Retrotech: Como lavar um teclado IBM model M

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Venerado pela da sua maciez, durabilidade e feedback sensorial, o teclado IBM model M também é um dos poucos acessórios de PC que você pode lavar com água e sabão e deixá-lo tão limpinho quando no dia em que ele saiu da fábrica a 20 ou 30 anos atrás.

Em um mundo como o de hoje onde a vida útil de um equipamento de alta tecnologia é medido em anos (como os PCs) ou até em meses (como os smartphones), é incrível ver que um acessório fabricado há mais de 30 anos ainda pode ser ligado a um PC de linha e funcionar tão bem ou até melhor que a sua versão contemporânea.

Estamos falando do teclado IBM model M, introduzido em 1985 para substituir o Model F e que ainda conta com uma legião de fãs e entusiastas que consideram esse equipamento cult não porque ele seja estiloso, hipster ou historicamente relevante e sim porque ele é muito gostoso de usar — simples assim!

Talvez o grande fator que mantém esses teclados utilizáveis e na ativa até os dias de hoje é a sua compatibilidade com o padrão de teclado ANSI 101/ISO 102, cujo layout (também conhecido como padrão AT) mantém-se praticamente inalterado até os dias de hoje, exceto pela adição das teclas Windows em 1994.

E apesar dele se conectar com o PC por meio da boa e velha porta PS/2, é relativamente simples ligá-lo numa porta USB por meio de um adaptador ou por meio de uma modificação interna ou até externa do circuito do teclado (falamos sobre isso aqui.)

Além de ser construído como um tanque, outro fator que também contribui para a sua longa vida é que, ao contrário dos teclados convencionais, é tecnicamente possível dar uma boa limpada no model M não apenas com um raquítico pano úmido e sim lavá-lo com escova, água e sabão.

Note que destacamos a palavra “tecnicamente” não porque isso signifique que podemos dar-lhe um banho de mangueira ou jogá-lo na lavadora de roupas, e sim que é relativamente simples desmontá-lo para remover as peças realmente sujas e lavá-las com mais eficiência.

E como um dos nossos IBM model M aqui da Zumo-caverna estava precisando desesperadamente de um banho, resolvemos fazer isso no último fim de semana aqui e compartilhar essa experiência com nossos leitores.

Preparativos

Para iniciar essa faxina, o primeiro passo é desconectar o teclado do PC (duh!).

Nos modelos mais antigos fabricados até meados de 1993 o cabo PS/2 se conecta com o teclado por meio de um plug de desenho proprietário muito parecido como uma porta de rede Ethernet, só que equipado com suas travinhas laterais que devem ser pressionadas ao mesmo tempo para liberá-lo da porta:

E como podemos ver na imagem abaixo, a base deste teclado é fixado por meio de quatro parafusos de cabeça sextavada que não possui nenhum tipo de fenda!

Some se a isso o fato de que três desses quatro parafusos estão posicionados no fundo de cavidades de ~1,8 cm de profundidade, temos ai um belo problema para ser resolvido se primeiro, não tivermos a ferramenta correta — uma chave canhão — e segundo, não sabermos qual a medida exata da cabeça deste parafuso mardito:

Para resumir uma longa história, descobri meio que por acaso que a medida dessa cabeça não está em milímetros e sim em polegadas — ou mais exatamente 7/32″ (~5,56 mm) — ou seja, a chave canhão de 5 mm não entra e a de 6 mm fica muito folgada.

A boa notícia é que ciente dessa medida, é bem fácil encontrar a ferramenta correta no varejo porque ela é fabricada por diversas empresas locais e de fora na faixa de R$15~30, sendo que a minha é da Moretzsohn modelo 7/32 x 150. O número 150 se refere ao comprimento da sua haste (150 mm) e aparentemente ela está fora de linha:

O que achei na web é um modelo 31677 de 7/32 x 125 que, fora o seu menor comprimento (125 mm) me parece ser igual ao meu:

O único cuidado que o usuário tem que ter na hora comprar a sua é ter certeza que a largura externa dessa chave seja menor que o diâmetro da cavidade onde fica o parafuso que é de ~11,6 mm:

Retirado os quatro parafusos é possível remover a moldura superior do teclado revelando assim o seu interior em toda a sua… imundície?

