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Retrotech: Relógio Swatch beat com Internet Time

Com a promessa de reinventar a passagem tempo na era da internet, o Swatch beat foi uma idéia até que interessante na teoria, mas que nunca decolou na prática

Da série “The Shape of Things to Come (and Gone!)” estava eu fuçando na minha bagunça quando achei um relógio Swatch .beat — uma reminiscência da época em que empresas como AOL, GeoCities, Netscape, Lycos ou Yahoo! dominavam a internet discada:

swatch-beats_na_caixa

Dono de um visual moderno e jovial — mesmo para os dias de hoje — a série .beat apresentava informações até que bem úteis para um Swatch da época — como segundo horário, cronômetro, contador regressivo, alarme etc. — num display limpo, descongestionado e de fácil leitura:

swatch-beats_frente

Porém, o grande destaque deste produto é que ele foi um dos primeiros a incorporar o chamado Swatch Internet Time (ou beat time) que nada mais era do que uma nova contagem do tempo inspirada na hora decimal francesa  (ou French Revolutionary Time), onde o período de tempo de um dia médio é dividido em 1.000 partes iguais chamadas de beat (~ 26,4 segundos) cuja representação é na forma de uma “@” mais três dígitos (@000 ~@999).

swatch-beats_time_leg

Essa idéia criada pela Swatch AG foi apresentada pela primeira vez em 1998 durante o Media Lab Junior Summit do MIT, onde cerca de 90 crianças de 10 a 16 anos vindas de 54 países se reuniram para discutir o impacto da tecnologia nas novas gerações.

O grande apelo desta iniciativa era que, ao adotar uma hora única para todo o planeta, seria possível coordenar as atividades de qualquer pessoa em qualquer parte do mundo, permitindo assim uma melhor socialização por meio da internet, já que a rede não possui fuso horário.

Também foi proposto que o começo deste dia (@000) teria início à meia noite do horário da Suíça — por sinal, terra da Swatch (duh!) — de modo que @500 seria meio-dia na Helvécia, 6:00 em Nova Iorque, 19:00 em Tóquio ou 8:00 aqui na Zumo-caverna.

De fato, o fundador e diretor do Media Labs na época — Nicholas Negroponte (sim, o mesmo cara que criou notebook de 100 dólares e o OLPC) — fez a previsão de que “no futuro, para muitas pessoas, o tempo real será o Internet Time.

Eu me lembro que, na época, a Swatch alardeou que seu sistema beat foi adotado pela CNN para coordenar o trabalho das suas redações e correspondentes espalhados pelo mundo. Empresas como a Sega também adotaram esse sistema no seu jogo Phantasy Star Online para Dreamcast, o que permitia que os jogadores do Japão, EUA e Europa pudessem participar da mesma partida.

O Internet Time também foi adotado pelo Nation.1, um ambicioso projeto também concebido por (surpresa! surpresa!) Negroponte de criar um país digital baseado na internet, povoado e administrado apenas por crianças e cujo objetivo era de dar poder aos jovens de todo o mundo, dando-lhes uma voz e representação nos assuntos globais.

Mas como podemos ver, após 18 anos do seu anúncio, ainda vivemos num mundo com dias de 24 horas contadas localmente. E o meu palpite é que esse sistema não decolou pelo simples fato de que o beat time era uma solução à procura de um problema.

Isso porque por mais que o nosso cotidiano esteja cada vez mais digital e conectado, nosso ritmo de vida ainda é ditado pelo movimento do sol. Caímos da cama quando o sol nasce no horizonte, almoçamos quando ele está lá em cima no céu e vamos dormir bem depois que ele foi embora.

Curiosamente, o Swatch Internet Time não considera um período de tempo menor do que um beat (~26,4 segundos) o que pode não ser tão relevante para uma criança ou um brasileiro, mas pode ser muuito tempo para certas atividades, em especial nas áreas de TI, transações bancárias, sistemas de navegação, etc. que — por sinal — já adotam um sistema de horário global chamado  Tempo Universal Coordenado ou UTC.

