Review: Nokia N9

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O Nokia N9 é item de colecionador, lindo, rápido, incrível e zumbi. Nada contra os mortos-vivos, claro.

Não vou me alongar aqui sobre o fato de o N9 ser o hardware e design mais interessantes (e, por que não dizer, incríveis) da Nokia nos últimos três anos (ok, teve o N900, que também era sensacional) e uma proposta de software moderna e disruptiva. Melhor definindo, “peça de colecionador”, como ouvi de uma promotora da Nokia em uma loja popular em São Paulo.

Antes do software, uma volta rápida pelo hardware. O N9 é construído em uma peça única de policarbonato (aqui, em preto, mas a Nokia resolveu vender o aparelho por aqui também em azul e magenta, após reclamações iniciais), do mesmo modo que seu irmão Lumia 800, movido a Windows Phone e que chega ao mercado brasileiro em meados de 2012. Fone de ouvido 3,5 mm e duas portas enigmáticas no topo do aparelho:

Ao pressionar a “bolinha” à esquerda, a tampa do conector microUSB se levanta (e grita “não olha feio que vou quebrar logo“, no único ponto fraco do desenho do N9). E basta mover levemente a peça ao lado para a esquerda e soltar o slot para o microSIM.

 

Sim, um microSIM, em um espaço que me parece caber um SIM card convencional (na falta de um, comprei um chip pré-pago e cortei com uma ferramenta adequada).

À direita, os únicos botões do N9: controle de volume e trava da tela. O resto é direto na tela de 3,9″ (854 x 480 pixels) feita em vidro curvado.

Abaixo fica o alto-falante, e atrás (imagem que abre este post), a câmera de 8 megapixels.

Além do design incrível, o N9 propõe um novo paradigma em software.

O sistema operacional MeeGo usa um novo padrão de interface diferente de tudo existente no mercado (iOS, Android, Windows Phone) com o conceito do Swipe: você arrasta para alternar entre aplicativos, telas e menus. Nada de tela inicial customizável, nada de widgets bobinhos, nada de pastas. E usar o N9 por alguns dias vai fazer você querer “virar” as telas de um iPhone ou Android.

São três telas principais: o menu de aplicativos (uma grande lista), os aplicativos abertos…

E uma tela de atualizações de status/notificações (previsão do tempo, mensagens e redes sociais). No menu principal (imagem à direita), um toque na parte superior da tela mostra o perfil de som, volume e as redes disponíveis. Quer um wallpaper? Só na tela de bloqueio do aparelho (e a questão da ausência de botões é tão interessantes que não é preciso pressionar o botão lateral para destravar o dispositivo em descanso: basta dar dois toques no vidro e o N9 “acorda”).

O processador (TI OMAP Cortex A8, 1 GHz) permite deixar inúmeros e inúmeros apps abertos ao mesmo tempo. Qualquer coisa, é só pressionar a tela multitarefa e fechar o que quiser. Fiquei com mais de 20 apps abertos e zero mudança ou travamentos no N9.

O desempenho da bateria é impressionante também: em um dia (8 horas) de uso intenso de rede (música, 3G, Wi-Fi, e-mail, ligações, Twitter, Facebook, Internet, SMS, mais música), o N9 chegou em casa com 51% de bateria (e quase 20 MB de dados consumidos para download). O aparelho tem recursos de gerenciamento de redes (se tem Wi-Fi, conecta sozinho) e de economia de energia bastante integrados e interessantes. Ah sim, o teclado e a interface do produto estão em português do Brasil (incluindo acentos!)

Quando falei em mortos-vivos no início deste review, me referi ao MeeGo e seu ecossistema. É mais que conhecido o fato de a Nokia já ter dito que o N9 se encaixa no padrão de aparelhos “disruptivos“, para pensar o futuro – sob esse ponto de vista, é uma boa visão do amanhã. No ponto de vista prático, o N9 é filho órfão do projeto MeeGo (criado em parceria com a Intel) – nada de planos anunciados para futuros aparelhos, somente atualizações pontuais do sistema (minha versão de testes estava com a mais recente, PR 1.1, mas a PR 1.2 está a caminho).

Oferta de aplicativos? Sim, um monte, incluindo o kit básico dos apps para qualquer smartphone: e-mail, Twitter, Facebook, Foursquare, Navegador, Angry Birds (com restrições – mais sobre logo abaixo) e o melhor despertador que a Nokia já fez (esse é meu fetiche nos Nokia:só não passei meu N900 para a frente porque é um excelente alarme para acordar. No N9, ele vibra conforme o toque e vai aumentando o volume aos poucos – e para ativar a soneca, basta virar a tela para baixo).

De qualquer modo, com apoio ou não ao sistema operacional, a oferta de apps é razoável para o N9. Tem alguns joguinhos (vem com o já citado Angry Birds e ainda com Galaxy On Fire 2, Need for Speed Shift e Real Golf 2011 instalados), gerais (gatos falantes, editores de imagem básicos, rádios online etc) e, curiosamente, alguns apps em português (dicionários, sites de notícias, religiosos). Só tive problemas ao rodar o Foursquare (que não deu login de jeito nenhum).

Na parte de diversão e multimídia, o N9 é rei. Tem um excelente tocador de música com uma interface que finalmente extermina aqueles CDs para os álbuns sem capa. Falta apenas um equalizador, apesar de a Nokia dizer que usa tecnologia Dolby para reprodução de som.

