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JBC traz mangá sobre Hiroshima para o Brasil

Semana passada — ou mais exatamente o 6 de agosto — foi a data que marcou os 65 anos da queda da primeira bomba nuclear sobre a cidade de Hiroshima, evento traumático que colocou um fim na Segunda Guerra Mundial. O interessante é que descobri hoje (11 de agosto) — meio que por acaso — que a editora JBC anunciou o lançamento do mangá Hiroshima a Cidade da Calmaria (Yuunagi no Machi, Sakura no Kuni) um dos mais recentes e interessantes relatos sobre a vida dos sobreviventes no pós-guerra.

Para comemorar esse lançamento, eu transcrevo um post que escrevi em 2007 — ainda numa fase pré-zumo:

(Início do flashback…)

A experiência do ataque nuclear em Hiroshima se reflete ainda hoje no inconsciente coletivo do povo japonês — que pode ser considerado a única civilização pós-apocalíptica dos tempos modernos — e se manifesta de diversos modos na sua produção cultural, inclusive nos mangás (quadrinhos japoneses).

De fato, um dos exemplos mais célebres é Hadashi no Gen (Gen Pés descalços no Brasil), a história de uma família da cidade de Hiroshima antes e depois da bomba, escrito por Keiji Nakazawa — ele próprio, um sobrevivente — e publicado em capítulos pela primeira vez na revista Shonen Jump, em 1973. Seu sucesso foi tão grande que a história foi posteriormente traduzida por grupos pacifistas para outros idiomas, para mostrar a realidade da guerra nuclear na época da guerra fria. Desse modo, Gen se tornou o primeiro mangá a ser amplamente difundido no Ocidente.

Outro trabalho que merece ser citado é o antológico AKIRA de Katsuhiro Otomo. A história tem início em 2030, 38 anos após a cidade de Tóquio ter sido destruída por uma misteriosa explosão em 1982 (1992, na versão em inglês), sofrendo uma segunda explosão do mesmo tipo no meio desse épico de mais de 2 mil páginas. Não se trata exatamente de uma história de Hiroshima, mas ilustra bem como a idéia de que um evento destrutivo de proporções épicas — dividindo eras — são temas recorrentes nos mangás e animês japoneses.

Mais recentemente, uma nova escritora chamada Fumiyo Kouno estourou no mercado japonês com seu pequeno livro Yunagi no Machi, Sakura no Kuni — uma compilação de três histórias curtas que ganhou o grande prêmio do Japan Media Arts Festival de 2004 na categoria Mangá.


Ao contrário de Hadashi no Gen, que foi escrito por um sobrevivente e concentra sua narrativa na época do incidente, o trabalho de Kouno avança em mais de uma década e mostra a vida cotidiana dos sobreviventes — também chamados de Hibakusha — e de novos personagens que nem passaram pela terrível experiência, mas que, de um modo ou de outro, ainda são influenciados pelos fantasmas do passado. E sob esse  ponto de vista, Yunagi no Machi lembra muito o filme Kuroi Ame (Chuva Negra, no Brasil), dirigido por Shohei Imamura em 1989.

E assim como nessa obra cinematográfica, o protagonista de Yunagi no Machi é uma moça — Minami Hirano — assombrada pelas suas dúvidas sobre seu direito à vida e à felicidade, enquanto muitos de seus entes queridos se perderam na guerra.

Em Sakura no Kuni, a narrativa se concentra na família do irmão mais novo de Minami — Asahi Ishikawa — e de sua família, que redescobrem detalhes da história famíliar e o valor de seus relacionamentos.

Ao contrário do mangá tradicional, no estilo shoujo, com seus personagens de olhos imensos e expressivos, o traço de Kouno está mais ligado ao estilo ocidental, com linhas simples e texturas monocromáticas à base de finos traços com bico de pena a la Crumb e Jim Woodring, resultando num trabalho mais original e menos estereotipado.

Sua narrativa casual e meio melancólica, segue o ritmo de uma pescaria com vara: leve e serena até o momento da fisgada. Daí em diante, Kouno mostra toda sua técnica narrativa para surpreender nós leitores, para que nos rendamos aos seus momentos muitas vezes felizes, outras nem tanto.

