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Relembrando Freedom Project (ou como um fabricante de macarrão instantâneo quis reinventar Akira)

OVA patrocinado pela Nissin foi a melhor coisa que Katsuhiro Otomo ajudou a produzir desde que explodiu Neo-Tóquio.

Como todo nerd, otaku, fã de anime e maluco do pedaço já deve saber, no dia de hoje (16 de julho de 2016) completam-se 30 anos do lançamento do filme Akira nos cinemas japoneses, a obra imortal de Katsuhiro Otomo que serviu de porta de entrada para a cultura pop do ocidente conhecer o cinema de animação japonês.

E se Alien o Oitavo Passageiro, de 1979, foi um dos primeiros filmes a mostrar pessoas comuns viajando pelo espaço, Akira  foi um pioneiro ao retratar o século 21 não como uma utopia próspera e sim como uma versão mais velha, saturada e decadente dos dias de hoje, e isso sem falar na influências em artistas como Daft Punk e séries de TV como Stranger Things.

De fato nenhum outro artista/produtor/diretor de anime do seu tempo foi tão festejado e teve acesso a tantos recursos para desenvolver novos trabalhos, sendo que o ápice dessa ascendente foi Steamboy (2004), considerado o filme de animação mais caro já produzido no Japão (~2,13 bilhões de ienes ou ~US$ 18,9 milhões) mas que faturou globalmente algo como US$ 10,8 milhões, o que fez com que essa obra fosse mais lembrada (se é que se lembram) nos dias de hoje pelo seu visual steampunk, apesar de que o diretor Koichi Chigira e o artista Range Murata terem explorado esse mesmo visual retrô um ano antes em Last Exile.

Seu trabalho mais recente foi em Short Peace (2013), onde apesar dele ter dirigido a menos eletrizante das quatro sequências do filme (Combustible) é claro que os marketeiros colocaram seu nome na frente dos outros diretores — a exemplo do que já tinha acontecido em Memories (1995), filme por sinal que também revelou seu colega — Satoshi Kon — que assinou o roteiro de Magnetic Rose.

Falando nisso, Otomo também dirigiu um bizarro filme escrito por Kon intitulado World Apartment Horror de 1991:

Sob um certo ponto de vista, Akira foi para Otomo o mesmo que O Apanhador no Campo de Centeio foi para J. D. Salinger ou o álbum Tommy foi para o grupo The Who, ou seja, o sucesso foi tão grande que a criatura se tornou maior que o próprio criador, fazendo com que o mesmo nunca conseguisse criar algo igual, maior ou mais relevante.

De fato, depois de tantas barcas furadas, por que é que Otomo nunca voltou as suas origens e produziu algo pelo menos parecido com Akira?

Na verdade ele até que fez sim.

Estamos falando de Freedom Project (フリーダム プロジェクト) ou simplesmemte Freedom uma minisérie em OVA (voltado diretamente para o mercado de vídeo) em sete episódios, lançada em partes durante os anos de 2006 ~2008 sendo dirigida por Shuhei Morita a partir do roteiro de Dai Sato, Katsuhiko Chiba e Yuuichi Nomura. Já o desenho de produção ficou por conta de Otomo, cujo visual é claramente inspirado em Akira…

… o que inclui seu protagonista, alguns amigos e até suas máquinas envenenadas:

Essa série conta a história de Kaneda Takeru, um jovem rebelde que vive na república de Neo-Tóquio Eden, uma colônia na lua para onde a civilização humana se refugiou depois que a terra foi destruída por uma grande explosão pelas mudanças climáticas criadas pelo homem.

Mas devido a um acidente de corrida causado por um veículo construído por Kaneda Takeru e seus colegas Tetsuo Kazuma e Yamagata Bismark

… a turminha brava foi sentenciada a fazer trabalho voluntário fora da colônia, onde Kaneda Takeru encontrou vestígios de mensagens enviadas da Terra…

… que insinuam que as condições por lá melhoraram…

… e é claro que na trama aparece um rabo de saia chamada (Kei Ao) para inspirar Kaneda Takeru a embarcar numa jornada de volta ao planeta Terra, mesmo que sob a desaprovação do governo de Eden:

Porém, o mais curioso desta série é que ela não foi concebida como uma obra cinematográfica em si, e sim para comemorar os 35 anos do lançamento do Cup Noodle, que chegou ao mercado em 1971.

Isso de um certo modo explica como esse notório macarrão de copinho é descaradamente apresentado no anime, numa prática conhecida pelos marketeiros como product placament:

Esta por sinal é uma faceta pouco conhecida do Cup Noodle no Brasil, já que lá na terra dos nipões, a empresa se esforça muito para associar esse produto com o público jovem, ao contrário do que acontece no Brasil onde a imagem do macarrão instantâneo está muito mais associada com comida barata.

De fato, já ouvimos dizer que um dos grandes desafios da Nissin no Brasil é de aumentar suas vendas do Cup Noodle, só que o problema é que o seu maior concorrente por aqui é outro produto da casa — o tradicional Miojo Lámen de pacotinho — cujo preço unitário é bem menor do que a versão de copinho.

De qualquer modo, a luta continua com o Cup Noodle tentanto conquistar os corações e mentes da juventude brasileira por meio de alguns comerciais até que bem bacanas, como o Samurai Cup Noodles

… ou esse novíssimo comercial com o mestre do portuglish Joel Santana:

Mais informações aqui.

 

Desde o século passado Mario Nagano analisa produtos e já escreveu sobre hardware e tecnologia para veículos como PC Magazine, IDGNow!, Veja e PC World. Em 2007 ele fundou o Zumo junto com o Henrique assumindo o cargo de Segundo em Comando, Editor de Testes e Consigliere.