Retrotech: MC Helios 44-3 2/58, a “Brasília” das lentes soviéticas

R

Nascida na Alemanha, sequestrada pelos russos e criada na Bielorússia, a MC ГЕЛИОС 44-3 é um bom exemplo de um projeto de fora que passou por tantas modificações até o ponto de ter personalidade própria — como nosso Volkswagem Brasília.

Entre os equipamentos fotográficos russos que chegaram no Brasil a partir dos anos 1990, talvez a mais conhecida delas seja a Zenit (ЗЕНИТ), um belo exemplo do anacrônico design soviético da época e que faz parte de uma longa linhagem de modelos…

… que nasceram a partir de um curioso projeto da KMZ que adaptou uma caixa de espelho a um corpo da Zorki (uma cópia russa da Leica II), criando assim uma SLR com baioneta LTM — uma façanha por sinal nunca tentada nem pelos alemães muito menos pelos japoneses:

Porém o assunto deste post nem é a câmera em si e sim a sua objetiva padrão — a notória Helios 44 — que pode ser encontrada aos montes mercado de usados onde são ofertadas na maioria das vezes por preços bem atrativos, sendo que alguns vêm até com uma tampa traseira de brinde na forma de câmera:

Sequestrada da Alemanha e adotada pelos russos

Para quem não sabe, a Helios 44M é na realidade a quinta geração de uma família de lentes cujo primeiro ancestral foi a Zeiss Biotar 58mm f2

…um projeto que no fim da 2a Guerra Mundial foi confiscado pelo exército russo (junto com tudo o que restou da fábrica da Carl Zeiss em Jena) e despachado para o paraíso do proletariado, onde deu origem a toda uma leva de produtos com DNA alemão (mas orgulhosamente feitos na URSS), como as notórias câmeras Moskva e Kiev baseadas em modelos da Zeiss Ikon:

Reza a lenda que as primeiras Biotars russas foram feitas com elementos ópticos trazidos de Jena e eram chamadas de “БТК” – “БиоТар Красногорский” (BioTar Krasnogorski)…

… sendo que a primeira versão russa — a Helios 44, um duplo simétrico de Gauss baseado no desenho Planar da Zeiss…

… que foi criada para a câmera Start da KMZ em 1958 e depois adaptada para as primeiras Zenit com baioneta LTM/L39.

Vale a pena ressaltar que apesar das aparências, essa lente não pode ser usada nas câmeras com engate de rosca universal M42, mesmo usando um adaptador porque o registro é diferente.

De fato, a primeira Helios com rosca M42 é o modelo 44-2 que equipou as Zenit nos anos 1970~80 e que foi produzidas em diversas fábricas em Kiev (KMZ), Valdai (JOV) e Minsk na Bielorússia (MMZ).

Essa lente ganhou alguma notoriedade na rede por ter um curioso “defeito especial” que produz um desfoque onde os pontos luminosos formam uma espécie de redemoinho ao redor do centro, formando assim o chamado Swirly Bokeh:

Mas em 1979 foi lançada a Helios 44M (M de rosca M42) pela KMZ que, como nas lentes Super Takumar da Pentax, introduziu uma chave seletora A/M o que permitiu que o seu diafragma de abertura pudesse trabalhar no modo manual ou automático:

Ela foi sucedida por uma versão mais simples (sem a chave A/M) mas com tratamento anti-reflexo (MC) que recebeu o nome de MC Helios 44M-4 / 44M-5 / 44M-6 / 44M-7 cujo número no final não é uma referência de geração e sim um indicador de qualidade, já que cada lente depois de montada era testada individualmente e, de acordo com sua resolução em linhas/mm ela recebia um número. A saber:

  • MC Helios-44M-4 – 41/20 linhas/mm (centro/canto)
  • MC Helios-44M-5 – 41/20 linhas/mm (centro/canto)
  • MC Helios-44M-6 – 45/25 linhas/mm (centro/canto)
  • MC Helios-44M-7 – 50/30 linnhas/mm (centro/canto)

Assim, na teoria, a lente 44M-5 é melhor que a 44M-4 e, mas ao mesmo tempo, pior que a 44M-6 e a 44M-7 é a melhor de todas, apesar de que, no geral, o nosso mercado não diferencia uma da outra no que se refere ao seu preço:

Mandando a produção pra fora

No meio dessa salada de números, pode surgir a dúvida: Se depois da 44-2 veio a 44M e depois dela as 44M-4/5/6/7, onde fica a 44-3?