Fora isso — em termos práticos — a contagem de tempo em beats pode até fazer sentido lá na terra dos helvécios, mas como a terra não é plana isso pode ser meio confuso no resto do mundo.

Um bom exemplo é a determinação do meio-dia que, na Suíça, seriam @500 — mas imaginem esta cena aqui no Brasil:

“E ai pessoal são 625 beats — quem vai almoçar?”

“Peraí, meio beatizinho e vou contigo!”

“Naah, eu já não posso porque tenho uma reunião as 687 beats!”

Apesar de não ter sido aceito como um padrão pelo público em geral, o Swatch Internet Time sobrevive até hoje na forma de apps para smartphones e ainda é apoiado pela Swatch AG que mantém uma página no seu site, que até calcula o Swatch beat

beats_time_sp

… algo por sinal muito útil para os donos dos 14 modelos originais da década de 1990 ajustarem seus relógios, já que eles não são são capazes de calcular isso por conta:

Internet Time = (segundo da UTC local + (minuto da UTC local * 60) + (hora da UTC local * 3600)) / 86,4)

O mais curioso é que, em julho deste ano a empresa também lançou o Touch Zero Two, um modelo conectado com função de Swatch Internet Time.

beats_time_touch_zero_two

Porém, nosso palpite é que os consumidores irão comprar este modelo mais pelo seu visual descolado e recursos conectados do que para checar a hora global. 🙂

 

Desde o século passado Mario Nagano analisa produtos e já escreveu sobre hardware e tecnologia para veículos como PC Magazine, IDGNow!, Veja e PC World. Em 2007 ele fundou o Zumo junto com o Henrique assumindo o cargo de Segundo em Comando, Editor de Testes e Consigliere.

  • Alexandre Gorges 11/11/2016, 08:24

    Eu lembro que cheguei a por no meu site pessoal, hospedado no GeoCities, um botão que mostrava os beat time no momento.
    Meu como passa o tempo !

    • Mario Nagano 11/11/2016, 08:42

      Sim, e se considerarmos o chamado ano de internet = 7 anos normais, já se passaram 126 anos!

  • Lucas Lira 11/11/2016, 10:35

    Legal, gosto de ver sobre essas coisas que já foram apostas e hoje ficaram no esquecimento…

    • Mario Nagano 11/11/2016, 18:43

      Sim sim, é um assunto fascinante e, como dizem por ai, de boas intenções o inferno está cheio né? 🙂

      • Lucas Lira 11/11/2016, 22:28

        É sim, 😉

  • marcelomartins 12/11/2016, 03:38

    Eu sou um dos 14 que tem um desses (ta sem bateria, mas fica em cima da mesa)

    Comprei em janeiro de 2001 num shopping em Curitiba, lembro inclusive que na época paguei 190 reais)

    https://uploads.disquscdn.com/images/bc9d067c62523f11c39388e1c6c2c3e0a70da332970d2aa24fd34c3253774cf0.png

    • Rodrigo Siqueira 28/11/2016, 17:52

      Esses relógios tinham um easter egg bacana, bastava segurar o botão da luz por 3 segundos. Cada modelo tinha uma animação diferente, no meu, um cachorro aparecia fazendo xixi no poste, rs rs rs

  • dflopes 16/11/2016, 21:49

    É facil calcular (para quem mora na Suíça)

    A conta inicial é pra transformar a hora local em segundos:
    t (seg) = (hora × 3600) + (minutos × 60) + segundos

    Depois, ele calcula a “porcentagem” da hora atual em relação ao dia – que tem 86.400 s (vamos chamar de T)
    Depois ele multiplica por 1.000, por isso o 86.4 no denominador:
    beats =1000 × t (seg)/T (86.400)

    Para SP, eu tive que adicionar +3h (não me pergunte o porquê, seria o fuso?), assim: 8h51min21seg são:
    t (seg) = [(8+3)×3600] + (51×60) + 21 = 42.681
    beats = 1000 × 42.681/86.400
    8h51min21seg = 493,99 beats

    http://i0.wp.com/www.ztop.com.br/wp-content/uploads/2016/11/swatch.beats_time_leg.jpg