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Intel: pulseira Mica e reflexões sobre wearables

[IDF 2014] Ao contrário da concorrência, a estratégia de dispositivos vestíveis da Intel é baseada em parcerias com o setor da moda e de acessórios.

Dentre os assuntos que rolaram durante o último Intel Developer Forum, talvez o mais filosófico e menos técnico seja o dos dispositivos vestíveis — ou wearables —  um mercado que parece crescer num ritmo estonteante se levarmos em consideração todos os anúncios das últimas semanas, incluindo o do pessoal com nome de fruta.

O curioso é que, na média, o sentimento geral entre os diversos executivos e convidados a debater sobre esse assunto nesse IDF é que o mercado ainda não encontrou a fórmula mágica que irá convencer as pessoas a correrem para as lojas e se estapearem para ter um wearable para chamar de seu.

Em contrapartida muitos acham que eles estão quase lá, mas também não contam o caminho — incluindo a Intel — mas falaremos sobre isso mais adiante. Por enquanto vamos ao que já existe de concreto no sentido mais literal da palavra:

Durante o seu keynote, Brian Krzanich, CEO da Intel apresentou para o público o Mica (“My Intelligent Communication Accessory” )…

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… uma espécie de pulseira inteligente equipada com recursos de comunicação como SMS, mensagens de alerta e outras funcionalidades ainda não divulgadas.  Ela tem 30,8 mm de largura, 7,7 mm de espessura e sua abertura oval mede (75,0 x 61,4 mm).

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Uma das sacadas desse dispositivo é que sua tela fica na parte de trás da pulseira numa posição bem mais discreta. Fora isso ela  funciona de maneira autônoma, sem precisar por exemplo do suporte de um smartphone para se conectar com o mundo exterior.

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A idéia neste caso é que seu dono pode até deixar o smartphone em casa e, mesmo assim, manter-se conectado — o que pode ser algo desejável em certas ocasiões onde ficar segurando o celular pode não ser visto com bons olhos — em especial aquelas lajotas com tela de 6 polegadas!

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Outro destaque do Mica é o uso de materiais nobres e exóticos na sua construção, o que ressalta ainda mais a sua percepção como item de luxo.

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Segundo a Intel, o modelo negro utiliza pérolas da China e Lapis-Lazuli de Madagascar. Já o branco utiliza a gema Olho de Tigre extraída na África do Sul e pedra Obsidiana da Rússia — um LUXO!

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Numa mesa redonda, Mike Bell (que já foi logo explicando que não é parente da Genevieve Bell) falou um pouco mais sobre a idéia por trás do MICA e da visão da Intel sobre wearables. Bell é vice-presidente corporativo e gerente geral da área de novos dispositivos na Intel (e antes passou pela Palm e pela Apple, sempre cuidando de hardware).

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Mike diz que esse mercado é grande demais para ser ignorado. E para entrar nele, a Intel já está trabalhando numa série de chips especificamente voltados para esses dispositivos capazes de “sentir” o ambiente ao seu redor. E que serão equipados com interfaces de áudio de vídeo, com previsão de lançamento no início do ano que vem (CES em janeiro, talvez?)

Com relação à estratégia de conquistar o consumidor, a Intel acredita que a melhor alternativa é fechar parcerias com a indústria da moda/acessórios que conhecem muito bem esse mercado. Um dos problemas que ele vê por ai é que muitas empresas de tecnologia estão correndo para colocar seus produtos nas lojas e — no fim das contas — ninguém compra.

Isso porque um dispositivo/acessório vestível não deixa de ser uma manifestação do nosso gosto pessoal, da nossa personalidade e até mesmo da maneira com que queremos que as pessoas nos vejam — sendo que muitos não querem ser vistos como aquele cara que anda com um smartphone no pulso!

Na sua opinião, se um dispositivo wearable simplesmente duplica as funções de um smartphone, seu fabricante não entende o conceito.

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E é ai que entra o MICA, já que antes de ser uma engenhoca eletrônica, ele é um objeto elegante que chama a atenção das pessoas — em especial o público feminino — que ficam ainda mais encantadas quando sabem que ele é inteligente.

