iPods novos: upgrades, downgrades e fome de mercado

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A Apple, por conta da mística que possui e da habilidade de Steve Jobs em vender o seu peixe, pode fazer algumas experiências. Mas será que o público vai aprovar os últimos anúncios feitos semana passada?

Jobs não quer apenas o mercado de aparelhos pessoais de mídia. O negócio da Apple é dominação global, é morder a Sony, a Nintendo, o Facebook e se bobear, o Google. Esse traço napoleônico de Jobs sempre foi proeminente, mas com o último anúncio da Apple, a coisa ficou clara como cristal. Depois que voltou à ativa, Jobs, que está mais saudável depois dos sérios problemas de saúde que enfrentou, veio como um rolo compressor.

Ele escolheu anunciar seus lançamentos ao mesmo tempo em que acontece a IFA 2010:

O principal anúncio foram as novas especificações do iPod Touch. Basicamente, a Apple pegou o iPhone 4, tirou o chip 3G e afinou o aparelho. E isso foi ótimo. O novo Touch vem com o recurso Face Time, o lance de videofone que a Apple jura que inventou no iPhone 4 e já está disponível desde o começo do século em vários telefones… maldade à parte, o recurso parece ter sido feito sob medida para o Touch. Ele não é um telefone mesmo, e o Face Time só roda conectado ao Wi-Fi. Boa jogada, Steve!

Agora, vamos pensar como um adolescente que tem seu telefoninho pé de boi no bolso que funciona com créditos… apesar de querer um smartphone, ele não tem como bancar isso. Certo, agora existem os planos de dados econômicos, mas a realidade para essa faixa de público (e para a maioria dos brasileiros) é a do telefone pré-pago. O Touch é o gadget ideal para esse povo. Faz tudo o que um smartphone faz e não gasta nada com isso. Qualquer Wi-Fi liberado faz dele um videofone, não um videofone acessível por qualquer um, mas por quem tem o mesmo gadget. Esse fator de exclusividade, que irrita aos adultos é exatamente a redoma de proteção, o fator tribal, que os adolescentes almejam. E por conta disso o negócio do Face Time pode finalmente pegar.

A tela, com resolução de 3,5 polegadas e densidade de 326 pontos por polegada, fez do Touch o gadget sem 3G com melhor imagem do planeta. O painel é convencional – e não o IPS, a melhor tecnologia de LCDs disponível. Jobs mencionou que o display usava a mesma tecnologia do iPhone 4, denominada Retina Display. A densidade de pontos é a mesma, mas o ângulo de visão é diferente. Não que faça tanta diferença assim.

Para rodar vídeos na telinha, ainda é preciso convertê-los. Mais uma vez, uma atividade insuportável para alguns adultos, mas tolerável pelos mais novos, que por conseguirem ou terem paciência para fazer isso, se sentem integrados em um mundo superior ao dos mais velhos.

O Touch agora conta com um sensor de imagem capaz de gravar vídeos em 720p. Muito bom. O mesmo sensor é usado para tirar fotos, com a nada espetacular resolução de no máximo 960 x 720. Tudo bem, as fotos são só um bônus, o que conta mesmo é a captação de vídeo…

O novo Touch tem o mesmo giroscópio triaxial do iPhone 4  (bem mais preciso), o dobro da RAM para rodar programas (512 MB contra os 256 anteriores) e o processador A4, que é bem bacana para rodar múltiplos conteúdos como games. E é aí que a onça morde. Jobs fez uma afirmação dura de engolir ao mostrar o aparelho. Ele disse que a Apple já tem 50% do mercado de jogos portáteis, tendo vendido mais que Sony e Nintendo juntas. Ah, Steve, não precisa disso não…

Só com o DS, a Nintendo já vendeu mais de 132 milhões de aparelhos, enquanto a Apple, segundo Jobs, vendeu mais de 120 milhões de aparelhos com iOS embarcado. E só uma parte desses aparelhos vendidos pela Apple é composta do Touch.

