Memórias de um passado recente: Por que a Lenovo devolveu a CCE para os antigos donos?

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Segundo a Lenovo, isso foi resultado de uma mudança estratégica, mas que deixou um legado positivo até os dias de hoje para sua operação no Brasil.

Em 2015 neste mesmo mês de outubro, nós aqui no ZTOP+ZUMO passamos a perna na concorrência local (e internacional) ao publicarmos em primeira mão a notícia de que a Lenovo estava devolvendo a fábrica (e a marca) CCE para seus antigos donos — a família Sverner: 

Na época, a Lenovo divulgou um comunicado genérico informando que, naquele momento, ela estaria concentrando os seus esforços em produtos de maior valor agregado como seus PCs da linha Think e servidores corporativos System X, assim como na sua linha de smartphones Motorola.

Passados quatro anos de gente (ou quase 30 de internet) esse assunto meio que caiu no esquecimento, mas voltou a tona durante minha visita à fábrica da Lenovo na cidade de Monterrey no México na semana passada…

… onde é claro, assistimos a uma breve palestra sobre a história dessa fábrica (considerada uma das três maiores da empresa)…

… e até da própria Lenovo que — curiosamente — também é uma empresa relativamente nova fundada em torno de 2005 e que, neste tempo, formou parcerias com empresas como a NEC e Fujitsu do Japão na área de PCs e incorporou outras marcas de tecnologia como a Motorola, IBM System X, Medion etc.

Mas o curioso é que dentre tantos “marcos” notamos uma ausência (pelo menos para nós, brasileiros) que seria a compra da CCE

… que foi anunciada com grande pompa aqui no Brasil com direito a visita e discurso do CEO global da empresa, Yang Yuanqing

… e de outros executivos e dignitários daqui e lá de fora:

Intrigado com esse lapso histórico, eu aproveitei a sessão de perguntas e respostas para relembrar do caso da CCE e perguntei se alguém sabia de algo sobre esse negócio e — para minha surpresa — alguém prontamente respondeu:

Sim eu sei, porque eu estava lá!”

(EITA!)

Testemunha ocular

Por uma incrível coincidência, quem se propôs a responder foi o próprio executivo que estava fazendo a apresentação, ou mais exatamente Heron Ramos, atual gerente da fábrica de Monterrey mas que também trabalhou planta da CCE/Lenovo em Manaus entre os anos de 2014~15 onde foi gerente de suporte de engenharia e também assumiu interinamente a gerência da fábrica até meados de 2015, ou seja, ele participou ativamente dessa história:

Ele contou que naquela época (entre 2008~2012) a empresa estava à procura de um fornecedor de placas-mãe no Brasil e optou pela compra da CCE devido ao fato dela já estar presente em outros segmentos do nosso mercado que, na época, a Lenovo também estava interessada em explorar como tablets, smartphones, TVs, acessórios etc. algo por exemplo que nenhuma das outras opções cogitadas em inúmeros rumores — como a Itautec e a Positivo — ofereciam na época.

Constatação do óbvio

O curioso é que Heron fez um comentário que, para muitos brasileiros é meio que a constatação do óbvio, ou seja, que os produtos com a marca CCE não eram competitivos porque o padrão de qualidade deles não era lá grande coisa (duh!) e o pior, os projetos da CCE não tinham nada a ver com os da própria Lenovo (ufa!) o que deve ter causado uma grande confusão na fábrica, já que a CCE também não utilizava nenhum tipo de sistema de controle da produção (como SAP) que a Lenovo adota em todas as suas fábricas.

Daí a Lenovo decidiu identificar quais seriam as atividades realizadas pela CCE que seriam realmente do interesse da empresa e a resposta foi fabricar placas-mãe.

Legado Positivo

A partir disso a empresa decidiu investir pesado na criação de um processo sólido de fabricação de placas-mãe de alta qualidade que seriam usadas para atender a demanda da sua fábrica de PCs em Indaiatuba, sendo que neste trabalho houve um grande envolvimento do pessoal de Monterrey assim como o da Intel Brasil de melhorar essa linha de produção da CCE de modo que, no fim das contas, todo mundo aprendeu muito com essa experiência.

Alcançado esse objetivo a Lenovo decidiu devolver a fábrica para seus antigos donos sendo que até hoje ela ainda produz e vende placas-mãe para a Lenovo que considera a mesma a sua melhor fornecedora deste componente no Brasil.

Legal, né?

Nagano comenta: Para compreender melhor essa história, vale a pena lembrar que o chamado grupo CCE era formado por várias empresas que produziam diferentes produtos, como a Cemaz Indústria Eletrônica da Amazônia (aparelhos de som), Digibrás Indústria do Brasil (produtos de informática) e a Digiboard Eletrônica da Amazônia (componentes eletrônicos e placas) sendo que o que dá para entender da resposta do Heron é que a Lenovo estava interessada na Digiboard, mas decidiu também ficar com a Digibrás para ampliar a sua participação no nosso mercado.

Mas depois de perceber que a Digibrás não era exatamente aquilo que eles queriam, a Lenovo então optou por investir na melhoria da Digiboard, tornando-a assim na principal fornecedora de placas-mãe para a fábrica de Indaiatuba.

Ainda em tempo

Também ouvimos falar de rumores de que as linhas de produção da CCE em Manaus também estão sendo usadas para realizar trabalhos temporários, como por exemplo, montar produtos para outras empresas — entre elas a Samsung — que teria contratado a mesma para produzir lotes de alguns de seus smartphones.

Agora qual tipo e modelo? — Ai o seu palpite é tão bom quanto o nosso! 😉

Ah sim, também fui informado que a planta de Monterrey ainda não vai produzir o Thinkbook (boo!)

Disclaimer: Mário Nagano viajou para Monterrey no México a convite da Intel Brasil mas todas as fotos bacanas, observações brilhantes e perguntas infames são dele mesmo.

Sobre o autor

Mário Nagano

Desde o século passado Mario Nagano analisa produtos e já escreveu sobre hardware e tecnologia para veículos como PC Magazine, IDGNow!, Veja e PC World.
Em 2007 ele fundou o Zumo junto com o Henrique assumindo o cargo de Segundo em Comando, Editor de Testes e Consigliere.

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