Retrotech: Câmera Tekinha

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Da série “a primeira câmera a gente nunca esquece”, no meu caso é a Tekinha, um produto simples e barato (para não dizer tosco) que pode ser considerado a pioneira no Brasil no que chamamos hoje de Toy Camera.

Lançada em meados dos anos 1970, a singela Tekinha foi de um certo modo um produto revolucionário para a sua época já que — antes dela — boa parte das câmeras fotográficas simples e baratas do nosso mercado tentavam passar a impressão de que eram algo bem mais caro e sofisticado (pelo menos para os olhos daqueles que estavam ao seu redor) do que realmente eram:

Dai na minha opinião, a grande sacada da Tekinha (fosse ela intencional ou não) é que ela era tão simples e barata ao ponto de convencer muitos pais e avós a presentearem seus pimpolhos com uma delas com a esperança de que assim eles deixariam em paz a câmera da família que, na época, era considerada um bem tão precioso quanto o carro do papai ou a espingarda do vovô.

Isso de um certo modo permitiu que muitos infantes dessem seus primeiros passos na arte da fotografia, incluindo este que vos escreve. 😊

O curioso é que o DNA dessa pequena câmera não é daqui e sim dos EUA, onde os americanos Samuel Noble e Charles Helin criaram no início dos anos 1970 a Snapshooter.

Segundo a Novacon, Noble era dono de uma fábrica de equipamentos fotográficos que desenhou e produziu a Noble 3-35

… uma engenhosa câmera capaz de abrigar até três rolos de filme 35mm num mecanismo do tipo “carrossel” o que permitia que o fotógrafo pudesse trabalhar com emulões diferentes ao mesmo tempo (como película preto-e-branco, colorida e infravermelho) — e isso sem falar na possibilidade de tirar até 108 fotos numa só sessão sem precisar parar para trocar filme!

Já a idéia da Snapshooter deve ter nascido da cabeça de Charles Helin, o inventor do notório Flatfish fishing lure

… que se associou a Noble para produzir uma câmera simples e barata que tirasse proveito do fime 126 “Instamatic” da Kodak:

Neste caso, a grande sacada é que o formato desse cartucho lembra muito a parte de trás de uma câmera com dois compartimentos para o filme (um para a película virgem e outro para o exposto) com uma área de exposição ao centro:

Daí, basta adicionar uma câmara escura equipada com uma lente + disparador, um visor de enquadramento em cima e algum tipo de mecanismo de transporte para se ter uma câmera super compacta e totalmente funcional:

Depois de algum tempo, essa câmera também foi lançada no Brasil com o nome Tekinha pelas mãos da empresa paulista TECMOLD Ind. e Com. de Moldes de São Paulo que, fora o nome acima da lente, ela manteve todas as características da versão americana.

Já sua lente é do tipo meniscus com foco/abertura fixa e o seu disparador é um simples mecanismo de mola com apenas uma velocidade. Como não existe nenhuma conexão mecânica com o mecanismo de transporte, toda vez que a alavanca é baixada ela dispara, permitindo assim múltiplas exposições na mesma chapa.

Uma curiosidade desse produto é que (até onde eu me recordo), a Tekinha nunca foi vendida em lojas de brinquedos e sim apenas em lojas de fotografia, funcionando assim como um incentivo a mais para sua clientela comprar e revelar mais filmes 🤑🤑🤑.

De fato, a preocupação em apresentar esse produto como algo sério pode ser observado no seu manual de instruções (na verdade um pedaço de papel dobrado) que contém um texto intitulado “NÃO COMETA ESTES ENGANOS” que é um verdadeiro curso se fotografia em uma lição — sintam o drama:

Eu particularmente gosto da parte que diz “TREINE… TREINE… TREINE bastante!” (o seu revendedor de filme e laboratório de revelação agradecem! 😈)

E como era a experiência de fotografar com uma Tekinha? Apesar de ter tido uma quando era moleque, a minha lembrança era que as fotos não eram lá grande coisa já que o foco era fixo, a distância mínima nunca respeitada e o fotografo era totalmente sem noção e ruim pra burro!

Fora isso o filme 126 sempre teve um problema de projeto onde não havia a garantia de que a película estivesse perfeitamente esticada/plana na hora da exposição, o que poderia levar a perda da nitidez nas imagens.

Eu ainda devo ter algumas fotos dela em algum canto da minha bagunça e prometo que, se encontrá-las, posto aqui algum dia.

Algo que me lembro bem é que a Tekinha era uma câmera atém bem resistente já que não tinha muito o que quebrar nela. Eu tive a minha até os anos 1980 quando dei ela de presente para um colega meu, o Vinícios Pita.

Nos dias de hoje a Tekinha não é exatamente uma câmera rara sendo que uma e outra aparece de vez em quando no ML. Na minha opinião, o seu maior perrengue é o preço médio cobrado (na faixa de R$ 100~200) o que para mim é muito para um brinquedo de plástico de modo que passei anos atrás de uma até achar uma oferta até que bem completa com caixa e manual na faixa de R$50.

Sob esse ponto de vista, acredito que nos dias de hoje, ter uma Tekinha seja mais o resgate uma boa lembrança do passado que não volta mais do que ter uma boa câmera para tirar fotos.

E mesmo que este seja o desejo — ou até mesmo uma obsessão — vale a pena relembrar que a Kodak parou de fabricar filme 126 no fim do século passado, sendo que o último fabricante conhecido foi a Ferrania que fez seu último lote em 2007.

Mas como a largura da película do filme 126 é a mesma do filme 135, é tecnicamente possível rebobinar cartuchos antigos:

O problema neste caso é que enquanto o filme 135 possui diversos furos de cada lado para tracionar o filme (~ 8 para cada fotograma), o 126 possui apenas um que é usado essencialmente para indicar a posição correta do próximo quadro, o que obriga o usuário a fazer alguns malabarismos para tirar várias fotos sem sobrepor as imagens.

Esse processo por sinal é descrito detalhadamente aqui.

No caso da Tekinha até menos porque como o mecanismo de transporte não está ligado ao disparador, basta puxar o filme por “oito cliques” para posicionar a nova chapa.

A Tekinha original foi sucedida pela Tekinha II que trouxe uma importante melhoria que era um encaixe para Magicube o que permitiu usar essa câmera com luz de flash…

… e AFAIK também existiu uma tal de Eurekinha que era igual ao modelo acima, só que comercializada pela Curt do Brasil, uma das pioneiras do sistema de revelação com filme grátis,

Upalelê!

Sobre o autor

Mário Nagano

Desde o século passado Mario Nagano analisa produtos e já escreveu sobre hardware e tecnologia para veículos como PC Magazine, IDGNow!, Veja e PC World.
Em 2007 ele fundou o Zumo junto com o Henrique assumindo o cargo de Segundo em Comando, Editor de Testes e Consigliere.

Por Mário Nagano

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