ZTOP+ZUMO

Retrotech: Gata em Teto de Carro Quente

Uma gatonovela feita inteiramente com a Industar-69, uma lente soviética dos anos 1960 (com direito a making of)

Como alguns de nossos leitores já sabem, nós aqui da Zumo-caverna curtimos tecnologias retrô e até nos metemos em alguns projetos de DIY (faça você mesmo) como por exemplo, nossa adaptação de lente de câmera de fole numa digital que por sinal, repercutiu até lá fora (aqui e acolá).

Bessa_lens_intro

Entre nossas últimas gambiarras adaptações, uma particularmente interessante foi a ИНДУСТАР-69 (ou Industar-69) uma pequena objetiva de 28mm/f2.8 que — à primeira vista — pode parecer uma opção super atraente para o fotógrafo retrô devido às suas dimensões compactas e características pouco usuais para uma lente na sua faixa de preço. Porém, como na vida real, algumas coisas não são exatamente como parecem ser, como veremos adiante.

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Para quem não sabe, a Industar-69 foi criada para equipar as câmeras Chaika (Чайка) II e III, ambas produzidas na cidade de Minsk na Bielorússia na fábrica da MMZ (Minskiy Mechanichesckiy Zavod) entre os anos de 1967 até 1974.

industar-69-camera

Segundo um catálogo da época, ela é uma objetiva de quatro elementos em três grupos, aparentemente inspirada no desenho Tessar da Carl Zeiss:

industar-69-diagram

Estima-se que mais de 2 milhões de unidades foram produzidas no paraíso do proletariado, o que explica a sua abundância nos países da Ex-União Soviética por preços relativamente baixos. Mas por ser (originalmente) parte integrante da câmera e não um produto em si, essa objetiva não possui um número de série individual gravada na mesma, o que dificulta determinar sua origem e idade.

E como é de se esperar de uma lente russa produzida em massa, seu padrão de construção é bem simples e até meio rústico para os padrões ocidentais, parecendo-se mais com um implemento agrícola do que com um instrumento de precisão. Isso porque a filosofia do design industrial soviético da época focava-se apenas na sua funcionalidade — e nada além disso —  ou seja, sua qualidade/precisão deveria boa o suficiente para tirar uma foto e só.

Assim, não espere da Industar-69 firulas tecnológicas como movimentos macios, elementos flutuantes, iris com dez lâminas e vedações contra a entrada de água ou pó. De fato, o mecanismo de foco do nosso exemplar está meio mole e seco, mas isso não chega a comprometer o seu desempenho.

Com relação as suas características físicas, ela tem apenas 47 mm de diâmetro x 20 mm de comprimento e 53 gramas de peso, o que poderia colocá-la na categoria de lentes pancake. De fato ela consegue ser menor que a Industar 50-2 50mm/f3.5 outra lente russa de desenho compacto baseada no desenho Tessar:

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Já a câmera em si é do tipo meio-quadro — como as Olympus Pen— mas ao contrário das japinhas de Maitani, a objetiva da Chaika pode ser desrosqueada do corpo para ser usada como lente de ampliador, cujo padrão de engate é o bom e velho M39, o mesmo usado nas Leicas LTM ou L39.

industar-69-engate_l39

E é ai que começa a confusão, já que alguns usuários das câmeras Leica LTM viram na Industar-69 uma opção lente de grande angular (28 mm) luminosa (f2,8) e super compacta.

Mas como ela foi projetada para ser usada numa câmera meio-quadro (18 x 24 mm) seu círculo de imagem é incapaz de cobrir um quadro “full-frame” tradicional (24 x 36 mm) o que faz com que neste último caso, a imagem escureça (ou vinhete) bem nas bordas.

E se você acha isso ruim, tem uma coisa um pouco pior: A Distância Focal da Flange (ou registro) da Chaika (27,5 mm) é 1,3 mm menor que o padrão L39 (28,8 mm) o que impede que a Industar-69 foque no infinito quando instalada numa câmera com engate LTM, o que obriga o usuário a ter que modificar sua lente de um modo ou de outro.

Isso até poderia ter sido o fim da história desta lente, se não fosse o surgimento das câmeras mirrorless digitais equipadas com sensores de imagem menores que o full-frame tradicional como o APS-C e o Micro Four Thirds. Neste último caso, o grande atrativo é que essa lente de 28 mm se comportaria mais ou menos como uma lente “normal” de 56 mm.

Porém, resta o desafio de como compatibilizar essa lente com o padrão L39.

Existem diversos relatos na web que descrevem soluções que — na sua maioria — envolvem desmontar a lente para remover alguma peça ou até limar partes internas da lente para alterar o seu ajuste do infinito que — como já comentamos — precisa ficar 1,3 mm mais próximo do plano do sensor de imagem.

Outra solução possível que não mexe com a integridade lente é alterar o adaptador L39 para câmeras mirrorless ou seja, retirar 1,3 mm do seu comprimento total alterando assim o seu registro. E foi por esse caminho que optamos seguir aqui na Zumo-caverna.

