Retrotech: Kodak 35 Rangefinder, uma câmera adoravelmente feia

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Considerada a câmera mais estrambólica já feita pela empresa, ela é um bom exemplo do design industrial americano dos anos 1940: simples, racional, utilitária, robusta e totalmente sem graça.

Estava eu esculhambando fotos no Instagram quando topei com uma propaganda de software de imagem onde uma modelo se escondia atrás de uma câmera bem estranha — a Kodak 35 Rangefinder — que ficou famosa entre os colecionadores devido a sua aparência que, segundo um experto americano “somente uma mãe poderia amar!

E do mesmo modo que Ed Wood foi chamado de o pior diretor de todos os tempos e o título colou proporcionando-lhe toda a notoriedade que ele nunca teve em vida, a Kodak 35 Rangefinder deixou de ser apenas uma câmera horrenda para se tornar algo kitsch, hipster, pós-moderno ou até steampunk mesmo sem colar nenhum penduricalho nela.

Legal né?

O que é uma Kodak 35 Rangefinder?

Na realidade, a Kodak 35 Rangefinder foi a evolução de um modelo mais simples chamado apenas de Kodak 35:

Lançada em 1938, ela foi a primeira câmera 35mm da empresa totalmente desenhada e produzida nos EUA e a segunda a adotar o notório cartucho “descartável” de filme 135 usado até os dias de hoje.

Antes dela, a Kodak vendia a excelente câmera Retina que era produzida na Europa pela sua subsidiária Nagel-Werke na Alemanha …

… e cuja importação deve ter sido abalada com a ascensão dos nazistas e até interrompida com entrada dos americanos na Segunda Guerra Mundial, o que deve ter obrigado o pessoal de Rochester a produzir algo local para atender tanto o consumidor norte americano quanto os militares (é claro!) para uso no campo de batalha:

Créditos da imagem

Para nós, o que mais chama a atenção dessa câmera é o uso de novas técnicas de produção em massa — como peças de metal estampado, rebites e até plástico injetado — resultando assim num produto bem típico do design industrial americano dessa época (simples, prático, robusto, efetivo e barato) que também produziu outros exemplos notáveis como jipe Willys MB

… ou a submetralhadora M3 (por sinal criada pela General Motors):

Um bom exemplo desse design efetivo e barato na Kodak 35 é a ausência de um botão de disparo que aciona o disparador. No seu lugar os engenheiros da Kodak parafusaram uma espécie pino (ou gatilho) diretamente na alavanca de acionamento do disparador da lente (D) que devia ser pressionado com a ponta do dedo para tirar a foto.

Note que esse pino é protegido por uma espécie de guarda mato para evitar o seu disparo acidental.

Quem disse que americano não faz gambiarra?

Apesar dessa câmera atender bem as demandas da sua época, ela sofreu uma forte concorrência de uma empresa do estado de Michigan — a Argus — que colocou no mercado a Argus C3 (também conhecida como The Brick) que vinha com um simples porém engenhoso telêmetro (ou rangefinder em inglês) acoplado ao mecanismo de da lente, o que aumentava as chances de tirar uma boa foto, já que o foco podia ser ajustado com precisão …

… ao contrário da Kodak 35 cujo mesmo ajuste dependia do bom senso do fotógrafo que estimava a distância usando seu olhômetro e passava essa informação diretamente para o anel do foco da câmera:

Isso pode até parecer ultrajante nos dias de hoje, mas foi uma solução muito usada no passado em câmeras de baixo custo, e sobreviveu até o fim dos anos 1990 em câmeras compactas até que bem carinhas como a Rollei 35 e a Minox 35 (falaremos mais sobre isso em outra oportunidade).

Só que para fazer frente a Argus C3 o pessoal de Rochester não quis criar uma nova câmera, preferindo trabalhar “em cima” da Kodak 35 no sentido mais exato da palavra, ou seja, eles literalmente fixaram um mecanismo de foco com telêmetro em cima o corpo da Kodak 35…

… sendo que a conexão com a lente também foi feita “por fora” usando um curioso braço mecânico que possui uma espécie de dedo da ponta que encosta no anel de ajuste de foco que, por sua vez possui um ressalto na forma de came que, ao girar, move o dedo passando assim a informação de distância para o telêmetro:

Todo esse sistema fica oculto sob uma indiscreta cobertura de metal fundido que lhe dá um certo ar de assimetria ao conjunto…

… sendo que o toque final foi a implementação de uma espécie de roda dentada engatada no lado esquerdo do anel de foco da objetiva para tormar o seu uso (em tese) mais confortável:

Uma curiosidade dessa solução é que como era comum nessa época, as câmeras com telêmetro possuíam de duas janelas de visualização atrás da câmera…

… sendo que a menor à esquerda (7) era usada para fazer o foco com o telêmetro…

… enquanto que a maior ao centro (8) era usada para enquadrar a cena e bater a foto.

