemo.org, Maemo Extras), que têm programas prontos para o usuário final – ou entra no submundo com apps em desenvolvimento e que podem, bem, causar danos ao seu querido aparelho (Maemo Extras-Devel e Maemo Extras-Testing).

Não existe nenhuma opção de aplicativos pagos por enquanto. Indico muito o Angry Birds, joguinho extremamente viciante que também tem versão para iPhone/iPod touch. Tenho usado muito o BarrioSquare (um cliente de FourSquare), o bloco de notas Conboy e  o incrível Hermes (que unifica contatos usando a rede do Twitter e Facebook), além do já citado Backup e dos apps normais do N900 (fone, câmera e galeria de imagens com um ótimo gerenciador de compartilhamento – Flickr, TwitPic etc, ). Facebook e Twitter vão direto pelo navegador mesmo.

Para os Linux-users mais afoitos, existe um aplicativo que permite rodar Debian (e seus programas) direto no N900. E, pros piratas de plantão, tem até cliente de BitTorrent pra esse aparelho.

Um recurso muito bem bolado do N900 é a integração do telefone (e dos contatos) com Skype, Google Talk e outros serviços VoIP, assim como a possibilidade de usar múltiplas contas de e-mail no cliente nativo (chupa, Android 1.5!) e, bem, dá pra sincronizar contas do Google de um modo um tanto suspeito (criando uma nova conta Exchange, com servidor m.google.com, porta 443, nome de usuário, senha, nada no domínio e escolher o que quer sincronizar – e-mail, calendário, contatos. Eu deixo apenas calendário e contatos, e funciona sem erro).

5) Conclusão

Boa câmera, incrível browser, boa integração com redes sociais e serviços online, excelente capacidade multimídia e multitarefa, no fim das contas, não escondem alguns problemas do N900. O principal, sem dúvida, é a questão de tudo ser na horizontal. O aparelho em si é menor que um Motorola Milestone, mas mais espesso. A tela de 3,5 polegadas, brilhante, ainda precisa da velha caneta stylus pra algumas funções, já que a tela é resistiva (dang!). O gerenciamento de bateria, bem, é melhor que o de um iPhone 3G ou de um Motorola Dext, mas, como eles, precisa de recarga no final do dia. Eu tenho usado o aparelho na maior parte do tempo com 3G e Wi-Fi desligados, ativando só quando preciso.

Outros itens que merecem menção: câmera incrível de 5 megapixels, teclado QWERTY bastante confortável (apesar da mesma configuração bizarra do N97 com a barra de espaços mais à direita), Ovi Maps funciona bem (apesar de software estar em inglês), 32 GB de armazenamento interno + slot para cartões microSD. Ponto muito negativo: não tem suporte a português brasileiro na lista de idiomas. Uma das configurações de teclado em espanhol até permite acentuar, só que eu me perdi com tudo e voltei para o inglês padrão.

Em tempo: o N900 eleva o nível dos smartphones na Nokia. Se o pessoal de Espoo tivesse lançado esse aparelho no lugar do N97, a história seria outra (em vez da vergonha com os problemas de update de firmware, teriam mais clientes satisfeitos, mais mercado, mais barulho em torno da marca), e eu não sou o primeiro a dizer isso. Hoje consigo sair com um N900 na rua e resolver, por exemplo, problemas do Zumo (aprovar comentários e até escrever posts) graças ao seu navegador. Com o N97, nem pensar. Se o N97 era um “smartphone”, o N900 é um pequeno computador de bolso que, por acaso, fala.

No Brasil, o N900 chega às lojas em meados de agosto, pelo preço sugerido de R$ 1.999, com sistema em português de Portugal (pode deixar em inglês se quiser). Comprei o meu do Lito, do Aviões e Músicas, que o trocou por um Milestone (numa transação gerenciada pela Anita, do Objetos de Desejo). Como disse lá no começo, o N900 é um aparelho transitório: veio para criar espaço entre desenvolvedores e entusiastas mais geeks para a próxima geração de telefones e dispositivos baseados em MeeGo. Mas isso é só no segundo semestre, e agora o N900 ainda vale muito a pena – apesar do alto preço.

Resumo: Nokia N900

O que é isso? Smartphone com sistema operacional Maemo, baseado em Linux.
O que é legal? 32 GB de armazenamento, câmera de 5 megapixels, gerenciamento incrível de conexões.
O que é imoral? Tela resistiva, bateria com duração razoável, interface na horizontal.
O que mais? Bons recursos multimídia, GPS com software de mapas gratuito.
Avaliação: 8,5 (de 10). Entenda nosso novo sistema de avaliação.
Preço sugerido: R$ 1.999.
Onde encontrar: www.nokia.com.br

Sobre o autor

Henrique Martin

Henrique Martin é o fundador do ZTOP+ZUMO e da newsletter de tecnologia Interfaces. Já escreveu na PC World, PC Magazine, O Estado de São Paulo, Folha de S. Paulo e criou o ZTOP+ZUMO em 2007, referência em conteúdo original sobre tecnologia em um mundo pós-PC.

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