Resposta curta: Na Bielorússia.

Resposta longa: Reza a lenda que entre os anos de 1982~83 com a chegada das novas lentes 44M, a produção da 44-2 foi transferida para fora da Rússia, ou mais exatamente para a fábrica da MMZ (ММЗ — Минского Механического Завода / Minskiy Mechanicheskiy Zavod) fundada em 1957 na cidade de Minsk na Bielorússia ( e que existe até hoje com o nome BeLOMO ) que já fabricava equipamentos ópticos e câmeras de origem russa, entre elas a própria Helios 44-2

O curioso é que por talvez estar em outro país e os russos não estarem muito preocupados com o que o pessoal de Minsk ia fazer ou não com aquela lente, a MMZ resolveu dar um “facelift” no visual do produto, criando assim sua própria ГЕЛИОС 44-2

…que equipou a sua versão local da câmera Zenit:

Sob um certo ponto de vista, essa iniciativa lembra muito a história do desenvolvimento do Volkswagen Brasilia cuja idéia era de desenvolver e fabricar no Brasil um novo veículo baseado na mecânica do Fusca, mas com um desenho mais moderno e atrativo para o consumidor local:

E como o Brasília, apesar do seu novo visual, a Helios 44-2 da MMZ manteve a “mecânica original” do original russo, o que inclui o tratamento anti-reflexo simples (single coated) e o controle totalmente manual do diafragma, onde o usuário mantêm o mesmo totalmente aberto para que entre o máximo de luz no visor — facilitando assim o foco — e fecha-o na direção da seta vermelha antes de bater a foto para obter a exposição correta o que, nos anos 1980, já era um sistema bem anacrônico até mesmo para os padrões soviéticos!

Porém, o que chama a atenção dessa lente é que o pessoal da MMZ pode ter mexido em algo nessa lente porque que ela é dona de uma personalidade própria, bem diferente das outras 44-2, o que faz dela um produto bastante singular.

Mas a história não para por ai, já que em meados dos anos 1980 a MMZ lança a notória MC ГЕЛИОС 44-3 agora com tratamento antirreflexo de múltiplas camadas (multicoating) e que foi fabricada até os anos 1990…

… junto com a MC ГЕЛИОС 44-3M (M de Macro) uma versão mais rara voltada para uso em equipamentos industriais:

O interessante é que como os Russos nunca lançaram uma 44-2 com multicoating, isso faz dela um produto único e particularmente interessante para os fãs da 44-2 que apreciam o seu desenho óptico, mas que desejavam um coating mais moderno.

Assim, a 44-3 é meio que um bicho estranho ou um beco sem saída na evolução da Helios 44…

… já que a série 44M foi sucedida pela rara Helios 77M-4 1.8/50 e depois por um nova lente de desenho mais moderno chamado MC Zenitar-M2s 2/50 que até chegou a ser vendido no Brasil junto com as últimas Zenit 122/412:

Uma lente por sinal muito boa, mas que foi sempre esculhambada pelo público em geral por causa do seu acabamento e visual que mais lembra um brinquedo de plástico.

Fotografando com a MC ГЕЛИОС 44-3

Nosso primeiro contato com a 44-3 não foi exatamente com a dita cuja e sim com sua antecessora, a ГЕЛИОС 44-2 que comprei por uma merreca no ML (espetada numa câmera ZENIT ET quebrada), mas que depois de limpa e regulada…

… produziu imagens bem bacanas, em especial no que se refere ao seu bokeh super cremoso cujo visual é bem diferente das obtidas com as 44-2 russas.

