ZTOP+ZUMO

Intel: Atom “Medfeld” não é restrito a Android

Durante a CES 2012, participei de uma mesa-redonda com Dave Whalen , vice-presidente do grupo de arquitetura da Intel, que falou sobre o lançamento do seu system-on-a-chip x86 de quarta geração — codinome Medfield — e o seu potencial de uso no mercado de smartphones, tablets ou o que der na telha dos fabricantes.

Whalen explicou que esse primeiro processador —  mais exatamente um SOC (System On a Chip) — usado no desenho de referência da Intel (hands-on aqui) — utiliza um núcleo x86 single-core de 1,6 GHz com tecnologia HT (de Hyper Threading, que emula dois chips lógicos) e que atualmente roda o Android 2.3 “Gingerbread”. Entretanto, a Intel deve portar o Android 4.0 o mais cedo possível.

E por que o Medifield não é dual-core? Whalen explica que, por enquanto ele não acha necessário já que eles conseguiram resultados muito bons só com o uso da tecnologia HT, além do fato de um chip single core consumir menos energia que um dual core. Assim, ele acredita que seu chip seja tão bom (se não melhor) que seus concorrentes com dois núcleos em termos de alto desempenho x consumo de bateria. Apesar disso, ele não descarta a possibilidade de introduzir uma versão dual-core com HT se esse for o desejo dos seus clientes.

Com relação ao público-alvo desse produto, inicialmente o Medfield será direcionado para o mercado de smartphones topo de linha. Entretanto, o executivo reconhece que para esse produto ser bem sucedido ele precisa ganhar escala, e isso pode ocorrer de três modos: primeiro, com suporte a diversos sistemas operacionais; segundo, poder ser usado em diversas geografias (o que significa o suporte para diferentes tipos de redes como LTE, CDMA etc. ) e finalmente, poder oferecer o produto em diferentes faixas de preço.

Apesar de ainda não ter divulgado ao público, a Intel afirma já possuir um roadmap com uma linha de produtos capaz de atender a esses três quesitos.

Entre as primeiras fabricantes que já anunciaram que irão adotar o Medfield estão a Motorola, que irá lançar diversos tablets e smartphones (sendo que o primeiro deles deve chegar ao mercado no segundo semestre de 2012) e a Lenovo que deve introduzir seu primeiro smartphone K800 ainda neste primeiro semestre mas apenas no mercado chinês.

Fora isso, outros fabricantes esperam na fila para conversar sobre esse produto, mas nada que possa ser divulgado nesse exato momento. Entretanto, novos anúncios podem ocorrer durante o próximo Mobile World Congress, no fim de fevereiro.

E por que optar por um sistema com Atom Medfield em vez de ARM? Whalen enxerga duas vantagens: a primeira é do lado tecnológico e a segunda o que ele chama de “paz de espírito”. Ele explica que a Intel está entre as marcas mais famosas do mundo e sua tecnologia está bem entrelaçada nos diversos aspectos da nossa vida digital e que agora também chega ao mundo móvel.

Assim, a Intel não enxerga os smartphones como um produto isolado e sim parte de um grande ecossistema que o usuário já está familiarizado de modo que ele pode comprar seu smartphone com Intel sem medo. Já sob o ponto de vista tecnológico, o consumidor pode contar com todo o poder de pesquisa e desenvolvimento da maior empresa de semicondutores do planeta para fazer as coisas melhores ou pelo menos um pouco diferente da concorrência.

Com relação ao suporte de sistema operacional, Whalen disse que inicialmente o Medfield seria totalmente focado no Android, já que ele é o SO para smartphone mais popular e disponível no mercado e a Intel tinha a determinação de disponibilizar a sua plataforma o mais cedo possível. E agora que essa meta foi alcançada, é possível dedicar mais tempo em outras oportunidades do mercado, o que inclui oferecer o Medfield para outros sistemas como Windows 8, Tizen e até mesmo o iOS da Apple, empresa com quem já estão conversando (uia!).

Henrique comenta: ao citar a Apple ele jogou verde. A Apple desenvolve seus chips ARM usados em iPads e iPhones (alguém lembra que eles compraram a PA Semi?) e que, brigas por design à parte, são fabricados pela Samsung. Migrar a plataforma de ARM para x86 agora não tem muito sentido não – ecossistema de apps, certo?. 

Nagano comenta: Para mim acho que é tudo uma questão de custo x benefício já que caso o Medfield seja realmente tão bom quando a Intel afirma ser, acho que nada impede que a Apple faça a mesma coisa que fez no passado quando migrou dos chips PowerPC para x86 na sua plataforma Mac. Fora isso, como a Apple já é uma grande cliente da Intel de modo que acredito que o pessoal de Cupertino poderia até ter acesso ao Medfield em condições bem interessantes, o que também resolveria o atual dilema de depender de um fornecedor de chips coreano que por sinal é o mesmo com quem ela está brigando na justiça.

Até hoje o Medfield — ou mais exatamente o Atom em celulares — era muito disse-que-disse. Agora que ele finalmente chegou ao mercado teremos condições de ver o que esse chip é realmente capaz de fazer. E se ele for realmente bom, pode até virar o jogo em favor do pessoal de Santa Clara, como já aconteceu no passado quando eles deram fim do Pentium 4 e introduziram a família Core — é esperar para ver. 🙂

Sobre o suporte para o desenvolvimento de aplicações, a Intel diz que a grande maioria dos apps disponíveis nos Android Market foram escritos numa linguagem do tipo Java (que roda numa VM chamada Dalvik), de modo que elas irão rodar sem problema em qualquer sistema com ARM ou Medfield, desde que ela disponha dos arquivos de runtime corretos.