Para isso, procuramos e encontramos no mercado um modelo “genérico” bem em conta (produzido em outro paraíso do proletariado) que, por uma incrível coincidência, tem um anel interno (prateado) cujo diâmetro bate com a largura da Industar-69 ou seja, se reduzirmos sua espessura a lente “afunda” no adaptador o que dispensa a necessidade de mexer na parte externa do anel (na cor preta).

industar-69-adaptador-1

Ou pelo menos este era o nosso plano inicial, já que ao desmontarmos o adaptador, descobrimos que ele possui um ressalto interno de 1,5 mm de altura que mantém o anel interno alinhada com o externo.

industar-69-adaptador-2

Para isso, levamos essa peça para a oficina de usinagem preferida deste Ztop — a Batisfer Solução em Usinagem — que colocou a mesma no torno e retirou 1,3 mm de material da altura do ressalto e ai foi só recolocar o anel interno no lugar usando Araldite Profissional (tempo de manuseio 90 min e cura completa em 24 horas).

O resultado final pode ser visto embaixo, onde também colocamos um adaptador L39 não modificado (na parte de cima) para comparar a redução de distância:

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E como prevíamos, agora a lente entra para dentro do adaptador quando instalada, o que até melhora a sua estética geral, nem passando a impressão que ela foi modificada.

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E no fim das contas, qual a experiência de uso dessa lente?

industar-69-na-camera

Assim como a Olympus Pen a Chaika é uma câmera mais voltada para o público amador, já que seu ajuste de foco entre 0,8 metros até o infinito favorece mais as fotos de pessoas ou paisagens.

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Tecnicamente falando, dizem que é possível reduzir a distância mínima de foco, bastando para isso remover um limitador existente no interior da lente, mas neste caso corre-se o risco do usuário girar tanto a lente para se aproximar do assunto, que a parte frontal da mesma pode se soltar e cair como se fosse uma porca frouxa.

E assim como nas Pen e Trip 35, a escala de foco da Industar-69 possui ícones de sugerem o ajuste ideal para certos tipos de fotos (o chamado foco por zona).

industar-69-escala_foco

Fora isso, seu ajuste de abertura é feito por um anel localizado na frente da lente, o que nos sugere que a idéia é que o usuário trabalhe com uma abertura fixa (sunny-16 anyone?) o que não deixa de ser válido para amadores, já que, segundo sua escala de profundidade de campo (visível na imagem acima), se a abertura da lente estiver ajustada em f16, qualquer assunto entre 0,9 metros até o infinito estará em foco.

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Em nossos testes, colocamos a abertura em F4 e o ponto de foco no modo paisagem (árvore/casinha) e, no geral, todas as imagens saíram razoavelmente focadas.

De fato, esse modo de uso é interessante para os adeptos da fotografia de rua, já que ele permite um rápido registro das imagens, já que como não é preciso focar, basta apontar para o tema e clicar. Também achamos qur essa lente produz imagens bem interessantes em preto e branco…

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… apesar de que o seu desempenho em cores também não é das piores:

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No geral, respeitando seus limites, trata-se de uma lente bem divertida para brincar de fotógrafo de rua e até explorar novas possibilidades midiáticas — como por exemplo — revisitar a antiga arte da fotonovela — um tipo de história em quadrinhos onde os desenhos são substituídos por fotografias, sendo uma leitura  muito popular no Brasil entre os anos 1950~70.

Mas como este Ztop+Zumo é uma operação muito enxuta, infelizmente não tivemos recursos no nosso orçamento para contratar modelos para esse experimento, de modo que tivemos que nos virar com um personagem da vizinhança — a Dona Gata

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… que depois de insistentes batidinhas na vitrine da loja de carros onde mora, ela resolveu colaborar com nosso projeto de “gatonovela” e de graça!

Assim sem mais delongas…

ZTOP + ZUMO apresenta:

GATA EM TETO DE CARRO QUENTE

 

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Gato mardito!!!

Desde o século passado Mario Nagano analisa produtos e já escreveu sobre hardware e tecnologia para veículos como PC Magazine, IDGNow!, Veja e PC World. Em 2007 ele fundou o Zumo junto com o Henrique assumindo o cargo de Segundo em Comando, Editor de Testes e Consigliere.

  • Adriano De Lima 17/10/2016, 15:15

    Lindas fotos!
    Parabéns!

    • Mario Nagano 22/10/2016, 11:33

      Dona Gata agradece os elogios.

  • Panino, o Manino 02/11/2016, 14:39

    Adoro esses posts sobre fotografia daqui porque eles sempre vem com essas introduções e explicações históricas. Acho que nem sabia que essas câmeras Chaika existiram.

    • Mario Nagano 23/11/2016, 09:03

      Sim elas seriam mais uma câmera besta no meio de muitas, se não fosse pelo fato dos cumunas da Bielorrússia terem a brilhante idéia de usar a própria lente da câmera no ampliador de negativo para fazer as cópias em papel.

      Se não me engano, essa idéia foi tirada das primeiras Leicas de rosca, cuja lente normal — acho que era uma Elmar 50mm f3.5 — foi inicialmente concebida para ser usada desse modo, mas que depois passou a usar lentes dedicadas.

      http://photo.net/leica-rangefinders-forum/00FoF1

  • Adriano Augusto de Barros 22/11/2016, 17:46

    Excelente. Sempre aprendo muito.