O fato é que, com o novo processador, a quantidade maior de RAM e as boas vendas de games na App Store, a Apple conseguiu colocar no mercado o console portátil mais poderoso do mundo. Agora, só falta efetivamente conseguir que os jogadores ignorem os produtos mais tradicionais e até mesmo mais poderosos (até o final do ano a Nintendo lançará um portátil que roda com gráficos da qualidade do GameCube em 3D, sem precisar de óculos) por amor à maçãzinha.

A Apple tem a seu favor a idade dos concorrentes. O PSP, da Sony, e o Nintendo DS foram lançados em 2004, uma eternidade para um videogame. E mesmo com uma atualização aqui e ali, basicamente rodam o mesmo tipo de jogos desde o lançamento. O 3DS vem aí, mas se os jogos em cartucho forem caros, talvez o poder da novidade se perca.

O estratagema da Apple é afiado. Com um único sistema operacional, é possível fazer com que os jogos funcionem com escalabilidade de acordo com a versão de hardware. Em iPods/iPhones mais antigos, os jogos rodam com gráficos mais simples. Nos de último tipo, mais bonitos. Como o hardware é conhecido pelos programadores, basta modificar alguns parâmetros para que os jogos se adaptem ao hardware.

Mas nem tudo é perfeito. A Apple normalmente adiciona recursos sem mexer no preço. Dessa vez, pelo menos no modelo de 8 GB, a coisa mudou. O aparelho vai custar, nos EUA, US$ 229, 15% mais caro que a última geração. Em uma economia mundial como a de hoje, é praticamente uma sentença de morte. As versões de 32 GB e 64 GB custam exatamente o mesmo que suas versões anunciadas há praticamente um ano, US$ 299 e US$ 399. Com a diferença de preço tão pequena, a melhor compra será mesmo o de 32 GB. A Apple confirmou para o Zumo os preços dos modelos de iPod Touch: 8GB – R$ 749,  32GB – R$ 999 e 64GB – R$ 1.299. Caros, mas muito menos caros que no passado.

Agora, pensemos como o adolescente doido para comprar um PSP…

Onde você gasta seu dinheiro, em um aparelho que navega mal na internet, tem uma mídia proprietária cara, complicado de pagar por conteúdo, sem praticamente nenhum software grátis e que te obriga a comprar um cartão de memória para funcionar, o que aumenta o preço final, ou um aparelho que sai da caixa fazendo tudo o que você espera, além de rodar bons jogos? É por isso que a Apple insiste no modelo de 8 GB. Comparado com a concorrência, no que tange os jogos, é um gadget matador.

Mas nem tudo o que a Apple anunciou foi exatamente legal. Vejam o que foram fazer com o Nano…

O Nano de quinta geração era perfeito. Pequeno, feito sob medida para caber no bolsinho interno dos jeans, tinha uma câmera de vídeo competente – não estelar, mas suficiente para aposentar muitas camcorders antigas que fazem vídeos em definição padrão – gravador de voz, rádio, pedômetro… caramba, um verdadeirio canivete suíço do terceiro milênio.

Aí, parece que a Apple cruzou um Shuffle com o iPod Touch e nasceu esse novo Nano. É louvável abolir os controles físicos e usar um touchscreen multitoque, mas calma lá, uma telinha minúscula dificilmente aproveitará bem o recurso.

Pior, a camcorder foi retirada do aparelho. Era fantástico poder contar com uma filmadora com qualidade de DVD em qualquer lugar. Por isso, se você tinha interesse em um Nano que filma, corra. Pode ser que encontre um dando sopa em alguma loja por aí.

Se fosse um novo tipo de iPod, algo como Nano Touch, sem eliminar o design refinado do Nano de quinta geração, seria genial. Mas matar o pobrezinho não foi legal. Quem sabe ano que vem a Apple retoma o design anterior, coloca uma telona sensível ao toque por ele inteiro e o batiza de, quem sabe, Nano 21×9…

O novo Nano será vendido com 8 GB e 16 GB, e custará no Brasil R$ 549 e R$ 649. Por esse preço sem câmera de vídeo? Boa sorte, Apple.

Ah, e em uma prova que erra e aprende com os erros, a Apple também mostrou o novo Shuffle, finalmente com os controles físicos da primeira geração de volta. Tomara que a mesma iluminação venha ano que vem para o Nano.

Sobre o autor

Jô Auricchio, editor convidado

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