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Retrotech: Redescobrindo a HP-35 a primeira calculadora científica da HP

Nascida do capricho de Bill Hewlett, a HP-35 foi o meteoro que caiu na Terra e mandou as réguas de cálculo para junto dos dinossauros.

Estava eu na Zumo-caverna pensando em maldades, quando vi um anúncio no ML oferecendo um pequeno mais significativo pedaço da história da computação pessoal — a calculadora HP-35:

Para quem nunca foi apresentado, ela foi lançada em 1972 sendo a primeira calculadora de bolso da casa com funções transcendentes, algo revolucionário numa época onde a maneira mais simples e prática de fazer cálculos com funções exponenciais e trigonométricas era com uma régua de cálculo (ou slide rule em inglês) um instrumento por sinal incapaz de somar e subtrair números (a não ser que viesse com um addiator embutido)…

…. o que fez com que a HP-35 fosse uma killer app da sua época — ou seja — uma solução completa para qualquer profissional ou estudante da área técnica realizar suas contas com rapidez e precisão, sendo que mais de 100 mil delas foram vendidas só no seu primeiro ano, ultrapassando a marca de 300 mil na época em que sua produção foi encerrada em 1975.

De fato, o impacto dessa “régua de cálculo eletrônica” no mercado foi tão grande que ela de um certo modo, marcou o início fim do ensino de como usar a versão analógica nas escolas técnicas e faculdades. AFAIK a saudosa ETI Lauro Gomes de São Bernardo do Campo manteve essa disciplina no seu currículo até o início dos anos 1980.

A HP-35 também foi a primeira calculadora de bolso a incorporar a lógica RPN (notação polonesa invertida) pode ser considerada o câmbio manual das calculadoras eletrônicas.

Isso porque essa idéia de fazer cálculos usando uma pilha de registros (X, Y, Z, T) está mais próximo da lógica do computador do que do ser humano, ou seja, já ter na memória os valores de X e Y para depois somá-los é mais simples e racional e eficiente para um processador eletrônico do que receber o valor de X, receber o comando [+], receber o valor de Y e só fazer a soma depois de receber o comando [=].

Assim o uso do RPN permitiu a HP simplificar a lógica de operação das suas calculadoras, além de possibilitar a implementação de mais funções e recursos numa época em que quantidade de memória e capacidade de processamento eram limitadíssimos.

E como acontece com o câmbio manual, os usuários do RPN tem que aprender a pensar e se comportar como uma máquina ( 2 Enter 2 + ) e não como gente ( 2 + 2 = ), na época uma necessidade, mas que nos dias de hoje é algo meio nerd como falar klingonês, filosofar como um vulcano ou calcular como um droid.

O curioso é que o câmbio sistema automático (ou mais exatamente, a lógica algébrica) numa calculadora cientifica foi implementada pela sua arquirrival Texas Instruments com seu sistema AES (Algebraic Entry System) que, obviamente, todo fanboy da HP ideologicamente despreza por considerá-la mundana e vulgar.

O curioso é que, antes da HP-35, o padrão de calculadora científica eram modelos de mesa (como a HP-9100) de modo que nem as pesquisas de mercado da época indicavam a demanda por um modelo de bolso.

Mesmo assim a Hewlett-Packard iniciou o desenvolvimento desse produto a pedido de Bill Hewlett — big kahuna e co-fundador da empresa que leva o seu nome — que gostaria de ter uma HP-9100 que coubesse no bolso da sua camisa. Verdade ou não, reza a lenda que as dimensões dessa calculadora (8,1 x 3,0 x 15,0 cm — LxAxP) foram definidas para atender a essa demanda já que, como dizem por ai — quem pode manda em quem tem juízo obedece né?

Já um fato confirmado é que o nome HP-35 foi escolhido porque a calculadora tinha 35 teclas.

Mas voltando ao que nos interessa, com centenas de milhares de unidades vendidas, em tese a HP-35 não seria uma calculadora rara e devido a sua longa produção, ela passou por diversas revisões tanto para corrigir alguns bugs no seu firmware quanto no desenho do seu gabinete.

Sabendo disso, os colecionadores reconhecem pelo menos dois protótipos (com as teclas amarelas à esquerda) e quatro modelos de produção…

… sendo que a primeira versão — também conhecida como Model 1 — possuía um curioso indicador na forma de um furo que mostra um ponto vermelho quando ligado (dai seu outro apelido “red dot“), algo por sinal meio redundante que foi logo removido nos modelos posteriores:

Como o modelo ofertado não possui o red dot (boo!) nossa conclusão era que ele seria o chamado Model 2 que manteve praticamente todas as características do seu antecessor como o firmware bugado, um ressalto na tecla 5 (para localizá-lo apenas com o tato) e a etiqueta abaixo do teclado onde está escrito apenas “Hewlett-Packard” e não “Hewlett-Packard 35” como nas versões posteriores. Isso porque na época, a empresa só tinha um modelo para vender (duh!)