E o player de vídeo rodou direto arquivos AVI e MKV (incluindo 720p) – só travou em um MKV 720p de 1,5 GB (provavelmente por conta da conversão do arquivo). O player nativo não reconheceu de cara todos os vídeos, porém: para abrir alguns, foi preciso baixar um app para gerenciamento de arquivos (File Manager) e abrir direto (só não funcionou com vídeos MP4 exportados via iMovie, por sinal). Depois, os vídeos apareceram no player.

A câmera do N9 trouxe resultados mistos. Faz boas imagens à luz do dia  bons vídeos em 720p, mas não gostei do gerenciamento de foco (principalmente no modo macro – é preciso segurar o disparador para fazer o foco, e até o testador se dar conta disso, o post já estava no ar!) e do modo noturno sem flash. Imagem reduzida a 660 pixels…

e seu detalhe a 100% – pouco ruído, um monte de detalhes…

Curiosidade: nas configurações da câmera, existe a possibilidade de inserir o nome do autor da foto para os dados EXIF. Primeira vez que vejo isso em uma câmera. Tem um monte de fotos tiradas com o N9 em set no Flickr.

E vídeos feitos com o N9 (que podem ser enviados direto para o YouTube, por sinal):

(um oferecimento CASA ZTOP)

O navegador do Nokia N9, baseado em HTML5, não oferece grandes novidades em relação ao navegador do N900. Renderiza rápido páginas, marca seus sites mais acessados na tela inicial, mexe um pouco com as fontes e perdeu o suporte ao Adobe Flash (e o buscador padrão é o Google). E dá para marcar favoritos na tela inicial do site.

Finalmente, o NFC. Sem utilidade prática para brasileiros hoje, o N9 vem com o recurso habilitado para troca rápida de arquivos/contatos/pagamentos, e um aplicativo pronto para isso: Angry Birds Magic – que é diferente do Angry Birds original, pelo menos nos cenários.

Então, fica a dica essencial: se você comprar um N9, já ligue o aparelho na loja para desbloquear os demais níveis via NFC… ou vai ficar com 5 níveis apenas.

Como um bom smartphone moderno, o N9 também permite compartilhar a conexão 3G via Wi-Fi com outros dispositivos.

Outros itens de destaque no N9:

– tem um aplicativo decente para gerenciamento PC e Mac, o Link. Se quiser, também dá para usar via armazenamento de massa USB para transferir dados.

– apesar de sincronizar e-mails com o Google, não encontrei uma opção de sincronizar calendário e contatos (buuu)

– a incrível integração do sistema com Google Talk e Skype (já ocorria no N900): defina seu status nas Contas do N9 e faça chats via Gtalk e ligações Skype nativos do aparelho, sem precisar abrir o app (Gtalk fica nas notificações, Skype, no discador). Bônus track: chat do Facebook também presente.

– além da loja de apps, tem a loja de música (e venda de canções avulsas). O serviço de mapas é o Nokia Mapas (me pareceu igual), mas não usei o serviço de Dirigir (com navegação ponto a ponto).

– para o mundo “office”: o N9 abre formatos .doc, .docx, .xls, .xlsx, .ppt, .pptx, .odt, .ods, .odp, .pdf.

– qualidades de ligação: boas, tanto via celular quanto via Skype.

Pergunta do milhão: eu compraria um N9?

Como dono de um N900, posso dizer que o N9 é a evolução natural (e excelente) da plataforma Maemo/Meego. Como dono de um iPhone e de um Android, posso dizer que o N9 faz tudo o que os outros fazem, mas faltam aqueles pequenos detalhes (leia-se apps únicos e diferentes) que fazem diferença (Instagram, por exemplo) – e um maior comprometimento da Nokia com a plataforma “alternativa”.

Pelo design apenas, o N9 é distinto de todo o resto de “fones sabonete” que infestam os smartphones desde a chegada do iPhone original (está mais para monolito), e esse fator, somado ao incrível e diferente (exótico?) sistema operacional MeeGo, aumentam bastante meu interesse em gastar meus suados reais em um aparelho desses.

Mas já aprendi a lição uma vez com o N900: era incrível, mas ficou para trás, e esse é meu grande temor com o N9 – e por isso prefiro esperar pelo Lumia 800 (quase o mesmo design, OS com grande expectativa de crescimento).

De qualquer modo – com ou sem futuro, zumbi ou não – o N9 aponta para o que a Nokia poderia ter sido (um N9 lançado três anos atrás causaria um impacto enorme), mas também para o que a Nokia pode ser no futuro.

Se você é fã do grande hardware da Nokia e se sentiu órfão do Symbian, mas não quer adotar o Windows Phone, o N9 é sua escolha natural – sendo um colecionador ou não. Eu prefiro esperar pelo futuro.

Resumo: Nokia N9
O que é isso? Smartphone com sistema operacional Meego 1.2 “Harmattan”
O que é legal? Interface diferenciada com Swipe, faz bons vídeos em HD, excelente duração da bateria.
O que é imoral? Câmera sem muito controle de foco para macro, sem equalizador, sistema pode ficar desatualizado
O que mais? Design impecável, boa reprodução de vídeo.
Avaliação: 7,9 (de 10). Entenda nosso novo sistema de avaliação.
Preço sugerido: R$ 1.699 (versão de 16 GB)
Onde encontrar: Nokia

 

 

Sobre o autor

Henrique Martin

Henrique Martin já escreveu na PC World, PC Mag, Folha de S. Paulo e criou o Zumo em 2007. Em 2011, o Zumo se transformou no ZTOP, referência em conteúdo original sobre tecnologia em um mundo pós-PC. Siga-o no Twitter: @henriquemartin

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