Retrotech: Space Battleship Yamato – The Classic Collection

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Após quatro décadas, a versão mangá da clássica série de ficção científica “Patrulha Estrelar” de Leiji Matsumoto finalmente ganha uma versão em inglês.

Já faz algum tempo que a editora americana Seven Seas vem publicando uma série de obras batizada de “The Classic Collection” com foco em mangakás da velha guarda que não são tão conhecidos e/ou venerados no ocidente como Tezuka, Mizuki ou Shirato, mas que não deixam de ser igualmente relevantes como o despirocado Go Nagai e o menos baratinado Leiji Matsumoto

,,, sendo que qual foi a minha surpresa (ou não, já que era meio previsível) que o mais recente título dessa série fosse Space Battleship Yamato (Uchū Senkan Yamato / 宇宙戦艦ヤマト), originalmente chamado de Star Blazers nos EUA e Patrulha Estrelar no Brasil.

Transmitido pela primeira vez na TV entre outubro de 1974 até março de 1975, este anime é considerado uma das séries de ficção científica mais influentes do seu tempo, já que ela foi a primeira a introduzir o conceito de arco de história onde uma narrativa mais longa era contada de forma continuada o que obrigava o telespectador a assistir todos os episódios na sequência correta.

E como no caso de Star Trek, sua temática era bem mais séria, dramática e cientificamente plausível, o que também atraiu um público mais sofisticado e maduro…

… e isso sem falar que como Yamato era um desenho animado ele não sofria das limitações dos “defeitos especiais” do cinema da época, sendo assim visualmente mais atraente, com cenas no espaço, sequências de ação e efeitos visuais bem mais impressionantes se comparado com a série de TV americana de quase uma década atrás:

De fato, essa diferença brutal ente o desenho e o filme só foi nivelado com o lançamento de Star Wars de 1977 que — por sua vez — deve ter influenciado o visual da segunda temporada de Yamato (o arco do Cometa Império de 1978~79) que, curiosamente, passou primeiro aqui na TV brasileira:

Assim, com todos esses elementos de drama e de ação combinadas com uma história cientificamente plausível, coerente e bem escrita, Yamato conquistou toda uma geração de fãs, geeks e otakus, além de produtores, artistas e animadores, cujo legado pode ser visto em séries igualmente cultuadas como Gundam, Evangelion e Macross.

 

Para quem não sabe, a nave que dá nome a série é inspirada em um  navio real, ou mais exatamente no couraçado da classe Yamato (大和) construído para a marinha do Japão no arsenal de Kure entre os anos de 1937~40 e que foi formalmente comissionado uma semana depois do ataque a Pearl Harbor em dezembro de 1941.

Ele junto com seu irmão gêmeo Musashi foram os maiores navios de guerra do seu tempo com 263 metros de comprimento, +70 mil toneladas de peso e equipados com 9 canhões Tipo 94 de 460 mm, 6 canhões Tipo 3º Ano de 155 mm, 24 canhões antiaéreos Tipo 89 de 127 mm, 162 canhões automáticos Tipo 96 de 25 mm, 4 metralhadoras pesadas M1929 de 13,2 mm. Sua blindagem chegava a 410 mm no cinturão principal e até 650 mm nas torres de artilharia. Já o seu sistema de telemetria/mira foi desenvolvido e fabricado pela Nikon.

Fora isso ele ainda transportava sete hidroaviões Nakajima modelo E8N ou E4N (lançados de catapultas) e tinha sua própria fabriqueta de ramune já que Coca-cola era coisa de demônio ianque.

 

Eles foram concebidos para combater diversos couraçados ao mesmo tempo, mas entraram em operação numa época em que a supremacia dos porta-aviões já era evidente no teatro do Pacífico, de modo que sua participação da guerra não foi relevante, sendo que o Yamato foi afundado no dia 7 de junho de 1945 durante a campanha de Okinawa.

De um certo modo, tanto o Yamato quanto o Musashi representaram o ápice do poder da marinha imperial japonesa, mas também simbolizavam a fé e a determinação do um povo em defender seus interesses contra as potências ocidentais de modo que,  sua destruição marcou o fim de uma era.

 

E é dentro desse contexto histórico é que entra Matsumoto (ele mesmo nascido em 1938 e filho de um oficial da marinha imperial) que no seu anime, literalmente resgatou o antigo couraçado do fundo do oceano e o reequipou para operar no espaço e enviá-lo para uma nova missão só que desta vez para salvar todo o mundo.

Segundo Hiromi Mizuno no artigo When Pacifist Japan Fights: Historicizing Desires in Anime — Enquanto os japoneses do pós-guerra tentavam redefinir o propósito de suas vidas, Yamato se tornou um símbolo de heroísmo e de seu desejo de recuperar um senso de masculinidade após a derrota de seu país na guerra” — o que explica sua imensa popularidade no Japão.

