Opinião: Fusion em portáteis — como fica a Intel nessa história?

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Agora que nosso primeiro review do AMD Fusion está no ar (assim como seu desempenho com games) e pudemos ter nossas primeiras impressões dessa nova plataforma, surge a dúvida: como pode ser a reação do pessoal de Santa Clara?

Esse assunto me faz lembrar do primeiro IDF que participei em 1999, ainda em Palm Springs, na Califórnia, onde tive contato com Pat Gelsinger (hoje VP da EMC) em uma coletiva de imprensa. Na época, o primeiro processador AMD Athlon (sim, aquele de cartucho) tinha acabado de chegar ao mercado e os jornalistas insistiam em perguntar pra ele como a Intel iria reagir a esse lançamento. Ele simplesmente respondeu

We’ll Execute!

(Hein?)

Quando ele viu que muita gente não pescou a mensagem (incluindo aqueles que têm o inglês como idioma nativo), sua explicação é que seu grupo iria botar a mão na massa e a resposta da Intel viria na forma de novos produtos, já que ele tinha do seu lado uma melhor marca, uma melhor tecnologia e a capacidade de produzir em volume, reduzindo assim o custos.

(Tenho isso anotado num caderninho que não me deixa de esquecer até hoje).

Mal ele sabia que, em 1999, a Intel embarcaria em uma de suas maiores barcas furadas — adotar o Rambus com padrão nas suas plataformas de PC —, uma decisão que eles pagariam caro (literalmente falando), já que além dessa tecnologia não ter um desempenho tão bom quanto o esperado, a Intel ainda estava presa a um contrato que a impediu de migrar (por vários anos) para o DDR.

E como desgraça pouca é bobagem, mesmo depois do pessoal de Santa Clara conseguir se livrar do Rambus, eles ainda passaram anos insistindo em outra microarquitetura que também não evoluiu tão bem quanto o esperado: o bom e velho Pentium “por favor me esqueçam” 4.

Para mim, essa foi a grande janela de oportunidade que a AMD teve para saltar à frente do concorrente com a dobradinha Athlon + DDR e construir o mito de que o pessoal de Sunnyvale era o rei da cocada preta quando o assunto era desempenho. E esse cenário só se inverteu com a chegada do Core 2 Duo “Conroe”, cujos resultados eram tão bons que nem eu acreditei quando vi as primeiras demos no IDF em 2007. De fato foi a partir deste lançamento que se construiu o mito de que o pessoal de Santa Clara voltou a ser a rainha da cocada preta quando o assunto era desempenho.

E as coisas não pararam por ai: com a chegada da microarquitetura Core, a Intel também estabeleceu sua estratégia “Tick Tock”, que impôs para si mesma um ritmo alucinante de desenvolvimento e pesquisa. Essa estratégia dita que todo ano ímpar a Intel vai introduzir uma nova microarquitetura (ano Tick) seguida por uma modernização/ecnolhimento do processo de fabricação dos anos pares (Tock).

Isso permite a ela praticamente lance um chip novo a cada ano e se levarmos em consideração de que a AMD levou de quatro a cinco anos para desenvolver o Fusion (cujos primeiros anúncios datam de 2006), nesse mesmo tempo a Intel lançou o Core Duo “Yonah”,  Core 2 Duo/Quad (Conroe/Penryn), Core ix de primeira geração (Clarkdale, Lynnfield, Bloomfield) e Core iX de Segunda Geração (Sandy Bridge) e esse ano já começaremos a ouvir falar de num tal de Ivy Bridge, que seria o Sandy Bridge de 22 nm.

Resultado: hoje a Intel é dona de 80% do mercado de processadores e seu principal concorrente de Sunnyvale tem uns 10%.

Dito isso, vamos tentar entender o momento atual da AMD:

Depois de passar anos prometendo um produto que iria estourar a boca do balão, no final de 2010 a AMD finalmente conseguiu lançar o Fusion, um produto lindo e maravilhoso, mas a demora no seu desenvolvimento pode ter custado o emprego do CEO da empresa Dirk Meyer. De um certo modo, assim como foi com o Athlon+DDR no passado, o pessoal de Sunnyvale está aproveitando uma grande bobeada da Intel no seu segmento de netbooks, que foi de nunca incorporar ao produto uma aceleradora gráfica que atenda aos desejos dos consumidores finais, cada dia mais apaixonados por aplicações visuais e vídeos em alta definição.

Sob esse ponto de vista, essa primeira leva de produtos baseados em Fusion Zacate + plataforma Brazos mostra que a AMD acertou na mosca no sentido de oferecer algo que muitos sempre desejavam: um computador simples, compacto e acessível que ofereça um bom suporte gráfico.

Fora isso, tudo leva a crer que a plataforma Brazos, com seu alto nível de integração e menor número de componentes (= menor custo para o fabricante) permitirá o desenvolvimentos de portáteis ao mesmo tempo melhores e, mesmo assim, ainda mais em conta. Um bom exemplo é o próprio Sony Vaio Y, cujo preço de lançamento é muito interessante (para um  Sony). E se a fabricante japonesa — cuja linha de produtos nem sempre pode ser chamada de “barata” — consegue fazer isso, imagine o que outros players mais agressivos nesse mercado como Asus, Acer, HP, STI e um monte de integradores menores poderão aprontar com essa plataforma?