Assim esse produto possui um ótimo balanço entre forma x função o que Mike acha ser algo crítico, o curioso é que todos os modelos que foram apresentados publicamente ainda não funcionavam. Segundo o executivo isso é porque eles ainda estão trabalhando na sua interface de modo que eles querem manter segredo até o dia do seu lançamento.

Também vale a pena notar que o Mica é um produto desenvolvido em parceria com a Open Ceremonymas não será vendido como um um produto da Intel. De qualquer modo, vai bolar um jeito para o consumidor saber que se trata de um produto “powered by Intel”.

Quando perguntado porque tantas empresas investem no formato de relógio de pulso, Bell explica que esse acessório é um ótimo ponto de partida já que o consumidor já está familiarizado com essa metáfora, o que facilita a sua aceitação e uso.

Para ele, um bom exemplo de wearable que ainda não foi totalmente assimilado/aceito pelo público é o Google Glass que apesar da sua utilidade, ainda provoca estranheza nas pessoas ao seu redor principalmente quando o usuário começa a fazer caretas com os olhos ou gestos estranhos na cabeça.

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De qualquer modo, ele acredita que no futuro existirão outros dispositivos com outros formatos, mas que ainda não estamos lá.

E com relação aos dispositivos implantados no corpo? Particularmente Bell não gosta dessa idéia, mas ele esclarece que segundo algumas pesquisas realizadas pela própria Intel, eles descobriram que isso é uma questão cultural que varia de geografia para geografia. Por exemplo, na China 30% das pessoas entrevistadas disseram aceitar implantes. Já em outros países esse número chega até a ser maior.

Já nos EUA esse número é perto de zero, talvez por desconfiança do governo, principalmente depois da revelação do programa de monitoramento dos cidadãos americanos via telefone/internet.

E isso sem falar nos fãs de Arquivo-X.

Ainda em tempo:

Para aqueles usuários que nasceram com aquilo roxo e não curtem andar por ai com uma pulseira cheia de fricotes, a boa notícia é que a Intel também anunciou uma parceira com o grupo Fossil para desenvolver novos produtos inteligentes baseados na tecnologia Intel.

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Para falar um pouco sobre isso, subiu ao palco Greg McKelvey, vice-presidente, estrategista chefe e diretor de marketing da Fossil que explicou que sua empresa já desenvolve smart watches há mais de uma década (com resultados diversos, maior exemplo é o Microsoft SPOT, de 2004, um fracasso enorme por sinal), mas que o momento é agora já que é possível desenvolver um produto com boa capacidade de processamento, boa autonomia de bateria, preço razoável e num formato que as pessoas gostem de usar no pulso.

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Segundo McKelvey, o grande desafio neste negócio é combinar uma boa tecnologia com um design atraente e na moda, o que é algo muito difícil de ser alcançado por uma única empresa. De modo que a parceria da Intel com a Fossil é uma combinação de talentos que pode resultar em produtos realmente atraentes para o mercado.

Sobre isso, numa conversinha rápida que tive com Mike Bell depois de uma sessão de perguntas e respostas, eu lhe disse sobre a minha impressão/suspeita de que o mercado de wearables ainda não tem o que poderíamos chamar de “Killer App” e ele como um dos líderes nessa área de pesquisa dentro da Intel, eu perguntei se ele teria alguma idéia do que poderia ser realmente uma app matadora para esses produtos.

Para minha surpresa, Mike disse que sim, ele tem uma excelente idéia na sua cabeça, mas educadamente se recusou a dizer o que é já que eles já estão trabalhando nisso junto com a Fossil e ele não gostaria que seus concorrentes soubessem.

Ok Mike, ficamos no aguardo. 🙂

Disclaimer: Mário Nagano viajou para Califórnia a convite da Intel, mas todas as opiniões e fotos bacanas são nossas. 

Desde o século passado Mario Nagano analisa produtos e já escreveu sobre hardware e tecnologia para veículos como PC Magazine, IDGNow!, Veja e PC World. Em 2007 ele fundou o Zumo junto com o Henrique assumindo o cargo de Segundo em Comando, Editor de Testes e Consigliere.