Multicore em jogos serve para alguma coisa?

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Se 60% dos jogos do mercado são otimizados para rodar em apenas um núcleo de processamento, vale a pena investir num chip de seis, oito ou até mesmo dez núcleos (sem contar o HT?)

Durante a prévia do anúncio da nova linha de processadores Intel Core ix de décima geração para desktops (codinome Comet Lake S) realizada no início desta semana com a imprensa global, Brand Guttridge diretor sênior de marketing para produtos de desktop e workstations citou uma curiosa informação de que aproximadamente 60% dos jogos são otimizados para rodar em um único núcleo de processamento

… informação que depois foi prontamente deletada numa versão posterior enviada para os jornalistas…

… com a explicação de que aquilo se trata apenas de uma “informação usada como uma referência interna” acompanhado de um sincero pedido de desculpas.

Até ai tudo bem, mas fato é que o pessoal de Santa Clara não negou a veracidade dessa informação de modo que dai pode surgir a seguinte dúvida:

Se isso for verdade, para que investir num Core i9-10900K de dez núcleos só para jogar? — Dois ou quatro não seriam suficientes?

Mas como muitas coisas na vida, a resposta não é tão simples assim — especialmente neste caso — já que a resposta mais resumida e direta seria o bom e velho “bom, isso depende.”

Depende do quê, cara pálida?

Antes de mais nada sim, essa informação realmente circula no meio mas é preciso entender que isso se refere ao mercado de games como um todo, ou seja, nesses 60% estão títulos de pequenos e médios desenvolvedores que, muitas vezes, não tem tempo muito menos recursos para ficar otimizando seus códigos para rodar em sistemas multiprocessados, de modo que eles costumam trabalhar em seus frameworks com o menor denominador comum ou seja um ou (no máximo) dois núcleos de processamento o que — em tese — também permite portar esse código para outras plataformas sem mexer muito no mesmo.

Isso de um certo modo vai de encontro com a narrativa da Intel no lançamento do Comet Lake S onde eles destacam que os jogos e muitas aplicações ainda dependem de clocks elevados

… o que também explica a implementação de novas tecnologias como o Intel Turbo Boost Max 3.0 que identifica e acelerar os dois núcleos mais velozes de cada chip para ganhar mais desempenho em aplicações single e dual core:

Alem disso, a Intel também tem investido pesado no desenvolvimento de ferramentas que ajudam os desenvolvedores a paralelizar e otimizar seus programas, caso do Intel Graphics Performance Analyzer (Intel GPA), um software gratuito que é capaz de analisar tudo aquilo o que acontece num PC quanto este roda um jogo, o que ajuda o desenvolvedor a identificar e corrigir eventuais gargalos no processamento…

… permitindo assim que jogos mais pesados possam rodar de maneira mais satisfatória em sistemas mais simples e/ou de menor desempenho gráfico, o que também pode beneficiar os usuários das novas GPUs integradas (Gen 11 Graphics) da empresa.

Como já disse nosso colega e chapa deste ztop+zumo Jomar Silva, para cada ponto de performance que conseguimos ganhar fazendo uma modificação no hardware, existem dois pontos de performance que poderia ser ganho com otimização de software, de modo que para continuar evoluindo com a performance do sistema não basta só investir na melhoria do hardware e sim também no software.

E isso vale não só para jogos, mas para qualquer tipo de programa, conclui o executivo.

Então isso significa que múltiplos cores realmente não fazem diferença em jogos?

De novo: Bom… Isso depende!

Isso porque múltiplos cores vão fazer diferença sim — e muito — nos outros 40% dos jogos do mercado onde estão os títulos de big players como a Blizzard/Activision ou Electronic Arts que tem condições de investir milhões de doletas no desenvolvimento de seus produtos, de modo que eles têm todo o interesse em tirar o máximo do processador para maximizar a experiência dos seus usuários — caso do Call Of Duty Warzone — onde quanto mais potente o sistema, melhor a experiência de jogo:

Outro exemplo bem interessante é o jogo Total War Three Kingdons cujo código foi otimizado para tirar proveito dos recursos de paralelização dos chips Intel permitindo assim que “mais coisas pudessem acontecer ao mesmo tempo na partida”, como multiplicar (em até 6 vezes) o número de personagens na tela sem comprometer sua fluidez.

De fato a Intel até ajudou a desenvolver o chamado Dynasty Mode uma nova opção no estilo horda onde o usuário pode escolher três heróis para combater grandes ondas de inimigos:

Sob esse ponto de vista, fica claro que um chip multicore tem sim relevância no mercado de jogos, mas desde que ele seja acompanhado de um bom suporte de software.

Mas como vimos, nem sempre isso é possível de modo que a Intel está de um certo modo tentando balancear essa deficiência de maneira bem pragmática, tanto fornecendo ferramentas e suporte técnico para os desenvolvedores quanto disponibilizando um hardware mais veloz — o que é algo bem louvável diga-se passagem.

Fora isso não podemos esquecer que não é só de jogos vive o usuário de PCs, já outras aplicações na área de produtividade e nossa mente “multitarefa” sabem tirar proveito desses sistemas multicore.

Capisce?

Sobre o autor

Mário Nagano

Desde o século passado Mario Nagano analisa produtos e já escreveu sobre hardware e tecnologia para veículos como PC Magazine, IDGNow!, Veja e PC World.
Em 2007 ele fundou o Zumo junto com o Henrique assumindo o cargo de Segundo em Comando, Editor de Testes e Consigliere.

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