Presidente da Qualcomm é Doutor Honoris Causa da Unicamp

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Cristiano Amon é o mais jovem engenheiro a receber essa honraria da própria universidade, onde se formou engenheiro em 1992.

Para aqueles que ficam filosofando até onde a educação pública de qualidade pode levar uma pessoa, um exemplo super bacana é o de Cristiano Rennó Amon

… cuja formação na Universidade de Campinas (Unicamp ) o levou até a cidade de San Diego nos EUA onde se tornou o atual Presidente Global da Qualcomm, o primeiro não norte-americano a ocupar esse cargo.

De Campinas para o mundo

Um ano após se formar Engenheiro Elétrico na Unicamp em 1992, Amon iniciou sua carreira na na NEC, onde trabalhou na engenharia de implantação das primeiras redes celulares do Brasil no Rio e São Paulo. Participou do desenvolvimento da primeira proposta de CDMA da empresa, vitoriosa em ambos editais.

Já em 1996 ele passou pela primeira vez pela Qualcomm, onde orientou o processo de padronização e comercialização de CDMA no Brasil, Argentina, Chile, Bolívia, Colômbia e Venezuela, sendo que em 1999 ele passou um ano na divisão de infraestrutura CDMA da Ericsson.

Depois disso, ele foi ser CTO na Vésper, implementando estratégias inovadoras de uso de tecnologia para racionalização de custos e criação de novos serviços além de ser o responsável pelo primeiro lançamento de 3G EVDO na América Latina.

Já em 2004 ele se transferiu para os EUA, onde liderou a área de CDMA da Qualcomm no mundo, tornando se depois responsável por toda a linha de produtos da Qualcomm para 3G e processadores móveis, assim como a transição para o 4G LTE.

E no período de 2012 a 2017, como co-presidente e depois presidente de toda a área de produto da Qualcomm, ele foi responsável por conquistar o maior e mais complexo mercado de telefonia celular: a China, além de expandir os negócios da empresa nos setores automotivo, IoT, redes, RFFE, biométricos, computadores e inteligência artificial.

Já em janeiro de 2018 ele se tornou presidente mundial da Qualcomm, sendo o primeiro não norte-americano a ocupar o cargo e num grande esforço pessoal promoveu um movimento mundial para criar os primeiros chips 5G conversando com operadoras e fabricantes mundiais para antecipar em um ano a introdução dessa nova tecnologia, que já está presente comercialmente nos EUA, Coréia, China, Europa e Austrália.

Fora isso ele também é membro do Conselho Digital do Banco Itaú, focado na estratégia tecnológica do banco, participou do Conselho para a criação do Plano Nacional de IoT do Brasil e foi eleito Co-Chairman do grupo de IoT do World Economic Forum

Honoris Causa

O título de Doutor Honoris Causa da Universidade de Campinas é uma honraria concedida apenas a personalidades que tenham trazido contribuições excepcionais para a sociedade, sendo que ela não é concedida todos os anos se sim apenas por meio de uma indicação de algum membro da universidade. Isso dá a partida para um minucioso processo de análise e aprovações, o que pode algo em torno de 6 a 12 meses para ser concluído.

No caso de Amon a concessão desse título foi aprovada pelo Conselho Universitário da Unicamp em setembro de 2019, após trâmite e aprovação por unanimidade em todas as instâncias da Universidade.

Com isso Amon se junta a um seleto grupo de 30 figuras realmente notáveis como Cesar Lattes, Oscar Niemeyer, Pietro Maria Bardi, Don Paulo Evaristo Arns, Mário Quintana e André Franco Montoro.

Interessante destacar que o executivo é a personalidade mais nova a receber esse título e um dos poucos engenheiros, o que também não deixa de ser uma homenagem para uma profissão dedicada a criar soluções e resolver problemas.

Fora isso existe uma tendência de homenagear personalidades que se destacam na área de humanas, sendo que Amon é um dos primeiros a vir da área de tecnologia voltada para sistemas industriais.

O bom filho à casa torna

Mesmo antes dessa premiação, Amon sempre mostrou a sua admiração e afeto pela universidade onde se formou sendo que, no ano passado, ele já tinha ministrado a aula inaugural do ano letivo de 2018 na Unicamp para alunos, docentes e até jornalistas (que ficaram na última fila, mas não fizeram bagunça).

E antes da premiação propriamente dita, tivemos a oportunidade de participar de uma pequena mesa redonda com Cristiano Amon, Rafael Steinhauser, o reitor da Unicamp Marcelo Knobel (ao centro) e outros membros do corpo acadêmico da FEEC:

Quando perguntamos para Amon qual a sua reação ao ser informado do prêmio ele respondeu que foi uma surpresa agradável já que na sua carreira ele nunca esperou receber tal homenagem.

Ele se diz estar extremamente honrado e até pequeno em razão da lista de pessoas com currículos incríveis e já receberam esse título da Unicamp e que isso também sirva de inspiração para outros jovens nas áreas de engenharia e de tecnologia, que são cursos que sempre foram muito fortes na Unicamp, especialmente no que se refere às oportunidades que a faculdade oferece para sua carreira.

Durante o tempo em que ele passou na Unicamp (1988~1992), Amon explicou que, apesar dele fazer o curso de engenharia elétrica, no fim ele se formou tanto em eletrônica quanto em eletrotécnica, por sinal a mesma profissão de seu pai.

De fato, seu pai queria que ele se formasse na a área de eletrotécnica enquanto que Amon queria mesmo era ir para a área de microeletrônica e telecomunicações de modo que a solução encontrada foi puxar mais matérias e se formar nessas duas especialidades, o que fez com ele estudasse de manhã, de tarde e de noite.