Segundo alguns relatos da época, como a janela do telêmetro (7) da 35 Rangefinder era muito pequena, muitos fotógrafos mais desavisados (ou que não gostavam de ler o manual de instruções) ignoravam a existência dela e só usavam a maior (8) para focar/tirar as fotos, ou seja, muita cena aparentemente boa no visor saia toda desfocada na foto.

E é claro que a culpa é da câmera que não presta né? 😈

American Tessar

Curiosamente, a lente usada na 35 Rangefinder não era das piores sendo montada num disparador Kodamatic #1, uma versão compacta do mesmo modelo usado nas suas câmeras de médio formato, como a Tourist ou a Vigilant Six-20.

No geral, todas as Kodak 35 Rangefinder foram equipadas com a mesma objetiva de 50mm f3.5 que recebeu diversas melhorias até a sua saída do mercado nos anos 1950.

O seu projeto é baseado no desenho Tessar da Carl Zeiss (fabricado sob licença pela Kodak) sendo que no início ela era chamada genericamente de Anastigmat Special, mas que depois passou a se chamar Anastar.

Isso porque depois da guerra, a Kodak passou a dar nome as suas lentes de acordo com o seu desempenho óptico e não pelo seu desenho, ou seja, todas as lentes mais simples de entrada eram chamadas de Kodet / Kodar, enquanto que as lentes de linha eram as Anaston / Ektanon.

Acima delas ainda existia uma linha superior chamada Anastar / Ektanar e os modelos realmente topo de linha que ofereciam um desempenho máximo eram cahamadas de Ektar.

Fora isso, a partir de um certo período, essas objetivas mais nobres ganharam um símbolo na forma de um “L” dentro de um círculo, indicação de que a mesma recebeu tratamento anti-reflexo (ou “Lumenizing”) à base de fluoreto de magnésio, cuja tecnologia foi também desenvolvida pela Kodak.

Outra curiosidade sobre as lentes dessa época é o ano da sua fabricação é indicado pelas duas primeiras letras do número de série, que usa a palavra “CAMEROSITY” como chave criptográfica, onde a posição de cada letra relacionada aos números “1234567890”.

Assim, se o número de série da lente começa com ES (E=4 e S=7) ela foi feita em 1947, ET em 1949 e assim por diante.

Qualidade da imagem

Assim como no caso da Zeiss Orthoplanar, fomos capazes de adaptar essa lente numa câmera digital Olympus OM-D E-M1 com sensor Micro Four Thirds, de modo que neste caso essa lente normal de 50mm se comporta como uma meia-tele de 100mm:

Isso nos permitiu fazer algumas fotos para vermos o que essa lente de mais de 70 anos é capaz de registrar.

Essa primeira imagem mostra que como era de se esperar de uma lente tipo Tessar, ela é bem nítida mesmo totalmente aberta (f/3.5) apesar de que o seu contraste ficou baixo, talvez causado pelo excesso de flare (reflexos indesejados no interior da lente), o que de um certo modo pode ser compensado no Photoshop:

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De fato, sabendo controlar esses reflexos e com uma ajudinha do Photoshop até que é possível obter resultados bem satisfatórios:

Note que esse problema é menos sentido nas fotos em preto e branco, sendo que no exemplo abaixo fizemos uma subexposição de 1/3 ponto para melhorar o contraste:

Clique aqui para ampliar

Mais alguns exemplos:

Para nós o seu desempenho geral é bom para uma Tessar, mas não tão boa o suficiente que justifique desmontar uma câmera de 70 anos atrás só para brincar com a lente.

E cá entre nós, o que não falta no mercado é lente Tessar 50mm f3.5 ou até f2.8 tanto original da Zeiss quanto fabricado por outras empresas.

Considerações finais

Em um mercado dominado por marcas e fabricantes européias e orientais, é interessante ver que a indústria americana — quando provocada — foi capaz de criar produtos que podem nem ter sido os melhores do mundo, mas que atenderam e bem as suas expectativas.

Este também é o caso das Kodak 35, que podem até nem ser tão elegantes quanto suas concorrentes alemãs, mas que cumpriam a sua função básica, ou seja tirar fotos, e até que boas — se o fotógrafo olhar no buraco certo, claro. 😈

Sobre o autor

Mário Nagano

Desde o século passado Mario Nagano analisa produtos e já escreveu sobre hardware e tecnologia para veículos como PC Magazine, IDGNow!, Veja e PC World.
Em 2007 ele fundou o Zumo junto com o Henrique assumindo o cargo de Segundo em Comando, Editor de Testes e Consigliere.

Por Mário Nagano

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