Retrotech: Trazendo uma lente Tomioka para o mundo digital

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No meio de tanto lixo eletrônico ainda podemos descobrir (e reutilizar) pequenas jóias da indústria óptica japonesa que poderiam acabar no descarte.

Estava eu pensando em maldades aqui na Zumo-caverna quando vi no ML alguém vendendo uma câmera Polaroid Gelcam por um preço muito baixo:

A primeira vista, o motivo para tal é que o vendedor (aparentemente especializado em auto-peças) comprou esse item num leilão e descobriu que ela não serve para nada, de modo que resolveu passá-la para frente.

E de fato, essa câmera é meio que inútil mesmo para os entusiastas de fotografia analógia.

Isso porque a Polaroid Gelcam é uma câmera técnica criada para um único fim: Tirar fotos instantâneas de telas CRT como terminais de vídeo, osciloscópios, instrumentos científicos e coisas do tipo…

… só que para isso ele utiliza de um curioso acessório na forma de caixa, cuja abertura frontal deve ter o diâmetro da tela:

Dai o seu uso é bastante simples e intuitivo — ou seja — encoste a câmera na tela, respire fundo, pressione o gatilho e tire uma foto instantânea. Simples não?

Para os padrões atuais, esse sistema pode parecer meio arcaico, mas era o que a tecnologia da época tinha para oferecer.

Resumindo: Estamos diante de uma câmera velha faltando peças e acessórios, que usa um filme meio obsoleto e que não tem visor nem mecanismo de foco, ou seja…

… uma bugiganga feita na Inglaterra/Holanda que não serve para nada além de ocupar espaço físico e ficar mais velho com o passar do tempo… Ou quase isso. 😜

Reciclar é preciso!

De um certo modo a Gelcam é um produto típico da Polaroid dos anos 1980~90 ou seja, um desenho simples, funcional e fácil de produzido em massa usando o máximo de plástico possível:

De fato, ela é tão primitiva que chega a ser didática, já que ela não deixa de ser uma versão moderna de uma camera obscura:

E como dissemos antes, e Gelcam poderia até ser mais um produto obsoleto e condenado ao descarte e esquecimento se não fosse pela sua objetiva…

… que nada mais é do que uma Tomioka Tominon 105mm f4.5 montada num disparador Copal

… cujo desenho e padrão de formato é meio que padrão de mercado, o que permite que o mesmo possa ser facilmente removido da Gelcam e instalado em outras câmeras que aceitem lentes compatíveis com o disparador Copal #0 ou Compur #0 com ou sem adaptações complexas:

Isso de um certo modo não deixa de ser uma amostra do pragmatismo da Polaroid (ou da praticalidade americana), já que ela preferiu usar uma lente/disparador de prateleira na sua Gelcam ao invés desenvolver um sistema próprio made in USA.

Sob esse ponto de vista, vale a pena lembrar que, nessa época, adotar uma lente Tomioka com disparador Copal era bem mais em conta do que uma lente Zeiss ou Schneider com disparador Compur ou seja, o mesmo que optar partes e peças feitas na China nos dias de hoje.

De fato, acho que o que ninguém esperava é que, décadas depois, uma empresa meio que desconhecida como a Tomioka se tornasse numa espécie de fetiche entre os entusiastas de fotografia.

A lenda da Tomioka Optical Works

A Tomioka Kōgaku Kenkyūjo (冨岡光学研究所) ou Laboratório Óptico Tomioka foi fundado em 1924 na região de Shinagawa-ku Ebara em Tóquio por Toshioka Masashige (冨岡正重) depois de trabalhar por um tempo na Nippon Kōgaku Kōgyō (atual Nikon). Em 1932 a empresa iniciou a produção da sua primeira objetiva Lausar baseada no desenho Tessar da Zeiss. passando a se chamar  Tomioka Kōgaku Kikai Seizōsho (冨岡光学機械製造所 ou Fábrica de Instrumentos Ópticos Tomioka).

E apesar do foco da empresa ser o mercado de consumo, durante a guerra a Tomioka passou a fabricar lentes e binóculos para os militares. Perto do fim desse conflito o maquinário da fábrica desmontado e levado para a vila de Osogi no distrito de Nishitama sobrevivendo assim ao ataque de bombas americanas que dizimaram a planta.

Depois da guerra, a empresa abriu uma nova fábrica em outubro de 1945 em Osogi e começou a produzir lentes em regime de OEM para diversas fabricantes de câmeras como a Ricoh, Yashica, Argus, Chinon, Revuenon, Mamiya, etc. — e isso sem falar nos produtos com marca própria como Tominon, Tominor, Tri-Lausar, Tomi-Kogaku, Auto-Tominon, Tomi-Yashinon, Heliotar e Lumaxar.

Finalmente em 1968 a Tomioka foi adquirida pela sua melhor cliente — a Yashica — passando a se chamar Tomioka Kōgaku K.K. (冨岡光学㈱ ou Tomioka Optical Works) sendo que a partir de 1969 ela ficou responsável pela produção das lentes Carl Zeiss no Japão durante a parceria entre a Yashica e a Zeiss que deu origem a linha Contax RTS.

Em 1983 a Yashica se fundiu ao Grupo Kyocera formando assim a Kyocera Optec Co. que existe até hoje.

É fato que a associação com a marca Zeiss meio que levantou catapultou a bola da Tomioka já que não é qualquer empresinha furreca que recebe as bençãos das fadas e elfos da Zeiss para fabricar suas lentes mágicas fora do reino encantado da Alemanha.