Isso de um cero modo nos motivou a procurar uma 44-3 no mercado, o que são bem mais difíceis de aparecer por aqui do que as Helios 44-2 da KMZ e Valdai porque, como dissemos antes, esses equipamentos com marcas em caracteres cirílicos foram voltadas para o consumo interno (duh!) e não para exportação.

A boa notícia é que como as 44-3 foram fabricadas por último e assim são mais recentes, elas são bem mais fáceis de serem encontradas até “novas” do que a 44-2 da MMZ.

Apesar de serem parte da mesma família de lentes a MC Helios 44M-4/5/6/7 e a MC Helios 44-3 não parece ser irmãos e sim primos distantes…

… sendo que fica claro que a 44M-4 tem um visual mais moderno que a 44-3 que, por sua vez tem uma aparência mais rústica e utilitária. Note que na 44M-4 o anel de foco fica na parte de cima e o ajuste de abertura embaixo, sendo que na 44-3 o posicionamento é o contrário, existindo ainda um terceiro anel no meio que controla a abertura e o fechamento manual da sua iris (seta vermelha) de 8 palhetas, contra 6 da 44M-4:

Observamos porém que esse sistema de abertura manual da 44-3 é particularmente apreciada por videomakers porque eles podem ajustar a abertura da lente de maneira suave mesmo durante as filmagens o que pode resultar em efeitos visuais bem interessantes o que já não é possível de ser feito com a 44-M4.

E como a 44-M4 a 44-3 também possui um engate de rosca universal M42 o que facilita o seu uso em um grande número de câmeras incluindo algumas digitais por meio de adaptadores:

Na teoria, em termos de nitidez a 44-3 ( 40/21 linhas/mm (centro/canto)) meio que se equivale a 44M-4 (41/20 linhas/mm (centro/canto)) o que não faz da 44-3 a lente mais nítida do pedaço…

… mas a partir de f4 ele produz uma imagem de boa qualidade tanto em cores…

… quanto em P&B:

Clique para ampliar

Mas apesar do seu tratamento antireflexo do tipo multicoated, a 44-3 está sujeito a problemas de flare quando a luz do sol incide diretamente sobre a lente, problema que pode ser amenizado com o uso de um parassol ou que pelo menos faça sombra sobre a lente com algum objeto que pode ser até a palma da mão.

De qualquer modo acreditamos que o grande atrativo da 44-3 esteja na maneira como ela renderiza as imagens fora de foco (= bokeh) sendo que como as 44-2 ela cria aquele efeito de swirly bokeh:

Mas para nós, essa lente realmente brilha é no efeito de desfoque obtido a curtas distâncias…

Clique para ambpliar

… o que é uma façanha para uma lente que não é do tipo macro e cuja distância mínima de foco é de 0,5 metros:

No geral é uma lente super bacana para brincar e fazer retratos, inclusive do seu gato mal humorado:

Legal né?

Bonus Track: Decifrando a logotipia das câmeras e lentes soviéticas

Uma das curiosidades de como a indústria soviética funcionava, era que suas fábricas (na época, todas de propriedade do estado) operavam meio que anonimamente e de maneira coordenada por trás de grandes agências que administravam a produção e o comercio de bens tanto para o consumo interno quanto para exportação.

O resultado disso é que um mesmo produto podia ser feito em diversas plantas — caso da câmera Zenit e da lente Helios 44 — que foram produzidas por pelo menos quatro fábricas: A KMZ, MMZ, Vilejka e a Valdai.

