Lente (velha) do dia: Carl Zeiss S-Orthoplanar 1:4 f=50mm

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Criada para uso técnico/científico, essa lente de altíssima resolução também pode ser adaptada a uma câmera digital, mas sua força está mesmo na macro-fotografia.

Estava eu no Mercado Livre namorando lentes de ampliador fotográfico quando topei com um curioso anúncio que oferecia um lote de lentes numa espécie de liquidação, já que o dono estava fechando sua loja de antiguidades e desejava queimar esse estoque:

Segundo a descrição do anúncio o lote era formado pelas seguintes lentes (a partir da esquerda no sentido horário):

  1. Schneider Kreuznach Durst Componon 50mm f4.0
  2. Schneider Kreuznach Durst Componon 105mm f5.6
  3. Rodenstock Ysaron 90mm f4.8
  4. Carl Zeiss S-Orthoplanar 50mm f4
  5. Boyer Paris Saphir B 65mm f3.5

Pelo meu vago conhecimento dessas objetivas, todas são lentes de boa procedência, mas apenas duas delas realmente chamaram a minha atenção: A Boyer Saphir B, por ser uma lente francesa e meio rara (pelo menos fora da França), e a Zeiss S-Orthoplanar, cuja existência eu simplesmente ignorava.

Para ser honesto, eu nem sabia que a Zeiss fazia lentes de ampliador!

Como não estava a fim de ficar com o lote inteiro, eu fiz uma oferta pelas duas lentes e o vendedor topou. Dias depois elas já tinham chegado aqui na Zumo-caverna.

Por trás de um nome

Apesar do nome, o desenho dessa S-Orthoplanar não é a mesma de uma lente Planar tradicional (um duplo simétrico de Gauss) e sim uma lente do tipo Plasmat de 8 elementos em seis grupos cuja lente frontal e traseira tem uma curvatura bem acentuada, quase esférica:

Segundo o dialeto da empresa, o prefixo “S-” é a abreviação de “Sonder“, que denota algo especial ou diferente, o que neste caso é o fato dessa objetiva ser calculada para ter seu máximo desempenho (~360 lpm) em uma curta distância em vez do infinito, caso das lentes macro como a S-Planar. Já seu número de série indica que ela foi fabricada lá pelos fim dos anos 1960 ou início dos 1970.

Ela também é considerada uma lente rara, já que estima-se que apenas algumas centenas foram fabricadas, o que pode parecer estranho, mas é algo comum nessa indústria já que esses produtos foram criados para atender certas demanda bem específicas — para não dizer única e — é claro, que a fabricante também cobrava o que queria pelo produto.

Um bom exemplo é a notória Carl Zeiss Planar 50mm f/0.7, considerada a lente mais luminosa já produzida e que foi criada especialmente para atender o programa espacial americano, só que ela ficou realmente famosa depois que Stanley Kubrick adaptou ela a uma câmera Mitchell BNC 35mm para filmar as cenas de interior e noturnas de Barry Lyndon:

Diz a lenda que apenas dez exemplares foram fabricados, sendo que uma ficou com a Zeiss, seis foram compradas pela NASA e três por Kubrick.

Trivia (de boteco): Em 2002 o diretor francês William Karel lançou um curioso mocumentário chamado Opération Lune/Dark Side of the Moon que afirma que Stanley Kubrick foi cooptado pela CIA para filmar a encenação do pouso da misssão Apollo 11 na lua.

De quebra, Kubrick tirou proveito dos seus novos amiguinhos no governo para ter acesso às lentes f/0.7 para filmar Barry Lyndon. Mas é claro que tudo isso é papo de bêbado, né? Onde já se viu — “homens na lua” — olha só o que essa gente fica inventando… >:-( 

E ao contrário do que imaginava, essa S-Orthoplanar não é uma lente de ampliador e sim para microfilmagem e fotolitografia, o que explica o seu sólido padrão de construção (~240 gr) e seu engate de rosca de 36 x 0,75 mm que não segue o padrão do mercado (Leica M39).

Isso faz com que a sua adaptação na minha câmera seja algo mais complicado já que ele vai exigir o uso de um um anel adaptador feito sob medida.
Mas como ainda não tive tempo para correr atrás disso, eu colei uma tira de feltro adesivo ao redor da rosca da lente e encaixei-na num anel de foco com rosca M42:

Um teste rápido

Apesar dessa lente ser capaz de focar no infinito, o seu desempenho é bom, mas nada de cair o queixo, talvez por causa das suas cores com tons “normais” (= não muito saturadas). Já o nível de detalhamento é bom, mas também nada impressionante:

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Já a distâncias mais curtas, a qualidade das imagens melhora bem:

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Aqui podemos observar o bokeh dessa lente, que na nossa opinião é bem agradável para não dizer “cremoso”:

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E aqui temos algumas imagens feitas a meia distância:

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Nossas conclusões

Esses testes iniciais mostram que a lente até que serve para uso geral, apesar de que o seu forte é mesmo a curta distância.

Alguns podem até questionar que o nível de detalhamento não é tão alto assim, mas precisamos levar em consideração que o limite neste caso pode não estar na lente em si e sim no sensor Live CMOS da câmera que pode não ser capaz de capturar toda a “informação” capturada por essa lente.

Fora isso, essas fotos foram tiradas de maneira bem casual, num dia nublado onde as condições do clima não estavam muito favoráveis, de modo que, precisamos ainda de mais tempo para pegar todas as manhas dessa lente e tirar o máximo proveito dela.

E é ai que está a diversão desse hobby, diga-se de passagem.

Sobre o autor

Mário Nagano

Desde o século passado Mario Nagano analisa produtos e já escreveu sobre hardware e tecnologia para veículos como PC Magazine, IDGNow!, Veja e PC World.
Em 2007 ele fundou o Zumo junto com o Henrique assumindo o cargo de Segundo em Comando, Editor de Testes e Consigliere.

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