Já uma minoria (~20% das aplicações), em especial jogos, possuem partes do seu código compilados para rodar especificamente em chips ARM (via NDK) de modo a melhorar o seu desempenho (como o editor de fotos Snapseed, por exemplo). Nesse caso, a Intel pretende oferecer todo o suporte possível para que os desenvolvedores possam otimizar suas aplicações para que eles rodem bem em qualquer plataforma, independente de ela ser ARM ou x86.

Quando questionado por que a Intel demorou tanto para lançar um chip móvel, Whalen disse que para ele não foi muito tempo já que pegou esse projeto no ano passado. Mas a resposta correta é que primeiro não é uma tarefa fácil e segundo a Intel teve a preocupação de fazer a coisa direito o que é uma complexa combinação de fatores que envolve timing, disponibilidade de pessoas e foco nos objetivos.

Henrique comenta: Vale lembrar que a Intel sua unidade de chips móveis (baseados em ARM) em 2006 para a Marvell. E a concorrência movida a ARM está animada com o fato de a Microsoft tornar o Windows 8 compatível com essa arquitetura.

 

 

Desde o século passado Mario Nagano analisa produtos e já escreveu sobre hardware e tecnologia para veículos como PC Magazine, IDGNow!, Veja e PC World. Em 2007 ele fundou o Zumo junto com o Henrique assumindo o cargo de Segundo em Comando, Editor de Testes e Consigliere.

  • Cesar Cardoso 17/01/2012, 15:11

    Só lembrando que a Apple também comprou a Intrinsity, empresa que desenhou o Samsung Hummingbird/Apple A4 e que, certamente, desenhou também o Apple A5.

    • rubens 18/01/2012, 11:51

      A Intrinsity ganhou fama produzindo implementação de baixo consumo e alto desempenho entre os ARMs.
      Igual a PASemi fez com os Power.

      As viúvas do Power ficaram loucas quando viram que a Apple não comprou pra usar a implementação da arquitetura.
      Foi a última grande esperança do Power em desktops, e só foi parar em uma máquina discreta rodando um dos filhos do Amiga. 🙂

  • @LeandroZart 17/01/2012, 16:13

    tenho q concordar, jogou muito verde, a Intel não tem uma boa fama em atender a demanda de processadores para a Apple, acho q a Apple teria muito o q avaliar antes de se jogar de vez nos braços da Intel, q verdade seja dita ainda esta engatinhando nesse setor. não tem como comparar com a Apple q já tem uma arquitetura de processador muito mais confiavel e com fama solidificada. mas nunca se sabe, vai q eles queiram se arriscar. :p

    • mnagano 17/01/2012, 16:44

      Bom, na época em que a Apple estava desistindo do Power PC ele tinha três alternativas:

      1. Continuar com o RISC e adotar o Cell BE de nove núcleos.
      2. Adotar os chips AMD64 (x86).
      3. Adotar os chips Intel Core (x86).

      Segundo uma conversa que já tive com Peter Hofstee (criador do Cell BE), a Apple chegou a avaliar o seu chip mas desistiu (talvez pela dificuldade de programá-lo). Ai, muita gente apostava na AMD devido a sua boa relação custo x benefício mas no final das contas a Intel levou a parada.

      Agora… A Apple se jogar nos braços do pessoal de Santa Clara? Bom, pelo que já conversei com muita gente lá dentro a história não é bem assim. De fato a Apple é uma cliente tão especial que conseguiu convencer a Intel a criar um novo encapsulamento compacto para seus chips móveis caberem nos MacBook Air e que depois também foi usado no ThinkPad X300 e mais recentemente nos Ultrabooks.

    • rubens 18/01/2012, 11:54

      Se a Intel não condições de atender a demanda da Apple, quem teria?

      Samsung tá vendendo precatórios pra aumentar a fábrica de SoCs, Global Foundries tá dando suadeira na AMD. IBM só tem olhos pra videogames e servidores. E a TSMC tá apagando incêndio de ter largado os clientes que preparavam o salto pra 32nm…

  • @leonardoserrat 17/01/2012, 17:45

    até q me provem o contrário, não consigo ter outra sensação de que é furada, ao menos essa geração da intel. E convenhamos, lançamento single core (ainda que o HT traga algum ganho de performance) no mesmo período que a samsung vai anunciar o seu quad core é pra acabar.

  • Higuetari 17/01/2012, 19:51

    Então o consumidor deverá se preocupar agora se estará comprando um telefone ARM ou x86, pra rodar certas aplicações?

    • rubens 18/01/2012, 11:55

      No geral não, já que a maioria dos apps roda em máquina virtual (Dalvik JVM no caso do Android, por exemplo).

  • rubens 18/01/2012, 12:00

    Engraçado entrevistas com pessoal do administrativo.
    É evidente que um dual-core não caberia na "janela térmica" de um SoC pra smarts, coincidindo com o prazo que a Intel queria para chegar ao mercado.
    A escolha da GPU integrada é uma pista disso (PowerVR 540 era a GPU do Hummingbird, que já tem um ano e meio).

    Provavelmente valeu a regra do "só aumenta o chip em 1% se aumentar o desempenho em 2%".

    E pelos benchmarks preliminares, o potencial é grande.