Mas como saber quem era quem por trás da cortina de ferro? Neste caso, o costume não era de usar nomes, e sim pequenos logotipos que identificavam cada fabricante de maneira relativamente discreta:

Segue abaixo uma pequena lista dessas fábricas e seus respectivos logos:

LogoNomeLocalizaçãoComentários
KMZKiev, Ucrânia Também conhecida como Krasnogorskiy Mechanicheskiy Zavod (Красногорский Механический Завод) ela foi a Big Kahuna da indústria fotográfica soviética.
VALDAI Valdai, Rússia Apesar do seu notório logo que lembra um espetinho misto (ou Kebab) pouco se sabe dessa fábrica ( Валдайский завод ) além do fato dela ter produzido quantidades imensas de lentes Helios 44/44M para as câmeras Zenit.
FEDCracóvia, Ucrânia Fundada num orfanato na Cracóvia por membros da KGB, ela é mais conhecia pela sua longa linha de cópias de Leica. De fato, a marca ФЭД vem das iniciais de Феликс Эдмундович Дзержинский (Félix Edmundovich Dzerjinsky ou Felix de Ferro, o fundador da KGB). A propósito, já falamos sobre ela aqui.
Arsenal de ZAVOD Kiev, Ucrânia Notória por criar versões soviéticas de decadentes câmeras capitalistas e reacionárias como Hasselblad, Zeiss-Ikon, Nikon e também de empresas camaradas como a Pentacon.
MMZMinsk, Bielorússia Fundada em 1957 como Fábrica Mecânica de Minsk ( Минский Механичесский Завод ) , ela começou fabricando lentes para a câmera SMENA-2. e, em 1971 ela passou a se chamar BeLOMO.
BeLOMOMinsk, Bielorússia A Associação Optico-mecânica da Belorússia surgiu em 1971 da fusào das fábricas da MMZ, Vilejka e Peleng produzindo assim um pouco de tudo como lentes, câmeras, projetores e acessórios.
LOMOSão Petesburgo, Rússia Fundada pela GOMZ em 1962 ela era a maior empresa óptica na mão de civis da Uniào Soviética e criadora da notória LOMO LC-A, que deu origem ao movimento Lomográfico.
GOMZ São Petesburgo, Rússia Antigo nome da LOMO .
VILEJKA Vilejka , Bielorússia Fundada em 1969-70 a Vileiskiy Zavod Zenit ( Вилейский Завод ) foi uma parceria criada pela a KMZ e a MMZ para produzir câmeras ZENIT para atender apenas o mercado doméstico, o que explica o fato de todos os seus produtos só terem inscrições em caracteres cirílicos (como Зени́т ).
PELENG Rogachev, Bielorússia Fabricante de projetores e elementos ópticos para a BeLOMO.
LZOS Lytkarino, Rússia Filial da KMZ a Lytkarinskiy zavod Opticheskogo Stekla (Лыткаринский завод Оптического Стекла) se dedicava a fabricação do vidro óptico usado nas câmeras da KMZ.
VOLOGDA Vologda, Rússia Fabricante de lentes, entre elas a famosa Mir-1B (uma cópia melhorada da Zeiss Flektogon 28mm/f2.8) e a Jupiter-21M (também baseada no desenho Sonnar da Zeiss).
ROMZ Rostov, Rússia Essa marca é normalmente vista em acessórios como visores para câmeras FED e ZORKI ou em equipamentos militares como visores noturnos.
ZOMZ Zagorsk, Rússia Fabricante de acessórios para câmeras e binóculos da marca Kronos
Selo de qualidade CCCP Este logo aparece em diversos equipamentos da ex União Soviética (em russo Союз Советских Социалистических Республик ) e era um tipo de selo de certificação de qualidade para produtos voltados para exportação, como também era o 1Q da Alemanha Oriental  ou o JCII japonês.

Mais exemplos podem ser vistos aqui.

Sobre o autor

Mário Nagano

Desde o século passado Mario Nagano analisa produtos e já escreveu sobre hardware e tecnologia para veículos como PC Magazine, IDGNow!, Veja e PC World.
Em 2007 ele fundou o Zumo junto com o Henrique assumindo o cargo de Segundo em Comando, Editor de Testes e Consigliere.

RSS Podcast SEM FILTRO




+novos