Retrotech: Telejogo Philco

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A mãe de todos os videogames nacionais, o Telejogo J-100 da Philco tinha apenas três jogos, dois modos de uso, um botão de início e nenhum joystick!

Estava eu escavando uma área pouco visitada da Zumo-caverna quando (re)descobri isso: Uma caixa parcialmente aberta …

… com jeitão de sarcófago mortuário…

… que continha uma verdadeira múmia relíquia dos primórdios do entretenimento eletrônico no Brasil — um Telejogo Philco — talvez o primeiro videogame nacional de grife:

Ele foi lançado em 1977 pela Philco Ford e o que mais chama a atenção deste exemplar é o fato dele estar quase completo, pois ele ainda conta com seu manual…

… e certificado de garantia (datado de 03/02/1978)…

e até boa parte da sua caixa original.

Fora isso ele ainda tem outro lacre na tomada com um aviso sobre o seu ajuste de voltagem o que também mostra que seu último dono era muito cuidadoso ou esse console foi pouquíssimo usado, se é que ele foi ligado algum dia:

Mas com certeza sabemos que o seu interior nunca foi violado nesses últimos 42 anos já que seus parafusos ainda estão lacrados com uma gota de esmalte vermelho, um hábito da época:

O meu palpite é que o antigo dono tirou ele uma vez da caixa, ligou na TV para ver como funcionava e encostou o mesmo pelas próximas décadas até acabar na feira de bugigangas do Bixiga.

Eu me lembro que, na época, não paguei caro por ele porque era um período de transição em que ainda não existia a idéia de game retrô, de modo que videogame velho era só isso mesmo: Uma tralha velha e bolorenta.

Mesmo assim eu trouxe essa velharia para casa, liguei pra ver se funcionava encostei-o num canto até ser engolido pela minha bagunça para ser redescoberto na semana passada, seguida de uma ordem por escrito do Henrique para que eu fizesse um post do dito cujo.

(Yesss masta…)

Mas antes disso ele passou por um processo de limpeza onde usamos um pouco de água limpa e um exército de cotonetes, para remover mais de 4 décadas de abandono.

A boa notícia é que só precisou disso para que o mesmo voltasse ao seu estado de glória.

Pong em um chip

A criação do Telejogo Philco foi possível graças ao desenvolvimento do TV Game Chip MM571000N da National Semiconductor ou NatSemi (que não tem nada a ver com a Panasonic) e que foi um chip MOS LSI…

… que continha toda a circuitagem necessária para produzir todos os elementos visuais (fundo, barrinhas, bolinha, placar, etc.) e efeitos sonoros para gerar três jogos — hockey, tennis e handball — que no Brasil virou futebol, tênis e paredão:

Ele foi criado pela NatSemi para competir com algo semelhante produzido pela Texas Instruments para o Magnavox Odissey 200 mas com a vantagem de oferecer uma tela em cores e um placar na tela:

E mesmo a empresa ter criado seu próprio console chamado Adversary a intenção da mesma era de vender esse chip para terceiros, o que permitiu que empresas sem nenhuma experiência no segmento de jogos eletrônicos — se é que alguém manjava disso naquela época — lançasse seus próprios produtos, caso da Philco no Brasil:

O curioso é que neste mesmo ano também chegou ao mercado o TV Jogo 3 da Superkit que oferecia praticamente os mesmos recursos do Telejogo, porém numa apresentação mais simples (para não dizer tosca) e acessível. Mas apesar das aparências, ele era baseado em outro chip, o AY-3-8500 da General Instruments.

Por fora do telejogo

Como era de se esperar de um eletrônico de consumo dos anos 1970 esse produto (também conhecido como J-100) é um equipamento visualmente bem elegante que até lembra um equipamento de som da época…

… com seu painel de metal escovado e cheio de botões, dials e alavancas com layout simples, equilibrado e intuitivo. Note o uso de “times” (direito e esquerdo) ao invés de jogadores:

Já seus controladores do tipo “paddle” são integrados ao gabinete principal o que não é a solução mais ergonômica do mercado, mas essa abordagem monolítica deve ter ajudado a simplificar o projeto, assim como reduzir o seu custo final de fabricação.

Outro toque de requinte é sua base/caixa de de madeira de verdade, resquício de uma época em que as TVs, equipamentos de som e até painéis de carro ainda empregavam esse material como um tipo de acabamento mais nobre e/ou de luxo:

Note na imagem acima que o que parece ser uma saída de som P2 é na verdade a entrada para um controlador externo com fio que, até onde sei, nunca foi vendido como acessório pela Philco mas ele é tão simples que pode ser feito em casa.

Já a sua base também nos remete aos rádios de mesa do passado, com sua entrada de força com seletor de voltagem de entrada (110 ou 220 volts) assim como a saída de RF padrão VHF de 300 Ohm sendo que o sinal do telejogo pode ser captado pelos canais analógicos 3 ou 4.