Se a Sony conseguiu começar com R$ 1,8 mil eu não duvido que até o fim desse ano não veremos ofertas de portáteis com Fusion de entrada na faixa dos R$ 1.000 (ou até menos dependendo da configuração). Isso significa que estamos testemunhando o início da queda do império americano de Santa Clara? Difícil dizer…

Do lado da AMD o que podemos dizer é que o E-350 causou uma excelente impressão inicial (o que já é meio caminho para ganhar mercado), mas ainda precisamos ver o que outras linhas de produtos serão capazes de fazer como o E-240 (Zacate single core de 1,5 GHz) e a linha Ontario C-50/C-30 de baixo consumo (9 watts) de 1,0 e 1,2 GHz — todos na teoria com menos desempenho  que o E-350, e o mais importante: Como vai ser o desempenho do processador llano, que todo mundo diz que vai ser o “mata-Sandy Bridge”?

Minha expectativa com llano é que se ele ao menos oferecer o mesmo desempenho dos núcleos x86 do Sandy Bridge de mesma classe, tem realmente chances de passar a perna dos Core ix de segunda geração, oferecendo a mesma fórmula de melhor custo x desempenho do Zacate. E mesmo que sua aceleradora gráfica não seja muito mais veloz que a do E-350, só o fato dela oferecer suporte para DX11 e vir com a chancela do nome Radeon pode causar outra excelente impressão inicial, o que pode gerar ainda mais um barulho no mercado. Isso pode ser vital para a AMD sobreviver aos tempos difíceis.

Para mim, uma indicação de que a AMD está se preparando para uma boa briga neste ano — pelo menos aqui no Brasil (considerado a alta expectativa de sermos o terceiro mercado mundial de PCs) — é a contratação de Ronaldo Miranda para dirigir as operações locais e da América Latina. Conhecemos o executivo desde seus tempos de Intel e o nosso palpite é que ele não assumiu esse cargo só por causa de dinheiro.

E do lado da Intel? Eu me lembro de um papo que tive com um engenheiro da Intel envolvido no projeto de microprocessadores. Quando comecei a falar da beleza da micro-arquitetura do seu concorrente…  Ele olhou pra minha cara, suspirou fundo e disse:

Veja Mário, no meu negócio não existe “beleza de arquitetura” e sim algo chamado “time to market” ou seja, se temos uma demanda do mercado, temos que atendê-la da maneira mais rápida e eficiente possível mesmo que ela não pareça lá muito atraente pelos olhos do engenheiro.

Depois de catar os cacos da minha cara do chão, eu realmente percebi que essa estratégia realmente acontece dentro da Intel. Por exemplo quando a AMD estava para lançar o Athlon 64 x2 (seu primeiro chip dual-core) em 2006, o pessoal de Santa Clara precisava de algo para brigar com a nova (e bela) micro-arquitetura do concorrente e lançou um ano antes o Pentium D “Smithfield” que nada mais era do que dois núcleos Pentium 4 montados lado a lado no mesmo encapsulamento. Essa implementação era tão improvisada que os núcleos nem trocavam informações internamente, só por fora, via chipset northbridge.

Olhando para o passado o Pentium D parece até uma anedota, mas de fato ele segurou a barra do pessoal de Santa Clara até eles poderem colocar seu primeiro dual-core monolítico no mercado — o Core 2 Duo em 2006, repetindo a façanha neste mesmo ano com o Core 2 Quad que também era (surpresa! supresa!) dois núcleos de Core 2 Duo no mesmo encapsulamento. E quando a AMD estava preparando seu (belo) Fusion, a Intel pulou novamente na frente ao lançar os Core ix “Clarkdale” com a GPU (de 45 nm) montada ao lado da CPU de (32 nm) no mesmo encapsulamento, sendo que a verdadeira união da CPU+GPU ocorreu somente em 2010 com o Sandy Bridge.

Com relação à atual ameaça do Fusion de papar o mercado de netbooks, chegamos a perguntar para o novo presidente da Intel Brasil se poderíamos esperar uma aceleradora melhor para a linha Atom e ele disse na época que reconhece que neste momento o Atom não dispõe de uma solução gráfica capaz de oferecer uma experiência de uso pelo menos próxima do Sandy Bridge, mas como toda a linha de produtos da Intel, ele está sempre num processo contínuo de desenvolvimento. Assim ele acredita que no futuro o Atom possa dispor de uma aceleradora melhor.

Mas enquanto isso não acontece, uma boa indicação de que a Intel não está dormindo no ponto pode ser o recente anúncio do processador móvel Celeron B810, o primeiro dessa marca a ser baseado no Sandy Bridge.

Trata-se de um chip dual core de 1,6 GHz com 2 MB de cache L2 com a mesma aceleradora gráfica dos novos Core ix de segunda geração, porém com menos recursos como suporte para streaming de vídeo HD do PC para TV. Com um TDP de 35 watts, o B810 pode não parecer o concorrente ideal para bater de frente com o E-350, mas como o Pentium-D no passado, ele pode ser o que a Intel precisa para ir segurando a barra até eles terem coisa melhor para oferecer ao mercado. Como disse Gelsinger a mais de 10 anos atrás, “a Intel acredita ter do seu lado uma melhor marca, uma melhor tecnologia e a capacidade de produzir em volume, reduzindo assim o custos”.

A única coisa que posso dizer disso tudo é que esse ano vai ser muito interessante para quem estiver pensando em comprar um PC novo.

Quem viver, verá.

 

Sobre o autor

Mário Nagano

Desde o século passado Mario Nagano analisa produtos e já escreveu sobre hardware e tecnologia para veículos como PC Magazine, IDGNow!, Veja e PC World.
Em 2007 ele fundou o Zumo junto com o Henrique assumindo o cargo de Segundo em Comando, Editor de Testes e Consigliere.

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