Retrotech: Adaptando uma Schneider Xenon industrial numa DSLM

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De vez em quando a gente encontra uma jóia rara no meio de tantas máquinas e equipamentos sucateados pela indústria.

Já falamos muito neste ztop+zumo sobre lentes raras e/ou exóticas retiradas de equipamentos médicos e/ou industriais que, com um pouco de habilidade podem ser reutilizadas em câmeras digitais…

… sendo que o grande barato desse passatempo está exatamente no processo de descoberta, análise/pesquisa e a criação de uma solução que permita a ela tirar fotos com boa qualidade no final.

Se você curte esse tipo de assunto, senta que lá vem história:

A descoberta

Estava eu num lindo dia navegando de bobeira no ML quando trombei com isso:

Uma objetiva anunciada apenas como “Lente Antiga” que o vendedor disse ter achado num sucateiro.

Infelizmente eu perdi o screenshot do anúncio do ML, mas pelo de dava para ver nas fotos postadas, ela deve ter sido retirada de algum equipamento industrial que capturava imagens por meio de algum processo fotográfico como uma máquina de Xerox ou fotolito.

Porém, o que realmente me saltou aos olhos é que no seu interior havia uma pequena objetiva…

… cujo nome e modelo estavam bem claros: Scheider-Kreuznach Xenon 1:2/50 que cá entre nós é uma lente alemã de altíssima qualidade comparável com marcas do calibre de uma Carl Zeiss e adotada por dezenas de empresas, incluindo a Nagel Werk (Kodak AG), Rollei, Leitz e até a Zeiss-Ikon.

De fato, podemos até dizer que a Schneider está para a Zeiss assim como a AMD está para a Intel.

Seu número de série (13.953.432) também indica que ela foi fabricada em torno de 1983, o que indica que ela é uma lente relativamente nova e moderna se levarmos em consideração que a primeira Xenon chegou ao mercado em 1925.

Nas mensagens que troquei como o vendedor ele explicou que estava passando ela para frente porque não conseguiu adaptá-la na sua câmera. Assim, como eu estava assumindo o risco de acabar com um peso de papel, fiz uma contra-oferta desavergonhadamente baixa para o vendedor — e não é que ele aceitou ????

Análise/Pesquisa

Como já dissemos antes, a lente Xenar foi inventada em 1925 pelo Dr. Albrecht Wilhelm Tronnier (1902-1982) enquanto trabalhava para a Schneider Optische Werke GmbH em Bad Kreuznach na Alemanha, porém mais conhecido pelo diminutivo Schneider-Kreuznach.

Com apenas 22 anos de idade, Tronnier recebeu a tarefa de criar uma nova lente de grande abertura para bater de frente com a Ernostar que alcançou a impressionante marca de f2 e que equipou a Ernemann Ermanox e permitiu que fotos fossem tiradas em ambientes internos com pouca luz…

… e fez a fama do fotógrafo Erich Salomon, que pode ser considerado o primeiro paparazzo de celebridades:

Tronnier iniciou seu trabalho usando como ponto de partida o desenho Planar da Zeiss — na época era realmente um duplo simétrico de gauss — e criou uma versão “assimétrica” alcançou o seu objetivo e que foi patenteada em 1925 com o nome Xenon f/2.0:

O interessante é que esse desenho separou o segundo e terceiro elementos criando assim um esquema de 6 elementos em cinco grupos (ao invés de seis) e que foi imortalizado anos depois com a criação da lente Ultron f/2 que Tronnier criou para a Voigtlander que depois foi copiada pela Asahi Optical nas suas lentes Takumar 50mm f/2.0.

Um testemunho da genialidade desse desenho e do talento de Tronnier é que as lentes Xenon ainda são fabricadas pela Schneider até os dias de hoje.

Criando uma solução

Medindo aproximadamente 9,5 cm de diâmetro (máximo) e 14,0 cm de comprimento essa lente é lente é um sólido trambolho de metal de 1,1 kg de peso, sem contar um segundo anel de bronze maciço — que aparentemente era usado para ajustar o seu foco — que prontamente removi para liberar peso.

O curioso é que o anel de ajuste da abertura da lente está montado na boca da mesma…

… e transmite essa informação para o interior da lente por meio de um engenhoso sistema redundante de hastes e pinos.

Até por causa disso minha idéia original de desmontar essa lente e aproveitar só o conjunto óptico foi para o vinagre, já que a mesma está muito bem fixada no seu interior e mesmo depois de anos não achei um jeito de desmontá-la sem apelar para ignorância.

Mardita engenharia alemã! ?

Assim decidi ficar com a lente do jeito que estava fazendo apenas uma pequena modificação, adaptando seu engate de rosca traseiro (cuja media é proprietária) para o padrão rosca universal M42 usando uma tampa de corpo de câmera onde diz uma abertura para fixar a mesma:

Com isso foi possível instalar um anel de foco com rosca helicoidal e um anel adaptador M42 para Micro Four Thirds sendo que, desse modo, ele pode ser usado na minha câmera Olympus:

Tirando fotos

Devido ao seu volume essa Schneider Xenon não é uma lente muito confortável de usar e isso sem falar que seu peso também pode exercer uma pressão indesejada e até perigosa no encaixe de baioneta da câmera.

Assim para usá-la é preciso segurar o conjunto da câmera e lente de uma maneira bem cautelosa — ou seja — apoiando câmera na palma da mão ao mesmo tempo que usa o dedo indicador e o médio para suportar o peso da lente…

… liberando assim o polegar e o mínimo para ajustar o foco:

No início é preciso algum treino, mas depois é possível fotografar de maneira bastante eficiente, apesar de que, com o passar do tempo a mão meio que cansa de segurar a câmera, de modo que usamos uma bolsa do tipo tiracolo para guardá-la e transportá-la quando não estava em uso.

E a qualidade?

Como era de se esperar de uma lente “moderna” do tipo planar, a sua qualidade é muito boa produzindo imagens nítidas mesmo em f2.0 apesar de que no caso de paisagens o ideal é trabalhar com aberturas entre F/4~f/16:

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O seu efeito de desfoque de fundo (bokeh) é bem suave…

… sendo que quando há pontos de luz intensa ano fundo, é possível observar um efeito levemente espiralado (swirly bokeh) muito apreciado por alguns fotógrafos:

O interessante é que esse efeito de desfoque também pode ser aplicado tanto na frente quanto atrás do assunto:

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Interessante notar que essa Xenon também pode focar a distâncias bem curtas, podendo assim ser usada para macros:

Considerações finais

No geral o desempenho dessa Xenon é bem interessante, mas devido aos problemas de volume, ergonomia e peso, ela não é uma lente que levaria num passeio ou trilha para bater fotos.

De fato, essa Xenon 50mm F2.0 pode ser encontrada em diversas câmeras, tanto de lente fixa quanto intercambiável, de modo que é possível desfrutar do seu desempeno sem andar por ai com um tubo de bronze que mais de um kilo.

Apesar de que com esse imenso parassol fixo eu nunca vou ter problemas de flare e vou ter sempre algo para impressionar as garotas e os amigos nerds.

Happy happy, joy joy!

Sobre o autor

Mário Nagano

Desde o século passado Mario Nagano analisa produtos e já escreveu sobre hardware e tecnologia para veículos como PC Magazine, IDGNow!, Veja e PC World.
Em 2007 ele fundou o Zumo junto com o Henrique assumindo o cargo de Segundo em Comando, Editor de Testes e Consigliere.

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