 

A ironia é que na verdadeira guerra pela audiência na TV, Yamato foi detonado por outro desenho, ou mais exatamente uma doce menininha chamada “Heidi a Garota dos Alpes” produzida por Isao Takahata e um osso duro de roer chamado Hayao Miyazaki.

Do anime para o mangá

O curioso dessa série é que, ao contrário da maioria dos animes que são baseados em mangás de sucesso, Yamato nasceu como anime e o mangá foi meio que um subproduto no meio de centenas de outros itens de merchandise que faturaram horrores em cima da série (por sinal, outra lição que George Lucas deve ter aprendido com os japoneses) e que foi publicado ao mesmo tempo que o programa estreou na TV entre outubro de 1974 até março de 1975, o que explica a sua duração – 21 episódios – o que é bem pouco para os padrões japoneses onde uma série de sucesso pode perdurar por décadas.

E até por não se tratar de um trabalho totalmente original de Matsumoto (já que o roteiro é do produtor Yoshinobu Nichizaki), a versão mangá de é meio que uma releitura do anime (duh!) só que numa versão mais primitiva para não dizer meio rústica…

… o que pode até passar a impressão de que o artista quis deixar o seu “toque pessoal” nessa obra, apesar de que isso também pode ter sido serviço mal feito mesmo!

Isso porque que segundo relatos na web, Matsumoto passava o dia inteiro ralando no estúdio supervisionando e corrigindo o visual do anime e,  depois disso, ainda voltava pra casa a noite e praticamente refazia a mesma coisa com o mangá o que deve ter lhe custado inúmeras horas de sono — ou seja — ele estava pagando caro por ter dado um passo maior que a perna.

E para bagunçar ainda mais o coreto, devido à baixa audiência, o canal de TV mandou reduzir o número de episódios de 39 para 26 o que resultou em cortes significativos na parte final da história, o que explica porque que o Yamato demorou tanto para chegar até o planeta Iscandar, mas voltou rapidinho para a Terra ?.

Isso também fez com que a história no mangá começasse a ficar diferente do anime, já que algumas partes cortadas no roteiro de Nichizaki continuaram na versão de Matsumoto, em especial a participação do Capitão Harlock no mangá que não aparece na série de TV.

De fato, a aparição desse misterioso personagem (e da sua nave) não tem muito a ver com a versão posterior do mangá e anime de mesmo nome, já que ele é retratado como alguém coberto até na cabeça com um manto como se fosse um fantasma ?(WTF!)

Especula-se que isso pode ter duas explicações: A primeira é que Matsumoto tinha planos de desassociar Harlock dessa série para reaproveitá-lo numa nova…

… já que a impressão que passa no mangá do Yamato é que Harlock seria o irmão de Godai (Mamoru) que desapareceu junto com sua nave Yukikaze na primeira batalha contra os Gamilans.

Outra teoria é que — novamente — isso pode ser um sinal de que Matsumoto estava sem tempo para desenhar coisa melhor.

Uma segunda visão (uia!)

O mais bizarro é que Matsumoto não foi o único artista a criar uma versão em quadrinhos de Yamato, já que houve um outro cara chamado Akira Hio com roteiro de Keisuke Fujikawa que produziu uma “segunda visão” dessa série…

… que não batia de frente com a série semanal de Matsumoto poque ele foi publicado diretamente na forma de livro mensal entre os meses de novembro de 1974 e fevereiro de 1975:

O curioso é que o Capitão Harlock aparece nessa versão e sem pano na cabeça diga-se de passagem!

Leia mais sobre isso aqui.

E uma terceira visão (eita!)

E se você acha estranho ter duas séries de mangá sendo publicadas em paralelo e ao mesmo tempo que a série de TV está no ar — o que dizer da existência de uma terceira série semanal, também publicada na mesma época e por um terceiro artista?

Trata-se da versão de Yuki Hijiri que, segundo o site Cosmo DNA, foi publicada na revista Terebi Land da Tokuma Shoten de novembro de 1974 até março de 1975. Só que neste caso Hijiri desenhou apenas cinco capítulos regulares e um extra numa edição especial de fevereiro.

Mas ao contrário das versões Matsumoto e Hio, esta nunca foi reimpressa na forma de livro. Primeiro por ser relativamente curta (menos de 100 páginas) e segundo porque Nishizaki achou que o seu visual diferia demais do anime e optou por deixá-la desaparecer e ser esquecida pela história…

… o que não aconteceu já que essa “série perdida” foi redescoberta por fãs da série que encontraram as revistas originais (que no Japão costumam ser descartados depois de lidos)…

… e que foram digitalizados, traduzidos e disponibilizados para consulta na rede. Mais sobre isso aqui.

