Retrotech: Motel dos Mistérios (ou Eram os Deuses Turistas Americanos?)

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Como um livro infantil escrito 40 anos atrás mostra como nossa mente fertilizante pode transformar moinhos de vento em gigantes.

Em 1968, o suíço Erich von Däniken ficou famoso mundialmente por ser o autor do livro Erinnerungen an die Zukunft — no Brasil Eram os Deuses Astronautas

… que lançou uma idéia meio doida porém revolucionária para a época — a de que o desenvolvimento da civilização humana foi influenciada por seres extraterrenos — hipótese também conhecida como a teoria dos astronautas antigos.

Para mim essa teoria (e o alvoroço que ela provocou entre entusiastas e céticos) lembra um pouco o atual movimento terraplanista que defende a idéia de que o bom senso nos diz que a terra é plana — né?

Disclaimer: Mas antes de alguém comece achar coisas, aqui no ZTOP+ZUMO não somos terraplanistas, apenas dois caras legais que tocam um blog de tecnologia cheio de conteúdo original super bacana.

Banana dos Deuses

Precisamos levar em consideração de que Däniken escreveu esse livro nos fim dos anos 1960 no ápice da corrida à Lua — época em que naves espaciais e astronautas deixaram de ser ficção científica para se tornar realidade científica estabelecendo assim uma nova estética, linguagem e significado — ou seja — o que no passado as pessoas descreviam como carruagens de fogo conduzidas por anjos no céu passaram a ter um significado totalmente novo e até plausível diante dos avanços da ciência e da tecnologia espacial.

E foi em cima disso que o escritor suíço encontrou sua fama e notoriedade, coletando inúmeras imagens e indícios ao redor de mundo e adicionou perguntas simples do tipo — “isso não parece ser uma nave espacial?“…

… ou “isso aqui não tem cara de astronauta?” e por ai vai.

Ah… Sei lá né?

E isso sem falar de mitos e fatos do passado (e até do presente) que ganharam uma nova dimensão na cabeça do escritor, como sua famosa conjectura de que a banana pode ter sido trazida para terra por alienígenas…

“… a banana é um problema. É encontrada mesmo na mais remota das ilhas do sul. Como essa planta, que é tão vital para a nutrição da humanidade, se originou? Como ela fez o caminho ao redor do mundo, visto que não possui sementes? Será que os ‘Manu’ (SIC), sobre quem a saga indiana conta, a trouxe consigo de outra estrela – como um alimento completo?”


Erich von Däniken — Ouro dos Deuses (1977)

… um assunto por sinal discutido até hoje por YouTubers…

… o que mostra que banana sempre é um ótimo clickbait né?

Eu cheguei a ler os primeiros livros de Däniken e confesso que, na época, eu achava que ele tinha um belo argumento do seu lado, por que nessa época ainda não existia Internet para escarafunchar a vida do cara.

Mas com o passar do tempo — a medida que os céticos começaram a questionar e desmontar sistematicamente muitas das suas teorias (inclusive a da banana) — ele meio que virou uma figura folclórica na mídia, ainda tentando tirar o máximo de lucro da sua grande teoria — seja na forma de novo livros, aparições na TV e até no endorso de um parque temático na Europa.

Para mim, o que restou de positivo da experiência de Däniken foi essa idéia de criar a nossa narrativa para algo que não tenha uma explicação clara abrindo assim caminho para interpretações diversas e até conflitantes.

Motel dos Mistérios

Para mim uma bom exemplo desse raciocínio veio da cabeça de David Macaulay escritor e artista anglo-americano mais conhecido pelos seus livros infantis que mostram como as coisas funcionam, sendo que em 1979 ele publicou um livro ilustrado chamado
Motel of the Mysteries, que até chegou a ser publicado no Brasil na forma de um artigo condensado na Seleções do Reader’s Digest:

Esta obra de ficção se passa em 4020 em um local onde existiu uma fantástica civilização perdida chamada Usa que, segundo a lenda, afundou sob uma imensa quantidade de um material particulado chamado “Junk Mail” produzido pelos seus habitantes – o chamado povo Yank – que inundou o continente lá pelo ano de 1985.