Fora isso, o Model 2 é facilmente identificável pelo seu número de série (sempre iniciado com “1143A”) impresso numa etiqueta de papel colada no compartimento da bateria. Antes disso, esse número era gravado numa chapinha metálica colada do lado de fora da calculadora logo abaixo da etiqueta de instruções:

A imagem acima também revela que os contatos elétricos da bateria, a entrada do adaptador de rede elétrica e até mesmo os parafusos de montagem estão em ótimas condições, não apresentando sinais de corrosão, o que é uma ótima notícia já que se elas forem encostadas com a sua bateria de NiCad instalada podem sofrer danos sérios caso elas vazem:

Outro detalhe que chamou nossa atenção é o número de acessórios originais inclusos, formado pela caixa de transporte, módulo de bateria original, capa de couro, manual do usuário e mais alguma documentação impressa, algo até esperado para um equipamento com preço sugerido na época do seu lançamento (1972) de apenas U$ 295 o que seria algo como US$ 1.780 nos dias hoje ou ~R$ 7.487 com o dólar a R$ 4,20.

Neste caso, o grande problema é a falta do adaptador de rede elétrica o que impedia checar se a calculadora estava realmente funcionando ou não. Fora isso, a calculadora apresentava sinais de uso intenso, em especial na região do botão liga-desliga onde a tinta da moldura dourada chegou a descascar de tanto passar o dedo. Já o painel do teclado apesar de sujo estava até que bem preservado, sem marcas de corrosão na base das teclas.

Note que nesse modelo, as funções científicas das teclas estão impressas no painel ao contrário do teclado numérico e o Enter cuja identificação não era impressa e sim moldada com uma cor diferente de plástico durante o processo de fabricação. Somente na última versão (Model 4) é que todas as teclas adotaram esse sistema:

Resumindo, o seu estado “regular” de conservação somado a falta da fonte de um certo modo até facilitou a negociação, já que o preço final foi de um produto “no estado”, ou seja, bem abaixo de um exemplar em estado de novo 100% funcional ou de uma peça de coleção.

De qualquer modo, isso não deixa de ser um exercício de fé, já que se levarmos em consideração que esta foi a segunda HP-35 que vi a venda por aqui (e a primeira que vi estava realmente quebrada e mesmo assim seu dono insistia em vendê-la a preço de ouro) achei que os prós superavam os revezes e fechamos negócio.

Passado alguns dias, o produto chegou aqui na Zumo-caverna e confesso que minha impressão inicial não foi das melhores, mas fora as marcas de desgaste na base do teclado, o conjunto estava íntegro, sem marcas de batidas, riscos, peças faltando ou partes quebradas:

Mas antes de mais nada, nosso interesse era de saber se a calculadora estava funcionando ou não. E como japonês não joga nada fora, eu tinha no meu estoque uma fonte original da época (modelo HP 82022A) que veio junto com uma HP-55 que ganhei de um ex-chefe (brigadão Câmpora!) e que é compatível com a HP-35 porque ambas fazem parte da mesma famíla de produtos conhecida como Classics (HP-35, 45, 55, 65, 70 e 80).

Ai foi só fazer as conexões, ligar a fonte na tomada e depois de uns caracteres estranhos piscando no seu display, não é que ele ainda funciona? (happy happy, joy joy!)

De fato, esse modelo mantém os bugs originais da HP-35 o que mostra que seu circuito não foi atualizado, mantendo assim a originalidade do produto.

Feito isso, teve início o processo de limpeza/restauração da calculadora, o que foi feito com bastante água com detergente neutro e um exército de cotonetes que removeram mais de três décadas de marcas de dedos.
Com relação as marcas de uso na base do teclado, preferimos não mexer nelas porque — para isso — teríamos que repintar essa área o que para nós seria muito trabalho para um resultado imprevisível:

Já para reparar sua moldura dourada…

… seguimos uma dica do excelente Museum of HP Calculators e usamos um pincel marcador permanente com tinta dourada que achamos na Kalunga

… para preencher as lacunas da pintura procurando assim manter ao assim o máximo possível da sua originalidade:

E eis aqui o resultado final que para nós até que ficou melhor do que esperávamos:

Agora só faltam a HP-65 e a HP-70 para completar a coleção:

Happy, happy, joy! joy!

Ainda em tempo:

De um certo modo, o legado da HP-35 ainda está entre nós na forma da HP-35s (F2215AA) um modelo com visual retrô inspirado nos modelos da casa dos anos 1970~90 (em especial da série Spice como a HP-34C)…

… algo que fica muito claro, se comparado com seu predecessor, a HP-33S que mais parece algo retirado de um filme do Jaspion:

Isso porque a HP-35s foi lançada para comemorar os 35 anos do lançamento da HP-35 original, só que a 35s não é um produto nativo da HP e sim um OEM co-desenvolvido em parceria com a empresa Taiwanesa Kinpo, que desde 2003 fabrica calculadoras para a HP (e outras concorrentes) desde que a mesma encerrou a produção da HP48G/GX em Corvallis (Oregon) em 1993 e a iniciativa de transferir essa operação para a HP Singapura e depois para a HP Austrália não deram certo.

Apesar disso, é bacana ver que ainda existe no mercado um interesse por calculadoras RPN de cara séria (e que não pareca com um brinquedo da Fisher-Price) com a vantagem de oferecer muito mais funções e poder de processamento.

Wai-wai!

Desde o século passado Mario Nagano analisa produtos e já escreveu sobre hardware e tecnologia para veículos como PC Magazine, IDGNow!, Veja e PC World. Em 2007 ele fundou o Zumo junto com o Henrique assumindo o cargo de Segundo em Comando, Editor de Testes e Consigliere.