Sou engenheiro brasileiro da Unicamp

Outro detalhe bem interessante da sua formação é que Amon fez tanto a sua graduação e pós graduação na Unicamp, o que ele comenta não ser algo comum já que o que mais se vê são executivos que se formam no Brasil mas foram complementar seus estudos em faculdades lá de fora em locais como Stanford ou MIT.

Mesmo assim até hoje na sua carreira até chegar na presidência da Qualcomm, ele diz que nunca sentiu menor muito menos sentiu nenhuma deficiência na educação que ele recebeu em Campinas. Algo por sinal que ele sempre diz com muito orgulho toda vez que é perguntado sobre sua formação e sua resposta é sempre a mesma: “Sou engenheiro brasileiro da Unicamp!

Para ser um pouco mais abrangente, ele disse que ao longo da sua carreira nos EUA ele notou que lá existe uma interação muito grande entre a empresa e o ambiente acadêmico.

Por exemplo, na cidade de San Diego (onde fica a sede da Qualcomm) existe um curso muito bom de engenharia na Universidade da Califórnia San Diego (UCSD) e muitas das matérias ensinadas nesses cursos procuram atendem as necessidades específicas da Qualcomm o que aumenta o potencial de empregabilidade dos formandos criando assim uma espécie de círculo virtuoso onde tanto a empresa quando a universidade ganham.

Amon afirma que ele acha muito importante esse relacionamento entre a empresa e a universidade, sendo que ele gostaria de fazer mais sobre isso com instituições de ensino como a própria Unicamp.

Marcelo Knobel, da Unicamp, declarou que o nível de interação entre empresas e universidades varia de acordo com a instituição, nas ele afirma que na Unicamp cerca de 30% do seu orçamento é oriundo de parcerias de cooperação com empresas estatais ou privadas, agencias de fomento, etc. e que esse patamar de 30% é a mesma que qualquer boa universidade americana, ou seja, estamos bem.

Quando perguntamos a Knobel se ele poderia descrever alguma característica única dos engenheiros locais ou mesmo da Unicamp, o reitor cita o exemplo da própria Unicamp que, neste ano tem ~80 mil candidatos para 3.300 vagas o que em termos de seletividade está no mesmo nível que qualquer boa universidade do mundo.

Isso já garante um bom nível de excelência para nossos alunos iniciantes e eles vão para as empresas e até para pós-graduação e se dão bem em qualquer lugar ou seja, sua universidade está cumprindo o seu papel de formar profissionais de ótima qualidade para o mercado de trabalho e está aí o Cristiano como um exemplo vivo do que estamos falando — um profissional que só estudou na Unicamp e que entrou numa empresa onde teve um sucesso muito bom pelo seus próprios méritos, ou seja, ele personifica tudo aquilo que procuramos ensinar para nossos alunos.

O peso da responsabilidade

Amon também falou sobre o peso da responsabilidade desse título por causa de dois motivos: O primeiro é que você passa a se tornar um exemplo para outras pessoas que passam a acreditar que se ele conseguiu eles podem ter até “uma carreira até melhor que a minha”, disse o executivo.

Fora isso sua nova essa responsabilidade se junta ao dos outros que homenageados que fizeram coisas extraordinárias em suas vidas, o que para o presidente da Qualcomm isso é um grande desafio, já que ele se sente relativamente jovem (e ele realmente é, apenas 49 anos) de modo que ele ainda vai continuar com sua carreira de modo que ele agora só pode ir daqui para melhor.

Encurtando distâncias

Voltando ao assunto da interação entre a empresa e a universidade, Amon diz que o mundo está mudando sendo que muitas das coisas que ele ajudou a fazer na sua companhia foi de “encurtar distâncias” ou seja, com a tecnologia disponível hoje, não precisamos mais pensar em locais como Campinas ou Brasil e sim pensar no mundo como um todo.

Isso cria uma oportunidade que nos permite pensar grande e agir nessa idéia de modo que nada impede que uma universidade como a Unicamp possa ter realmente uma divisão de trabalho entre o setor acadêmico e a cadeia produtiva até na parte de inovação, criação de novas propriedades intelectuais e tecnologias, novos materiais e assim por diante,

Como Knobel já disse, a Unicamp tem a capacidade de produzir excelentes profissionais e é isso que o Brasil precisa neste exato momento que desejamos reconstruir nossa economia de modo que o Pais precisa pensar grande e não precisa de fronteiras artificiais, porque temos capacitação técnica, gente muito boa e muita coisa pode ser feita conclui o executivo.

Cerimônia de premiação

Para formalizar a premiação, a Unicamp organizou uma cerimônia solene na qual participaram os membros Conselho Universitário, professores e diretores de departamento de diversas áreas da universidade, além de membros da indústria e parceiros da Qualcomm…

… sendo que cumpridas as formalidades do cerimonial e a entrega do prêmio…

… algumas pessoas discursaram para a platéia, entre eles o próprio Cristiano Amon..

… e o Reitor da Unicamp, Marcelo Knobel:

Só que no meio do discurso, ele aproveitou a cerimônia para defender os valores da sua instituição de ensino:

Essa cerimônia também foi transmitida na íntegra na internet:

Sobre o autor

Mário Nagano

Desde o século passado Mario Nagano analisa produtos e já escreveu sobre hardware e tecnologia para veículos como PC Magazine, IDGNow!, Veja e PC World.
Em 2007 ele fundou o Zumo junto com o Henrique assumindo o cargo de Segundo em Comando, Editor de Testes e Consigliere.

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