E com o passar do tempo, as camadas de pollutantus literati e pollutantus gravitas endureceram como pedra, o que fez com que Usa sumisse da face da terra por milhares de anos, até ser redescoberta graças à pistas encontradas numa antiga coleção de livros escrita por um viajante franco-italiano da época chamado Guido Michelin.


De fato o que se sabe sobre os hábitos e costumes dos Yanks aumentou muito graças as a uma extraordinária descoberta feita por Howard Carson em Monument Row onde ele descobriu acidentalmente a entrada de uma câmara mortuária …

… com seu lacre cerimonial (21) ainda intacto e com oferendas de comida e bebida (19, 20 e 21) na sua entrada:

Depois de registrar detalhadamente esses primeiros achados, Carter forçou a porta e usou um holofote para iluminar o interior da câmera e, ao ser questionado se ele conseguia ver algo ele respondeu — “Sim, coisas Maravilhosas!

Dentro da câmara, o corpo do falecido estava deitado sobre uma plataforma cerimonial (5) de modo a ficar de frente para o grande altar (1) e cercado de diversos objetos cerimoniais como um comunicador celestial (3) jóias sagradas (4), a imagem de WATT, deusa da iluminação (13) e um vaso canópico (14) com o nome do falecido (ICE).

Além disso diversos objetos mundanos também foram deixados no local, provavelmente para acompanhar o falecido na sua jornada para o outro mundo:

A existência de um segundo par de sapatos (7) levantou a possibilidade de haver um segundo corpo no local, o que levou a descoberta de um anexo menor que continha os restos de outra pessoa dentro de um sarcófago branco (9) selado por uma belíssima cortina semi-transparente (10).

E como na outra câmara, nesta também foram descobertos diversos objetos religiosos como um rolo de pergaminho (5) cujos fragmentos também foram encontrados no interior da urna sagrada (2) o que leva a crer que pedaços desse pergaminho eram usados para enviar mensagens ou oferendas simbólicas para o outro mundo.

Também foram encontrados produtos de limpeza (1 e 4) provavelmente usados para preparar o corpo para o sepultamento.

Essa aventura de Carson continua por mais 63 páginas, o que inclui a escavação do resto do complexo mortuário, a descrição dos artefatos descobertos que até inspiraram os souvenirs criados para serem vendidos na lojinha do museu.

O Delicado Tom da Narrativa

Para quem ainda não caiu a ficha, essa narrativa é na verdade, inspirada num acontecimento real que foi a descoberta da tumba de Tutankamon em 1922 pelo explorador Howard Carter

… e o aristocrata George Edward (o quinto Conde de Carnavon, cujo castelo onde morava ficou ainda mais conhecido graças a série de TV Downton Abbey).

Para mim o Motel of The Mysteries é um bom exemplo de como a imaginação humana é capaz de criar uma narrativa a partir de algo cujo significado original pode ter se perdido no passado, ou não, com resultados que podem não refletir exatamente a verdade.

Sob esse ponto de vista, apesar desse livro de Macauley ser — na sua essência — um livro infantil que tira uma da maior descoberta arqueológica dos últimos tempos, ele também pode ser um conto de advertência sobre os perigos de colocar o achismo acima dos fatos reais, um tema por sinal muito debatido neste nosso mundo cada vez mais conectado e hipernormalizado que nos isola dentro de uma câmara de eco, onde tudo que você realmente vê e ouve, é você mesmo:

Ainda em tempo:

Como já dissemos, fora uma versão condensada na revista Seleções, a versão integral de Motel of the Mysteries (ISBN 0395284252) nunca foi publicado em português, mas a versão em inglês pode ser facilmente encontrado novo na Amazon.com.br (inclusive no formato Kindle) e usado nos sebos da vida.

Henrique comenta: o motel dos mistérios me lembra muito um famoso conto utilizado nos cursos de ciências sociais/humanas por aí: “Os ritos corporais dos Nacirema“. Leia e tire suas conclusões 🙂

Sobre o autor

Mário Nagano

Desde o século passado Mario Nagano analisa produtos e já escreveu sobre hardware e tecnologia para veículos como PC Magazine, IDGNow!, Veja e PC World.
Em 2007 ele fundou o Zumo junto com o Henrique assumindo o cargo de Segundo em Comando, Editor de Testes e Consigliere.

Por Mário Nagano

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