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MediaTek quer ser o motor dos Androids baratos

Existe o mundo dos Galaxys S III, RAZRs, iPhones, Xperias. Aparelhos caros, com preços desbloqueados acima dos R$ 1.500. E existe o mundo sub-R$ 700,  com aparelhos com dois, três ou quatro chips, rodando Androids mais antigos e sem muita esperança para atualização.

Pode soar esquisito, mas a MediaTek, de Taiwan, quer melhorar a qualidade desse tipo de produto, aprimorando a tecnologia e mantendo preços mais baratos. Conversei semana passada com os representantes da companhia, que passaram uns dias no Brasil visitando clientes e separaram um tempinho para este ZTOP.

Primeira lição do mundo da telefonia móvel: nem sempre a marca que vende o celular fez todo o projeto do telefone.

Isso até pode ser comum para uma Nokia ou Samsung, mas se você é do “baixo clero”, são grandes as chances de um fabricante comprar tudo pronto de uma empresa que faz tudo, do processador, chipset, rádios e adapta o software (Java ou Android) e te vende um pacote fechado, em algo muito parecido com o de notebooks.

Em resumo, alguém vai pra Taiwan ou China, escolhe meia dúzia de modelos, manda importar as peças para o Brasil, monta por aqui e coloca sua marca e embalagem no produto final.

A MediaTek, seguindo a lógica das companhias taiwanesas, começou no ramo de discos ópticos e ampliou o escopo para celulares, TV digital, Blu-ray/DVD, banda larga e Wi-Fi. Entrou no mercado de celulares básicos em 2010 e vendeu projetos de aparelhos para ZTE, Huawei, Alcatel, LG e até mesmo Motorola. Os smartphones, explica Finbarr Moynihan, diretor de desenvolvimento de negócios, vieram em 2011. E seguem o estilo “fabless”: criam o projeto e mandam fabricar fora.

E é aí que entra a questão de “por que comprar um projeto pronto?”

Resposta simples: menos investimento do fabricante final em engenharia e testes. Moynihan diz (e mostra um gráfico) que, para criar um smartphone Android novo, um fabricante precisa de 30 engenheiros de software. Usando a solução da MediaTek, o número passa para apenas três engenheiros de software.”Com menos investimento em pesquisa e desenvolvimento, menos tempo para chegar ao mercado”, diz Moynihan.

Tá, tudo muito bonito, mas quem usa hoje no Brasil?

Entram na lista, os featurephones da Positivo, Venko, Meu, STI, CCE Info, FreeCel, Multilaser e, por enquanto, um smartphone da Gradiente com Android. O que esses aparelhos todos têm em comum? Suporte a dois ou mais chips de operadoras, sendo vendidos direto no varejo e, mais recentemente, em quiosques de operadoras. “Os aparelhos com dois ou mais SIM cards têm um apelo especial ao brasileiro, e as operadoras entenderam isso e começaram a vender também”, afirmou Sergio Abramoff, responsável pela operação da MediaTek no Brasil.

Peraí, mas Positivo, Gradiente, CCE e STI não têm um acordo de licenciamento com a Qualcomm? Sim, e todo mundo que quer ter um telefone 3G no mercado precisa assinar (e pagar royalties) para a Qualcomm. Alguns desses fabricantes até vão usar chips da Qualcomm, mas nada os impede de adotar outro fabricante, como a MediaTek, que também tem acordos com a turma de San Diego. A maioria dos telefones movidos a MediaTek hoje no Brasil são featurephones, mas os executivos da empresa conhecem bem os entraves locais de impostos, taxas e agregados.

Basta ver o exemplo da plataforma padrão topo de linha para smartphones hoje: com codinome MT6577, tem suporte a Android 4.1, processador A9 dual-core de 1 GHz, capaz de filmar em 1080p, tirar fotos de até 8 megapixels e vir com tela de 720 x 1280 (3D opcional), mais Bluetooth e Wi-Fi.

Preço médio sugerido para o primeiro aparelho no exterior com essa configuração? US$ 250, no Blu Vivo 4.3 (na foto que abre este post), já à venda nos Estados Unidos. Dá para baixar mais o preço? “É possível ter um Android de US$ 100, mas do ponto de vista do custo, é preciso se perguntar ‘é isso que as pessoas querem?'”, completa Russ Mestechkin, diretor para a América Latina. Vale lemrar que a Blu já vende algumas coisas “dois chips” por aqui.

Em tempo: a MediaTek quer vender Androids baratos. Então, se for comprar um aparelho básico (atualmente, este ZTOP recomenda Androids intermediários para cima apenas), provavelmente ele terá um chipset da MediaTek – e quem o comprar nem vai ter ideia disso.

E os featurephones, vão morrer? “Vão seguir por um tempo ainda, já que só neste ano nós vendemos chipsets para 400 milhões deles em todo o mundo. Existem partes do planeta que vão continuar com um celular básico por um bom tempo ainda”, conclui Moynihan.

 

Henrique Martin já escreveu na PC World, PC Mag, Folha de S. Paulo e criou o Zumo em 2007. Em 2011, o Zumo se transformou no ZTOP, referência em conteúdo original sobre tecnologia em um mundo pós-PC. Siga-o no Twitter: @henriquemartin

  • Rogério Calsavara 07/01/2014, 16:22

    Ótimo post. É muito bom poder ler algo sobre o mercado de tecnologia nessa linha de concorrência, participação de mercado, estratégia empresarial, etc.