The classic collection

Mas voltando ao que nos interessa, mais de quatro décadas após sua estréia na TV, a editora Seven Seas lançou nos EUA Space Battleship Yamato The Classic Collection (ISBN-10 1626929122 – US$ 29,99 ou R$105,26 no Brasil) que, como no caso de In This Corner of The World (この世界の片隅に, Kono Sekai no Katasumi ni ) de Fumiyo Kouno, a empresa decidiu lançar a versão impressa em um único volume de 664 páginas de 980 gramas de peso…

… com a opção de também oferecer uma versão digital quebrada em três volumes pelo preço sugerido de R$ 39 cada no Brasil).

Mas ao contrário do mangá de Kouno, essa edição do Yamato veio encadernado com capa dura de acabamento fosco (yaay!), apesar das páginas não serem costuradas e sim coladas (boo!!!) o que significa que o leitor não deve abrir demasiadamente o livro sob o risco de quebrar a lombada e levar até ao descolamento das páginas.

Com relação a história em si, de fato o ritmo dos primeiros episódios e a qualidade da arte me pareceu ser meio irregular, o que pode ser sido efeito do artista estar trabalhando no anime de dia e no mangá a noite.

Apesar disso, como Matsumoto foi o diretor de arte…

… e designer mecânico da série…

… sem dúvida o “look and feel” do anime está presente em todas as páginas, o que não deixa de ser algo super bacana:

Talvez o “bonus track” mais interessante dessa obra é a inclusão de um capítulo extra (ou mais exatamente uma história a parte) no fim do livro chamada “Eternal Story of Jurapublicada originalmente em 1976 na revista Playcomic (プレイコミック) voltada para um público mais “adulto”:

Por não estar ligado a nenhum grande lançamento (como um novo filme, série ou OVA) essa história meio que virou uma lenda urbana entre os fãs (que na época ainda não tinham acesso a internet)…

… sendo que ela foi republicada esporadicamente em outras revistas e livros em 1977, 1982 e 1998 aparecendo também nessa coletânea da Seven Seas.

E como no caso do mangá perdido de Hijiri a versão original da história de Jura pode ser lida aqui na íntegra com direito a ver algumas páginas em cores que nào foram reproduzidas na edição americana.

Por fim, vale a pena ter esse livro?

Eu diria que essa coletânea seria mais recomendada para os fãs de carteirinha da série de TV já que, como disse, ela não é considerada a melhor obra de Matsumoto no sentido de que como a história não é dele, não é possível ter uma “experiência completa” do artista como contador de histórias:

Isso também vale para novos leitores que nunca tiveram contato com o anime.

De fato, reza a lenda que ao terminar essa série, Matsumoto voltou para a sua antiga paixão — dramas de guerra.

De volta à luta

Para mim, uma das obras mais interessantes de Matsumoto é sua série de contos sobre a segunda grande guerra chamada Senjo Manga, que é um trabalho pouco divulgado por aqui até por motivos óbvios — ou seja — a guerra vista pelos olhos dos japoneses, só que nem tanto pelo lado heróico (e meio suicida) da propaganda oficial e sim pelo lado trágico das “buchas de canhão” que questionavam com perplexidade a futilidade e/ou a fatalidade da guerra.

Aliás, muitos desses “covardes” (e mais outros nem tanto) que sobreviveram a esse conflito trágico se envolveram numa batalha ainda maior para sobreviver numa terra arrasada pela guerra, ocupada pelo inimigo e com tudo para ser reconstruído.

Acredito que a primeira e única vez que li um desses contos de guerra de Matsumoto devidamente traduzido para o inglês foi em 1983 no livro Manga! Manga!: The World of Japanese Comics de Frederik L. Schodt, onde o epsódio Ghost Warrior (Borei Senshi) apareceu junto com histórias de outros artistas como Osamu Tezuka (Phoenix), Riyoko Ikeda (The Rose of Versailles) e Keiji Nakazawa (Barefoot Gen) com o objetivo de oferecer para o leitor americano o gostinho de ler um mangá, o que nos 1980 ainda não era algo tão comum para o grande público mais acostumado com gibis da DC, Marvel e Archie.

A ironia fica por conta do fato de que todos esses “tira-gostos” servidos por Schodt de um modo ou de outro acabaram sendo publicados no ocidente, menos o Senjo Manga de Matsumoto.

Eventualmente algumas dessas histórias mais focadas em aviação militar virou numa série chamada コクピット (The Cockpit) …

… sendo que três deles deles foram escolhidos em 1993 para virar um anime em OVA de mesmo nome, sendo que este sim chegou ao ocidente (meio que na porrada, diga-se de passagem):

Legal, né?

Ainda em tempo:

Para saber mais sobre a série Yamato como um todo, recomendamos muito a visita ao site Cosmo DNA de onde encontramos muita informação sobre a série, em especial sobre os mangás alternativos.

Sobre o autor

Mário Nagano

Desde o século passado Mario Nagano analisa produtos e já escreveu sobre hardware e tecnologia para veículos como PC Magazine, IDGNow!, Veja e PC World.
Em 2007 ele fundou o Zumo junto com o Henrique assumindo o cargo de Segundo em Comando, Editor de Testes e Consigliere.

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