Números Enormes: Apple em queda (?)

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Ontem à noite a Apple soltou um comunicado (com direito a suspender a negociação das suas ações nas bolsas americanas antes da divulgação) dizendo aos seus acionistas que, bem, seus resultados financeiros de primeiro trimestre não serão como estavam esperando.

A receita do trimestre projetada originalmente era algo entre US$ 89 bilhões e US$ 93 bilhões. A carta de ontem revê esses números para algo em torno de US$ 84 bilhões. O ano fiscal da Apple se iniciou em outubro, e os resultados do primeiro trimestre fiscal da companhia serão divulgados no fim de janeiro.

O que isso significa para o mercado de smartphones?

A Apple é a terceira maior fabricante de smartphones do mundo (IDC), atrás da Samsung e da Huawei. Dizer que sua receita total de um trimestre vai despencar tem um efeito direto em seus fornecedores (a maioria na China) e é um sinal muito interessante de que os smartphones premium estão chegando (pelo menos em um nível global) a um patamar de estagnação.

Os motivos que a Apple citou para mudar sua previsão de faturamento são:

  • Data de lançamento dos iPhones – o iPhone X, de 2017, chegou às lojas no primeiro trimestre de 2018. Os novos iPhone XS e XS Max, ainda no quarto trimestre de 2018 (que acabou em setembro). Fato é que, em qualquer lugar do mundo, os novos iPhones são muito caros – mas acredito que esse não é o principal problema.
  • Alta do dólar – o que deixa produtos Apple ainda mais caros fora dos Estados Unidos.
  • Muitos produtos novos lançados no trimestre – e restrições em suprimentos (olha a China aí gente!) seguraram essas vendas projetadas.
  • Mercados emergentes com fraquezas econômicas “que tiveram um maior impacto que projetamos” (não conte o Brasil nessa, mas sim a China… de novo!).
  • “Além disso, esses e outros fatores resultaram em menos upgrades de iPhone que antecipamos. Esses dois últimos itens nos levaram a reduzir a previsão de receita”

No caso da China, a Apple cita a desaceleração econômica e a crescente tensão comercial entre Estados Unidos e a China. Mas essa frase me chama a atenção:

Dados de mercado mostram que a contração no mercado de smartphones da China está sendo muito nítida.

Xiaomi, Vivo, Huawei, Oppo e as demais marcas locais vêm comendo a Apple (e a Samsung, por sinal) com farinha. E a disputa comercial entre EUA e China – com uma das maiores marcas globais fabricando seus produtos na Ásia – obviamente ajuda a Apple a pressionar o governo americano.

Se um iPhone XS custa a partir de US$ 999 nos EUA importado da China, imagina quanto custaria se fosse fabricado localmente (pensando que a Apple não tem fábricas/fornecedores locais nos Estados Unidos).

Ainda do comunicado da Apple:

Embora a China e outros mercados emergentes sejam responsáveis pela grande queda de receita ano-a-ano do iPhone, em alguns mercados desenvolvidos, os upgrades de iPhone não foram tão fortes como imaginamos que seriam.

Embora desafios macroeconômicos em alguns mercados tenham sido um fator chave nessa tendência, acreditamos que existem outros fatores impactando o desempenho do iPhone, incluindo os consumidores se adaptando a um mundo com menos subsídios de operadoras, aumentos de preços relacionados à alta do dólar e alguns consumidores se aproveitando de preços reduzidos para troca de bateria de iPhones.

Lendo as folhas de chá:

  • menos subsídios de operadoras: OK, é tendência mundial. Lembre que os primeiros iPhones eram vendidos nos EUA por US$ 199 com contratos de dois anos com a AT&T.
  • troca de bateria de iPhones: até o final de 2018, a Apple deu descontos para a troca de bateria de iPhones antigos. Aqui a Apple caiu numa questão Tostines: vende menos porque o produto dura mais ou o produto dura mais e acaba vendendo menos?

Fato é que os iPhones são – desde o iPhone 4, pelo menos – ano a ano um dos melhores smartphones do mundo. Não é uma indicação difícil: não sabe o que comprar? tem dinheiro? iPhone!

Só que o iOS 12 (que deixa aparelhos antigos mais otimizados) somado ao programa de troca de baterias significa iPhones antigos mais duráveis – vide o mercado brasileiro de usados, onde um iPhone 5s de 2013 custa em média R$ 900 (no Mercado Livre). É quase o preço de um Motorola G6 Play em um smartphone com mais de 5 anos no mercado – essa valorização não ocorre com os Androids, por sinal.

Mas respondendo à pergunta inicial do título deste post: faz anos que analistas de mercado falam que a Apple está condenada ao fracasso. Não está.

Mesmo com a previsão de queda de receita em um trimestre específico, a Apple disse que sua base instalada cresceu em 100 milhões de unidades no último ano.

Só que com a maior parte da receita vindo de uma cesta só – o iPhone -, a Apple precisa inovar de novo. E o mercado de smartphones também. 2019 promete ser um ano interessante com telas dobráveis e (quem sabe) o começo do fim das telas com interrupções/notch. A CES está aí semana que vem, e o MWC é no final de fevereiro. Façam suas apostas.

Em tempo: vale ver a entrevista de Tim Cook, CEO da Apple, para a CNBC.

Em tempo 2: não é a primeira vez que a Apple (ou uma grande empresa) revisa suas previsões de faturamento (Steve Jobs fez isso em 2002)

Em tempo 3: na tarde desta quinta-feira, a Apple perdeu US$ 446 bilhões em valor de mercado (CNBC).

Sobre o autor

Henrique Martin

Henrique Martin já escreveu na PC World, PC Mag, Folha de S. Paulo e criou o Zumo em 2007. Em 2011, o Zumo se transformou no ZTOP, referência em conteúdo original sobre tecnologia em um mundo pós-PC. Siga-o no Twitter: @henriquemartin

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