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Retrotech: Joaquim Lima de Moraes e o mistério do soroban japonês feito no Brasil

Como uma bugiganga à venda ML pode revelar um interessante capítulo da história do ensino de matemática para cegos no Brasil

Como ex-programador/analista e atual jornalista de tecnologia eu sempre me interessei por máquinas de calcular, o que vai desde addiators, passando por réguas de cálculo, máquinas de somar, calculadoras de bolso, microcomputadores e é claro, o bom e velho soroban — o mítico ábaco japonês.

E porque mítico cara pálida?

Sob um certo ponto de vista, o ábaco nas suas diversas formas é um produto que surgiu da necessidade em diversas civilizações cujo sistema de numeração não é baseado nos algarismos indo-arábicos o que inclui até os antigos romanos que criaram seu próprio modelo porque não conseguiam fazer contas simples nos seus tablets, como somar XIX com MCCCXLVIII (resposta MCCCLXVII).

Já o chamado soroban japonês é baseado no modelo chinês ou suan pan (embaixo) que foi levado para a ilha de Jipangu por Kambei Moori (vasalo do famoso daimiô Hideyoshi Toyotomi) nos anos 1620…

… mas que com o passar do tempo recebeu pequenas modificações, como a retirada de uma conta na parte de cima de cada haste (para melhor se adaptar ao sistema numeral japonês) e a mudança do formato das contas que passaram de elípticas para losangulares o que facilita o seu movimento na haste ganhando assim maior agilidade na realização dos cálculos.

Esse design manteve-se praticamente inalterado desde a época dos samurais até meados dos século 20 (ou mais exatamente entre os anos de 1935~1940), época em que uma conta da haste inferior também foi abolida, o que racionalizou a representação de números no soroban já que — no modelo anterior — era possível representar o valor de zero até dez numa única haste mas  — com uma pedra a menos — passa-se a representar apenas o valor de zero a nove, o que vai de encontro com a nossa lógica de representação numérica baseada no sistema decimal:

Depois disso chegamos ao chamado soroban moderno com hastes de cinco contas:

Nagano comenta: Vale a pena citar que o soroban chegou ao Brasil a partir de 1908 junto com os primeiros imigrantes japoneses que trouxeram consigo o modelo “pré-moderno” (com cinco contas na base) o que explica a facilidade com que encontramos essa versão por aqui nas lojas de antiguidades e até no ML (aqui, aqui, aqui e aqui).

Já ouvi relatos de conhecidos que estudaram soroban no Brasil usando esse modelo antigo (que era do avô), só que para usá-lo eles amarravam a carreira inferior de contas com um barbante fino, de modo que elas não se moviam. >;-)

Já sua aura de misticismo teve origem após o fim da segunda guerra mundial, época em que o Japão vivia sob o domínio americano e a utilidade desse instrumento foi colocada a prova em 1946 em uma competição de vida ou morte para o soroban promovida pelo jornal Stars and Stripes

… onde Kiyoshi Matsuzaki funcionário do birô de serviços do correio japonês armado com seu contador de madeira…

…bateu de frente com o Thomas Nathan Wood militar da 20ª Seção de Desembolsos Financeiros da administração do General MacArthur equipado com uma calculadora elétrica…

… aparentemente uma Friden modelo ST ou ST-10 o modelo mais avançado da sua época e que era conhecido como o “Cadillac das calculadoras”:

Essa competição envolveu disputas de velocidade e precisão dos resultados em cinco categorias (soma, subtração, multiplicação, divisão e tudo junto) sendo que a calculadora elétrica ganhou apenas nas provas de multiplicação sendo que o soroban ganhou o resto.

Dai nasceu o mito de que o “soroban é mais rápido de uma calculadora” — apesar de que essa disputa nunca foi repetida até os dias de hoje — o que lhe garantiu a sua sobrevivência e permanência no currículo escolar da época, sendo considerada uma das três habilidades essenciais para vida profissional de qualquer pessoa, ou seja — Ler, escrever e contar (com o soroban) — algo como o STEM do pós guerra.

Nagano comenta: Essa rivalidade entre a calculadora eletrônica e o soroban no Japão gerou um curioso produto, o sorokaru:

Desenvolvido pela Sharp o sorokaru era uma combinação de soroban com calculadora eletrônica (= SOROban + CALculator) que acredito ser um produto de transição geracional cujo objetivo era de atrair os usuários de soroban para a nova tecnologia no melhor estilo “deixa eu ver se essa traquitana eletrônica fez a conta certo!” ou vice-versa 😉

Além disso, o usuário também podia alguns cálculos no soroban onde é mais rápido fazer somas e subtrações e deixar para a calculadora outras mais complexas como multiplicar,  dividir, calcular porcentagens, raízes, etc.

De fato, sua demanda por essa engenhoca deve ter sido boa, já que ela foi fabricada por um bom tempo (entre os anos de 1978~85) e pelo menos quatro modelos Elsi Mate são conhecidos: EL-8148, EL-8048, EL-428 (acima) e EL-429.