Por dentro do telejogo

O interessante é que apesar da sua antiguidade o J-100 é bem popular no mercado local, sendo que sua documentação pode ser encontrada na rede como o manual do usuário e o mais interessante manual técnico que descreve detalhadamente o seu circuito eletrônico na forma de diagramas eletrônicos…

… e até uma representação do layout/localização dos seus componentes discretos/analógicos, jumpers, chaves, etc. o que era comum e até necessário numa época em que os técnicos de manutenção realmente consertavam coisas e não ficavam só na troca de placas:

No geral, trata-se de um circuito relativamente simples com o TV Game Chip MM571000N trabalhando em conjunto com um oscilador de sinal, modulador de croma e outro de radiofrequência:

O resultado disso é a criação de três jogos que apesar de não deixarem de ser variações de um mesmo tema, são até que bem divertidos exatamente por serem simples e intuitivos:

Ligando na TV

Como em outros videogames do passado o J-100 se conecta com a TV por meio da entrada de antena usando um cano flat de 300 Ohm…

… que é um padrão meio antiquado até para uma TV de tudo de modo que o ideal é uso de um adaptador de 300 para 75 Ohms com saída padrão coaxial o que permite ligá-lo numa TV mais moderna sintonizando o mesmo no canal 3 ou 4 VHF:

E qual é a experiência de jogo?

No geral a experiência é bem divertida para um jogo tão simples e intuitivo. Isso porque qualquer um consegue entender o seu funcionamento com alguns minutos (ou até segundos) de partida.

Isso porque se analisarmos o seu jogo mais quintessencial — tênis — onde a regra básica é usar a barrinha do seu time para rebater a “bolinha” para o lado oposto da tela…

… se adicionamos mais três elementos móveis e limitamos a saída da bolinha da tela, temos o jogo futebol:

Talvez o jogo mais simples e ao mesmo tempo menos intuitivo seja o paredão porque o bom senso nos diz que ele seria um jogo para apenas uma pessoa, mas os jogadores se alternam no controle da barrinha da esquerda o que pode ser a ruína para o jogador mais distraído:

A solução neste caso é selecionar o modo “TREINO” o que faz com que a barra de ambos os times sejam controlados de maneira sincrona pelo lado do “TIME DIREITO” permitindo assim que o jogador brinque sozinho.

Onde encontrar

Apesar de ser um dos primeiros videogames nacionais, o Telejogo Philco até que não é tão difícil de ser encontrado no mercado de usados, tanto ele quanto o seu sucessor, o Telejogo Philco II cujos preços podem variar de algumas dezenas até milhares de Bolsonaros de acordo com o nível de conservação e itens inclusos como a caixa, manuais e outros penduricalhos.

Eu lembro que cheguei a ter dois Telejogos originais sendo que vendi um deles (sem a caixa e manual) para a Daniela Braun na época em que ela trabalhava no IDG Now pela vultosa quantia de R$ 10 (que ela ainda me pagou fazendo cara de “não vou contrariar o maluco do lab né? Vai que ele fica nervoso”…)

Mas nervoso mesmo ficou o Guilherme Felitti big kahuna da novelodata e extraordinário colunista do podcast Tecnocracia que não me perdoa até hoje por não ter oferecido o Telejogo para ele antes!

Urra Gui, como é que eu ia saber? 😯

Bonus Track

Fundada em 1982 como Helio Electric CompanyPhiladelphia Storage Battery Company ou simplesmente Philco foi uma empresa americana com uma antiga e interessante presença aqui no Brasil já que, segundo o Wikipedia:

  • Sua primeira fábrica brasileira foi construída na cidade do Rio de Janeiro onde foram montados os primeiros rádios nacionais em 1948 e as primeiras TV P&B em 1950.
  • Em 1961 ela foi comprada pela Ford Motor Company, época em que a empresa também lançou seu primeiro controle remoto para suas TVs e a notória TV Predicta (cujo icônico design “espelho de mesa” é apreciado até os dias de hoje) .
  • A Philco também construiu a primeira fábrica de semicondutores do Brasil, produzindo transistores para uso próprio e para seus concorrentes.
  • Para quem não sabe Robert Noyce co-fundador e primeiro CEO da Intel iniciou sua carreira como engenheiro na Philco.
  • Na décadas de 1970~1980 ela era conhecida como Philco-Ford e produzia televisores, rádios e toca-fitas para o mercado interno e para exportação e que também eram usados nos veículos da Ford (é claro!)
  • Em 1977 ela lança o Telejogo, o primeiro console de jogo do Brasil (duh!) com apenas três jogos e em 1979 ela repete a façanha lançando o Telejogo II com mais opções de jogos e dois joysticks analógicos.
  • A partir de meados dos anos 1980, graças a um acordo de transferência de tecnologia com a japonesa Hitachi, passa a produzir equipamentos sofisticados tais como vídeo câmeras e videocassetes com a marca Philco-Hitachi.
  • Seu controle acionário passou Itautec em 1994, que criou a marca Itautec-Philco, sendo que em 2005 ela foi vendida para a a Gradiente em 2005.
  • Em 2007, a licença de uso da marca (por 10 anos) foi comprada pela Britânia pela bagatela de R$ 22 milhões, sendo que sua estratégia baseada na produção terceirizada junto a fabricantes chineses, expandindo assim sua linha de produtos.

Sobre o autor

Mário Nagano

Desde o século passado Mario Nagano analisa produtos e já escreveu sobre hardware e tecnologia para veículos como PC Magazine, IDGNow!, Veja e PC World.
Em 2007 ele fundou o Zumo junto com o Henrique assumindo o cargo de Segundo em Comando, Editor de Testes e Consigliere.

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