Uma verdadeira jóia da arte sequencial, que merecia uma divulgação mais ampla.

A primeira edição a sair no Ocidente foi a versão em francês — Le Pays des Cerisiers — publicada pela Dargaud em abril de 2006, seguida pela edição norte-americana — Town of Evening Calm, Country of Cherry Blossoms — lançada em fevereiro de 2007, pela Last Gasp. Antes disso, o trabalho de Kouno começou a circular pelos grupos de mangá e anime pela Internet sendo o seu principal difusor, foi o grupo Kotonoha, que concluiu a tradução da obra para o inglês no final de 2006, mas tirou a história do ar após a versão norte-americana chegar ao mercado.

(… fim do fashback)

No Brasil o título foi anunciado pela Editora JBC com o nome de Hiroshima A Cidade da Calmaria (112 páginas, ISBN: 978-85-7787-307-4, R$ 19,90) e que deve chegar no próximo dia 25/08 nas bancas e livrarias. Segundo informações do site, a primeira história mostra a Hiroshima de 1955, dez anos após o ataque nuclear, tempo em que a jovem sobrevivente Minami Hirano segue uma rotina normal, mas ainda se vê assombrada pelas terríveis lembranças daquele dia.

A segunda parte da graphic novel acontece entre fins da década de 1980 e início dos anos 2000 em Tóquio, onde Nanami Ishikawa vive com sua família. Apesar de distante de Hiroshima, a vida dessa personagem também é marcada pelas consequências do passado. Aliás, este é o propósito da autora: mostrar as consequências da bomba nuclear e como elas influenciam, até hoje, a vida dos jovens japoneses, tenham eles ancestrais vitimados ou não.

Eu particularmente sou fã do trabalho de Kouno que recentemente finalizou uma segunda obra baseada no mesmo tema konosekai no katasumi ni (algo como neste canto do mundo) uma história em três volumes que acompanha a vida de Suzi Urano (embaixo) que se casa com um oficial da marinha e vai viver com a família do marido na cidade de Kure região de Hiroshima, ou seja nova cidade, nova família, novos costumes e um novo mundo que se abre no meio de uma guerra que muita gente só viu na forma de entes queridos que partiram e nunca retornaram, falta de comida, exercícios de mobilização e bombas que caiam do céu.

E assim como Yuunagi no Machi, essa obra ganhou (de novo) o prêmio de excelência de 2009 da 13a edição do Japan Media Arts  Festival na categoria Manga.

Desde o século passado Mario Nagano analisa produtos e já escreveu sobre hardware e tecnologia para veículos como PC Magazine, IDGNow!, Veja e PC World. Em 2007 ele fundou o Zumo junto com o Henrique assumindo o cargo de Segundo em Comando, Editor de Testes e Consigliere.

  • david 11/08/2010, 19:22

    pô, pensei que era de comer. uma manga mutante tamanho gigante… :-S

    • mnagano 11/08/2010, 20:35

      Haw haw haw… very funny.

  • @joauricchio 11/08/2010, 22:09

    Mangá histórico é uma forma de arte pouco apreciada por aqui, o que é uma pena.

    Existe muito mais nos quadrinhos japoneses que seres superpoderosos, sacanagem da grossa e viadagem explícita.

    Dá para aprender muita coisa bacana, como o Nagano já mostrou inúmeras vezes aqui no Zumo.

    O incidente atômico no Japão foi uma das piores passagens da história humana. Não é certo inocentes pagarem pelas decisões horríveis de seus governantes. O Eixo foi de uma ignorância absurda, uma mancha na história da humanidade. Mas a aniquilação de gente boa e inocente é injustificável.

    Vou ler esse mangá sim, até para incentivar que conteúdo de qualidade seja publicado com mais frequência.

    Valeu o toque, Nagano!

  • dflopes 12/08/2010, 10:49

    Pla qualidade historica e gráfica, está barato.

  • Lucas Vinícius 18/08/2010, 16:29

    Como será a fluidez da história desse mangá e se ela é interesante? Seria legal se colocassem algumas páginas na net pra gente ver.