É fato que com a evolução da tecnologia e o baixíssimo custo das calculadoras eletrônicas, o uso do soroban pode parecer algo do passado, mas seu domínio é ainda exigido na hora de obter algumas certificações emitidas pelo governo. Fora isso, alguns defendem o seu valor terapêutico como exercício mental além do seu uso por pessoas cegas.

Talvez a aplicação mais inusitada é a afirmação de que o suan pan com sua haste de sete contas é uma excelente ferramenta para fazer cálculos com números hexadecimais.

Mas depois de falar tanto sobre ábacos, o que o Moraes tem a ver com essa história?

Bom, estava eu aqui na Zumo-caverna pensando em maldades quando notei um anúncio bem curioso no ML jogando charminho pra mim no canto da página do Ztop:

Ao analisar a oferta, o vendedor afirma que o mesmo é feito de plástico e fabricado pela Atma (sim, aquele do guardinha) o que deu um nó na minha cabeça já que — apesar de saber que a Atma fabricava brinquedos de plástico — para mim faria mais sentido eles fazerem um contador infantil…

… do que uma réplica de um soroban moderno de cinco contas:

Pelo preço sugerido de R$30 + postagem eu fechei o negócio já que não é todo dia que a gente encontra um soroban antigo “made in Brazil”. E depois de um dia ele já estava presente para análise aqui na Zumo-caverna:

Feito de plástico (ABS?) com hastes de metal, o seu acabamento é bastante rústico (para não dizer tosco) com diversas rebarbas e pontas de pontos de injeção aparentes o que indica um controle de qualidade padrão soviético ou a mera intenção de ser um produto simples e barato:

Se comparado com um modelo japonês dos anos 1980, o curso das contas é maior no modelo nacional o que pode comprometer a agilidade dos cálculos já que é preciso abrir e mover mais os dedos. Fora isso, o movimento da pedras também não é livre e macio, mas isso também pode ser por causa do atrito gerado pelo plástico (velho) com o metal (oxidado):

E de fato, na parte de trás do soroban existe a marca da Atma, curiosamente sem o logotipo do guardinha:

Um detalhe que me chamou a atenção nesse produto é a existência de outra marca na moldura —  “SOROBÃ MORAES” — que me pareceu uma boa pista para tentar descobrir a aua origem.

Pesquisando na web surgiu o nome de Joaquim Lima de Moraes um deficiente visual que em 1947 matriculou-se na Associação Pró-Biblioteca e Alfabetização para aprender o sistema Braille e depois disso voltou sua atenção para o modo de calcular das pessoas cegas ou com baixa visão.

Nesta época elas já utilizavam um instrumento chamado cubaritmo, mas durante sua procura de algo mais simples e prático, Moraes descobriu o soroban só que a facilidade e leveza com que as contas se moviam nas hastes poderia representar um problema para uma pessoa que dependeria do tato para ler os valores registrados nas hastes.

Para resolver esse problema Moraes contou com o apoio de dois japoneses residentes no Brasil, o senhor Iuta, dono de uma casa comercial e o senhor Miyata, fabricante de sorobans e outros artefatos de madeira para a colônia japonesa, sendo que a solução encontrada`em 1949 foi a inserção de um tecido emborrachado por baixo das contas, de modo que elas se não se moviam a não ser que fossem empurradas. Um relato mais completo dessa história do trabalho de Moraes  pode ser lido aqui e aqui.

Já a versão moderna desse instrumento é feita de plástico e as contas são redondas, talvez para melhorar a sua percepção táctil:

A partir dessas informações o meu palpite é que esse soroban da Atma pode ter sido um modelo criado especialmente para o ensino de deficientes visuais, apesar de que o uso das contas losangulares não bate com o formato esférico adotado pelos modelos atuais (acima) — um protótipo talvez?

Outra coisa que falta no modelo da Atma é a peça de tecido emborrachado sob as contas, mas também existe a possibilidade de que ela se perdeu com o tempo já que o exemplar que tenho em mãos não é novo e tem sinais claros de que ele já foi desmontado.

Outro ponto a favor dessa teoria é que durante minhas pesquisas eu topei com uma pequena foto numa página da Secretaria Municipal de Educação de Mogi das Cruzes que mostra dois sorobans: Um menor que se parece com a versão moderna, e um maior que se parece muito com o modelo da Atma.

Infelizmente a página não entra em detalhes desses instrumentos além de falar que eles são da SRDV (Sala de Recursos em Deficiência Visual).

Assim, tudo me leva a crer que se trata realmente de um soroban para cegos fabricado pela Atma entre os anos de 1950~1994, provavelmente com alguma coisa faltando como a base de tecido emborrachado.

Quem tiver uma teoria melhor, por favor se manifeste nos comentários!

Bonus track (para aqueles que dominam o idioma dos bretões:)

Cenas da notória disputa de Matsuzaki (soroban) contra Wood (calculadora elétrica) pode ser ser vista na posição de 20:19.

Desde o século passado Mario Nagano analisa produtos e já escreveu sobre hardware e tecnologia para veículos como PC Magazine, IDGNow!, Veja e PC World. Em 2007 ele fundou o Zumo junto com o Henrique assumindo o cargo de Segundo em Comando, Editor de Testes e Consigliere.