Netflix: “Brasileiro adora comédia”

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Dia corrido na CES, pensei com meus botões: vou trabalhar na parte da manhã na sala de imprensa do hotel Venetian (que fica a 3,2 km do centro de convenções onde ocorre a feira propriamente dita), apareço no evento da Bang & Olufsen (marcado com semanas de antecedência) às 12h e vou encontrar o povo da Netflix na suíte do Wynn às 13h30.

Claro que me perdi pra achar a suíte da Bang nesse hotel-labirinto, o evento atrasou e eu saí às 13h15 para pegar a fila do elevador, parar em cada andar do 35 ao 29 (CES, babe!), banheiro rápido, atravessa o cassino do Venetian, toma choque na porta, sai à rua, passa frio, anda, anda, anda, foge do mendigo pidão na passarela, entra no Wynn (teoricamente, 850 metros de um hotel para o outro), se perde de novo, acha o elevador (desta vez, sem fila) e abre a porta da suíte 801 e dá de cara com Reed Hastings, CEO da Netflix. Com três minutos de atraso, claro.

Mas o papo não era com Hastings, era com Jonathan Friedland, vice-presidente global de comunicação e marketing do Netflix, que chegou hoje cedo de Dublin, onde foi lançar a Netflix no Reino Unido (e deixou seu telefone celular por lá – neste momento, alguma alma caridosa voa sobre o Atlântico trazendo o aparelho).

Veja os principais destaques da conversa com o executivo:

Status do Netflix hoje no Brasil
Desde o lançamento em setembro do ano passado, sabíamos, naquele momento, que iríamos estrear com um serviço que não era tão bom naquele momento (se referindo à falta de compatibilidade com outros aparelhos). Lançamos agora no Reino Unido com todos os aparelhos e serviços, incluindo o Facebook.

O que fizemos desde setembro? Dobramos o total de filmes e programas de TV no site, o que significa aumentar demais as horas de programação disponível (confirmando uma previsão feita para o Gizmodo Brasil em novembro). E terminamos de oferecer legendas para todo o conteúdo com som original. Agora, o cliente pode optar por ver legendado ou dublado. E temos os aparelhos iOS conectados à rede também, Androids, Xbox, PS3 e TVs da Samsung, Sony e LG.

Também habilitamos o compartilhamento via Facebook, mas isso foi problema do Facebook que atrasou – era pra ter sido em agosto.

Quem é a audiência do Netflix no Brasil?
Uma coisa que fizemos bem foi ouvir o consumidor. E aprendemos três coisas: corrigimos a questão da dublagem com legendas, colocamos uma tonelada de novo conteúdo disponível e melhoramos a conectividade social do site.

A adoção foi lenta no começo, com pico de contas de testes. Não posso dar números, já que nossos resultados do quarto trimestre serão divulgados em 25 de janeiro, incluindo dados de mercados internacionais. Mas com novos aparelhos compatíveis vindo em novembro e dezembro (incluindo Apple TV), a situação está melhorando.

Quem vê depende de quem você fala. Sempre que a Netflix começa em um novo mercado, os usuários são fãs de tecnologia, jovens, com mais dinheiro – e que pede conteúdo legendado. Quando atinge a massa, a classe C e além, eles pedem conteúdo dublado (comentei com ele que a TV a cabo brasileira está cada vez mais dublada…). Mas temos que entender que o Netflix é um negócio diferente de uma empresa estática. É um negócio da web, que pode ser modificado a cada dia.

O que vem aí para 2012?
Vamos continuar a crescer. Adicionar mais conteúdo, material global, filmes independentes. Já estamos com alguns especiais de comédia (incluindo Rafinha Bastos), clássicos do UFC, falamos com o consumidor para entender o que ele quer. Vale lembrar, de novo, que criar um serviço de streaming requer certas coisas: diferente do DVD (serviço original da Netflix nos EUA, com aluguel de discos e devolução pelo correio), que você compra a mídia e aluga sucessivamente, o streaming precisa de licenciamento.

O que o brasileiro gosta de ver na Netflix?
Brasileiro adora comédia. Vai muito bem. E gosta também de séries de TV americanas, como Heroes, Dexter, Weeds, Californication, e de filmes de família. Por sinal, o recurso Just for Kids, lançado em novembro, está indo muito bem, criando um ambiente seguro para as crianças – tem conteúdo da Disney, da Nickelodeon, sem comerciais, é barato.

Conteúdo da TV local é menos importante que pensamos. E nos baseamos no que as pessoas gostam para licenciar dos estúdios e produtoras. Quando começamos o streaming nos Estados Unidos, focamos nos filmes para depois ir para a TV. Isso foi meio sem sentido, já que o consumidor lá queria mais e mais TV. E séries são viciantes e pegam as pessoas no streaming. Um monte de gente fala que não tem duas horas disponíveis para ver um filme, mas perde três horas vendo seis episódios de uma série de meia hora na sequência.

E o legal é que o streaming permite criar padrões de visualização, algo que o DVD não deixa. Tem gente que adora dizer pros amigos que gosta de filmes estrangeiros, mas ama ver Top Gear. É que nem defender literatura clássica e ler revista de fofoca.

 


 

 

Sobre o autor

Henrique Martin

Henrique Martin já escreveu na PC World, PC Mag, Folha de S. Paulo e criou o Zumo em 2007. Em 2011, o Zumo se transformou no ZTOP, referência em conteúdo original sobre tecnologia em um mundo pós-PC. Siga-o no Twitter: @henriquemartin

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