De fato, bem antes disso a Tomioka já era notória por desenvolver lentes notáveis, como por exemplo a Tomioka Auto Tominon 55mm f1.2 que também foi produzida em regime de OEM com outros nomes como Chinon, Revuenon, Yashinon, Cosinon, Rikenon, Porst, etc.

O grande problema é que a não ser que a marca da Tomioka esteja presente no produto (caso das lentes da Yashica)…

não existem registros oficiais nem meios 100% confiáveis para identificar o que foi produzido para quem pela Tomioka, de modo que existe muita especulação na rede, o que só aumenta a mística dessa marca e o interesse dos colecionadores em multiplicar o valor da suas Argus Auto-Cintar ou Ricoh Rikenon. Misture isso com um pouco de intriga e muito achismo e temos a mistura perfeita para acalorados debates na web sobre a paternidade dessa ou daquela lente.

De qualquer modo é fato que a Tomioka fabricou lentes muito boas e que elas são muito mais apreciadas hoje do que a 10~20 anos atrás.

Sobre a Tominon 1:4.5 f=105 mm

Como o próprio nome sugere, a Tominon 1:4.5 f=105 mm é uma lente com distância focal de 105 mm cujo tipo foi muito usada em câmeras de médio formato de 6 x 9 cm. Já a sua abertura máxima é f/4:5 o que um valor médio um segmento de mercado cuja lentes mais luminosas não costumam passar de f/3.5~2.8. Fora isso ela também possui um anel frontal que permite rosquear filtros de 40.5 mm e sincronismo para flash eletrônico (X-Sync):

Já o seu disparador Copal #0 oferece 8 velocidades ( de 1s a 1/125s) + B e o seu ajuste de abertura varia de f/4.5 até f/32:

Ela se fixa a câmera por meio de um anel de retenção de 42 mm…

… o que facilitou — e muito — a sua remoção da GelCam já que bastou desrosquear essa peça para liberar a lente:

Fora isso essa Tomnion possui uma característica bem peculiar que é o fato do seu mecanismo de disparo lembrar um revólver de ação dupla — ou seja — o movimento de “armar e atirar” desse disparador é feito por uma uma única operação comandada mecanicamente pelo seu punho de pistola, sendo que toda vez que seu gatilho é pressionado o sistema bate uma foto.

No geral, esse tipo de disparador funciona em duas etapas — ou seja — normalmente existe uma alavanca para armar o disparador e outra só para bater a foto com ou sem a ajuda do cabo disparador.

Adaptando numa câmera digital

Neste caso, o maior problema desse projeto é que precisamos encontrar um jeito de manter o disparador sempre aberto para que a luz passe pela lente, o que no caso deste disparador Copal só é possível ajustando a sua velocidade para “B” e manter o gatilho pressionado ou usar um cabo mecânico com trava de disparo.

Para quem não sabe, esses cabos de disparo mecânico possuem uma haste móvel que sai da sua ponta ao pressionarmos o embolo no lado oposto e que aciona algum gatilho no interior do disparador acionando o mesmo:

Para eliminar esse penduricalho, tive a idéia de pegar a ponta de outro cabo disparador quebrado que tinha na minha caixa partes de peças e encaixei na frente do mesmo um pedaço de palito de dente (de preferência aquele tipo oriental feito de bambu por ser mais resistente)…

… sendo que o resultado disso é numa ponta “sempre pressionada”:

Ai é só cortar a ponta do palito na medida exata para quando fixarmos essa peça no orifício do cabo disparador com o ajuste de velocidade em “B”…

… ele seja acionado:

O resultado final é uma lente com o obturador sempre aberto e sem nada pendurado no mesmo resultando assim num conjunto mais compacto:

Feito isso, basta fixar e Tominon na frente de um fole de macro (que também será usado para ajustar o foco) e ele está pronto para uso:

Simples não?

Sob testes

Tecnicamente falando, essa Tominon é baseada no desenho Tessar (quatro elementos em três grupos) só que ela foi otimizada para performar melhor a curtas distâncias, o que faz dela uma ótima lente para reprodução e macrofotografia.

Como estamos usando uma câmera Micro Four Thirds essa lente meio que se comporta como uma teleobjetiva de 210 mm(?) o que faz com que ela não seja a melhor opção para fotos de paisagem. Em contrapartida o uso de teleobjetivas em macrofotografia é algo bacana já que o fotógrafo não precisa se aproximar muito do seu assunto — como por exemplo, insetos — evitando que eles fujam.

O desafio neste caso é de segurar a câmera com firmeza e acertar no foco, sendo que quando conseguimos isso os resultados são bem interessantes:

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As lentes do tipo Tessar não são lá muito boas para produzir um bokeh (desfoque de fundo) muito agradável, mas sabendo explorar os seus limites é possível obter resultados aceitáveis:

E é claro que qualquer lente é boa para fotografar — GATOS!!! — seja em cores…

… quanto e preto e branco:

E também passarinhos:

Legal né?

Sobre o autor

Mário Nagano

Desde o século passado Mario Nagano analisa produtos e já escreveu sobre hardware e tecnologia para veículos como PC Magazine, IDGNow!, Veja e PC World.
Em 2007 ele fundou o Zumo junto com o Henrique assumindo o cargo de Segundo em Comando, Editor de Testes e Consigliere.

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