Aviso amigo #1:

Antes de avançarmos nessa operação, recomendamos que o usuário tire uma foto do layout do teclado com seu celular, o que vai ser muito útil depois na hora de remontá-lo.

Costuma-se dizer que “já não se faz mais coisas como antigamente” e isso pode ser comprovado neste model M.

Por exemplo, a base das teclas fica assentada internamente sobre uma pesada placa de metal, o que explica em parte o seu peso (2,0~2,5 kg) e as alegações que ele pode ser usado como uma arma ninja tanto para ataque quanto para defesa pessoal.

Outra característica ainda mais interessante é que a maioria das teclas possui uma “sobrecapa” sobre a mesma que contém a sua identificação:

Acreditamos que essa solução foi adotada para facilitar a fabricação/adaptação desse teclado para diversos idiomas. De fato é possível converter um teclado “QWERTY” para o padrão alemão “QWERTZ” apenas trocando as capinhas das teclas “Y” e “Z” de posição. Já um outro usuário mais radical remanejou mais capinhas e criou seu próprio model M DVORAK.

Aviso Amigo #2:

Caso você encontre um model M com teclas “em branco” pode ter certeza que ele sofreu algum tipo de queda, pancada ou mau trato que pode ter levado a perda da sobrecapa.

Além de difícil de ser reposta, essa ocorrência pode ser uma indicação de que esse teclado passou por maus bocados, o que deveria ser levado em consideração no caso de uma compra ou venda, principalmente com os preços irreais que ando vendo no nosso mercado.

Esse sistema de capa + sobrecapa também ajuda a proteger o seu mecanismo de acionamento da tecla — o notório buckling spring — cuja mola pode ser vista quando removemos algumas teclas que não mudam de “posição” como [Shift] ou [Enter] note que as teclas mais longas possuem um segundo suporte que funciona como uma espécie de guia para estabilizar o movimento da tecla:

Outra característica muito bacana que nunca ouvimos falar nem lemos em outros sites é a presença de quatro aberturas na base desse teclado, que funcionam como uma espécie de dreno para líquidos (uia!)…

… uma idéia por sinal que depois foi copiado pelo Thinkpad lançado sete anos depois do primeiro model M.

Hora do banho

Após remover a parte de cima do teclado o próximo passo é remover todas as teclas sujas, ou mais exatamente as sobrecapas (e as teclas sem sobrecapa como o [Enter] e a barra de espaço) o que pode ser feito simplesmente puxando-as com a mão…

… ou usando alguma ferramenta com haste fina e usá-la — com muito amor e carinho — como alavanca. Essa técnica é particularmente útil para remover as capas localizadas na parte central do teclado:

O truque neste caso é apoiar a ponta da ferramenta na sobrecapa e não na tecla propriamente dita, já que isso pode fazer com que o conjunto inteiro seja arrancado da base. Mas mesmo que isso ocorra, basta retirar a sobrecapa e recolocar a tecla no seu lugar tomando apenas o cuidado de não amassar a mola que tem que ficar entre as duas metades da coluna do suporte do teclado:

Aviso Amigo #3:

Ao remover algumas teclas, o mecanismo de bucking spring pode ficar exposto.

Neste caso nossa recomendação é que o usuário não toque nessas molas, não tente removê-las e — é claro — não vire o teclado do contrário, evitando assim que elas caiam.

Conforme as teclas são retiradas, junte-as num balde ou bacia …

E leve para a pia/tanque para a lavá-los com bastante água e sabão…

… sendo que pela minha experiência o melhor agente de limpeza é o bom e velho sabão em pó…

… que funciona bem para remover a sujeira das teclas já que, com apenas com uma boa agitação elas já saem bem limpas apesar de recomendarmos que elas fiquem de molho nessa mistura por uma meia hora:

De fato, aproveite esse tempo para dar uma boa esfregada na moldura do teclado com a mesma água do molho ou use um bom sabão de pedra (o nosso preferido é o de côco):

Feito isso, basta enxaguar tudo com bastante água e aproveitar esses dias de verão para secá-los ao sol por uns 10~15 minutos:

Com essa parte finalizada, aproveite essa oportunidade para limpar o interior do teclado. Desta vez nos limitamos a fazer uma limpeza leve, retirando a poeira e outros detritos que se acumularam entre as teclas. O motivo para tal é de mexer o menos possível no mecanismo das teclas já que — se elas estão funcionando — melhor não quebrá-las né?

