Netflix é o paraíso para os fãs da Sessão da Tarde

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Para mim, a Netflix é uma grande “Sessão da Tarde”. Pelo menos é o que dizem os filmes indicados para o meu perfil. Comecei a usar o serviço agora e, bem, já vi que vou passar bastante tempo por ali. Me senti de volta a 1987, com vários filmes da CIC Video na parede da locadora me esperando (ou melhor, estavam alugados) para passar o fim de semana na frente da TV e do videocassete.

Explico: ao fazer o cadastro no serviço, você precisa responder algumas perguntas. Primeiro, sobre sua plataforma tecnológica:

Depois, sobre seu estilo de filme favorito:

Em resumo, minhas sugestões de filmes incluem pérolas das férias de verão como “Antes Só do que Mal Acompanhado” (John Candy!), “Feitiço do Tempo”, “Loucos de dar Nó” (que fim levou Richard Pryor?), “O Idiota” (o algoritmo entende que Steve Martin é bom!), “Top Secret” e “Trocando as Bolas”. Só nessa seleção, já valem os R$ 14,99 mensais. A única diferença é que agora vou ver na tela do computador ou na TV via HDMI.

Como um bom serviço recém-localizado, a Netflix ainda “troca as bolas” nos idiomas. Como posso deixar de perder “Un Experto en Diversiones” ou “Anatomia de Grey”. Com esse nome, parece mais novela mexicana do que dramalhão hospitalar.

Mas, no geral, a seleção automática da Netflix entendeu razoavelmente bem meu gosto cinematográfico (ação + horror + comédia pastelão com pouco filme de menina ou de criança). 

Escondido em uma opção do menu estão os vídeos em alta definição:

E, nas opções de conta, você define qual a qualidade de imagem/quantidade de banda que quer alocar para assistir um filme ou programa de TV:

Ah sim, por que telas em inglês? A confusão linguística vai além dos títulos dos filmes… Troquei para inglês para ver se o áudio original apareceria em inglês apenas.

Por padrão, com a interface em português, o streaming de qualquer vídeo parte do pressuposto de que você quer ver um filme dublado em “brasileiro”. Não, Netflix, obrigado, mas gosto dos meus filmes com áudio original (alô @canalsony!). Comecei a ver meia dúzia de filmes e, bem, ou era dublado ou tinha áudio em inglês com legendas em espanhol. Ops! Acredito que é só o bug do lançamento mesmo. Um filme japonês (!), com áudio original, estava com legendas bastante atrasadas também.

A qualidade do vídeo, pelo menos no meu Net Vírtua de 20 Mbps acessado por Wi-Fi, é igual ao catálogo saudosista: jeitão de VHS, só não precisa rebobinar no final. Não vi ainda um filme/série inteiro (não deu tempo!) para checar se a imagem realmente se adapta à velocidade da sua banda (a minha, coitada…)

Preciso ainda ligar o notebook direto ao roteador pra ver se melhora a qualidade (e cruzar os dedos para nossas queridas operadoras não começarem a barrar o acesso à Netflix).

Fato é que a Netflix não veio para brigar com a TV a cabo ou mesmo com seus concorrentes locais (NetMovies, Saraiva Digital, Terra TV Video Store). A oferta de conteúdo não é de lançamentos, mas sim de filmes mais antigos e programas de TV que nem sempre você teve tempo de ver. A Netflix não tem pay-per-view (como o NOW, da Net) nem entrega DVDs (como a NetMovies) ou cobra a granel (como a NetMovies, Saraiva Digital e Terra TV Video Store, sem contar a iTunes Store, da Apple) – que acabam tendo mais material novo de Hollywood.

Sabe quem vai gostar MESMO da Netflix? Quem tem filhos pequenos e não aguenta mais comprar DVD de programa infantil porque os pirralhos quebraram/riscaram/sujaram pela enésima vez. E saudosistas por um monte de filmes antigos – como eu –  que não têm paciência para baixar no Torrent (nem sempre fácil de encontrar) e estão dispostos a pagar algo para alguém que ofereça um serviço decente. Tem bugs? Tem. Tem imagem ruim? Ainda tem.

Mas isso se resolve (espero) com o tempo. Serviços como a Netflix, integrados ao televisor de casa conectado, serão a TV do amanhã, e não um monte de apps isolados, como alguns fabricantes querem forçar.

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Bônus track: falei com Ted Sarandos, Chief Content Officer da Netflix. Ele é o cara que fecha os acordos de distribuição na rede. Sarandos conversou com o ZTOP após a coletiva de imprensa hoje à tarde. Os principais pontos resumidos:

“Os 30 dias de teste não se baseiam no conteúdo, mas nas funcionalidades. Você acha coisas que gosta, começa e pára quando quer em múltiplos aparelhos. O teste é importante para dar escolha e controle” (sobre por que começar a usar Netflix)

“Existe um monte de coisas legais para ver. Programas de TV que você nunca teve tempo antes. Nos Estados Unidos, TV é uma pequena parte do serviço de aluguel de DVDs (18%), mas metade do streaming” (sobre a oferta de conteúdo)

“Status do conteúdo no Brasil é comparável ao do Canadá. Para a gente é muito importante entender o comportamento do mercado. Telenovelas são algo novo (o conteúdo da Netflix inclui novelas mexicanas diversas), e podemos descobrir que existe um mercado para novelas que foram ao ar no passado (cito o canal Viva e ele diz saber o que é). É um arquivo sem fim” (sobre o comportamento do consumidor fora dos EUA)

“Percebemos um grande entusiasmo por filmes no Brasil. E diversos programas de TV são mal distribuídos por aqui. E o que faz de uma série um mini-filme? “Mad Men” é um programa de uma hora ou um filme de 30 horas?” (sobre filmes e séries no Brasil)

“O acordo com a Starz nos EUA não tem nada a ver com o Brasil. Cada acordo é local, e a Starz é uma distribuidora. Ainda estamos fechando muitos acordos de conteúdo para a América Latina, tem muito mais por vir. Temos um ótimo relacionamento com a Globo, que fornece conteúdo para a Netflix no exterior” (sobre a confusão da Starz e o mercado brasileiro)

“A Netmovies aluga DVDs, não?” (sobre a concorrência local)

Sobre o autor

Henrique Martin

Henrique Martin já escreveu na PC World, PC Mag, Folha de S. Paulo e criou o Zumo em 2007. Em 2011, o Zumo se transformou no ZTOP, referência em conteúdo original sobre tecnologia em um mundo pós-PC. Siga-o no Twitter: @henriquemartin

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