Feita a limpeza, basta fazer o caminho reverso, recolocando as sobrecapas e as teclas (usando como orientação aquela foto de cima do teclado antes de desmontá-lo — lembra-se?)

Feito isso basta recolocar a moldura superior do teclado e fixá-la com os parafusos de cabeça sextavada, reconectar o cabo PS/2 no PC e o teclado está pronto para mais alguns anos (ou décadas) de uso:

Antes do banho…
… depois do banho.

Considerações finais

Sou de uma época em que era fácil de encontrar um (ou vários) IBM model M nos sucateiros da Santa Ifigênia já que, naquela época, eles nada mais eram do que teclados grandes, velhos e pesados, de modo que os lojistas não costumavam cobrar a mais por eles por ser um “model M” — ou até davam um desconto bacana se a gente comprasse dois ou mais deles — principalmente quando estavam amontoados junto a outros nas pilhas de oferta da loja:

teclado_m5_sucateiro

Hoje os tempos são outros e a oferta desse teclado é escassa e os preços ridiculamente altos…

… o que faz com que aqueles felizardos que ainda têm o prazer de ter um model M firme, forte e operando em seus desktops deveriam ter a preocupação de mantê-los bem cuidados e tratados com todo amor e carinho — com direito até a um banho de vez em quando né?

Ah sim… Pelo preço acima, melhor comprar logo um teclado Unicomp na Amazon.com que é a versão moderna do model M (inclusive com as “novas” teclas Windows) fabricada por ex-funcionários da Lexmark que comparam a tecnologia da empresa quando esta encerrou a produção do model M para a IBM.

Agora, quem fizer questão de um M original, a melhor alternativa é a ClickyKeyboards.com, apesar de que seus preços já foram bem melhores.

Outra alternativa (também não necessariamente mais em conta, diga-se de passagem) pode ser o Happy Hacking Keyboard um curioso teclado compacto com nome engraçado criado no Japão pela PFU (divisão de imaging e sistemas embedded da Fujitsu Systems) que possui apenas 60~65 teclas e 30 cm de largura…

… mas que mantém as mesmas funcionalidades de um teclado padrão de 104 teclas.

Segundo seus fãs uma dos atrativos deste produto é que, devido às suas dimensões reduzidas — 29,4 x 4,0 x 11,0 cm (LxAxP) — faz com que as mãos do usuário não se movimentem muito sobre o teclado, agilizando assim o seu uso.

Esse produto está disponível em diversos modelos sendo o mais icônico deles a chamada linha Professional — como o Happy Hacking Keyboard Professional 2 — cujos preço nos EUA pode superar a casa dos US$ 270 até US$ 400 na EliteKeyobards sua distribuidora oficial nos EUA. Ele também pode ser encontrado no Amazon.com na faixa dos US$ 300.

Para aqueles que acham esse preço meio alto, a PFU também comercializa uma versão Lite (com teclado de bolha, sem mola) na faixa dos US$ 100.

Já os hackers mais hardcore poderão preferir a nerdíssima versão limpa (PD-KB600BN) uma variante do modelo US-Internacional com porta bluetooth, porém sem nenhuma identificação nas teclas:

Happy_Hacking_Keyboard_BT_clear

Sobre o autor

Mário Nagano

Desde o século passado Mario Nagano analisa produtos e já escreveu sobre hardware e tecnologia para veículos como PC Magazine, IDGNow!, Veja e PC World.
Em 2007 ele fundou o Zumo junto com o Henrique assumindo o cargo de Segundo em Comando, Editor de Testes e Consigliere.

Por Mário Nagano

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