Ideias sobre mídia anti-social

I

aquario

Fake Steve Jobs sempre acerta na mosca. Outro dia, comentando a ausência (corretíssima, por sinal) da Apple no mundo das mídias sociais, soltou a seguinte frase:

I wish they had something called anti-social media. Now that I would join.

Sim, você leu certo. “Desejo que tivesse algo chamado mídia anti-social. Dessa eu participaria”. Mmm, isso me deu idéias.

Então, um aviso. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência, apesar de baseada em alguns fatos reais que vi/acompanhei de perto, tá bom? E, pelas regras gramaticais corretas, o certo é antissocial. Mas para ser do contra, foi anti-social mesmo.

Este texto era pra sair outro lugar originalmente, mas não rolou. Estimulado por conversas com o Rafael Sbarai, Pedro Burgos e outros amigos, resolvi aparar umas arestas e começar uma série de viagens loucas sobre a anti-socialidade. O primeiro é sobre como gente muito social online consegue ser muito anti-social no mundo real.

Sabe como é, a gente fica velho e cada vez mais mal-humorado. E que venham mais mídias anti-sociais pra chacoalhar essa coisa parada da mídia social.

Nagano (web 1.0 assumido) comenta: Bem vindo ao clube — RRROLODEX BANZAAAAI!!!

A fábula dos famosos com medo de gente

Era uma vez um grupo de midiáticos famosos. Cara, eles eram incríveis. Sabiam de tudo de mídias sociais, blogs, Orkut, Facebook, eram os mega-super-hiper multiplicadores de informação. Empresas pagavam apenas para eles aparecerem nos seus eventos, coletivas, batizados, chás de cozinha, inauguração de pontes e aberturas de supermercados. Se tinha uma lembrancinha, melhor ainda.

O poder dessas pessoas era enorme, isso não pode ser negado. Sua existência incensada levava e influenciava tudo e todos, dos seus blogs (altamente rentáveis com campanhas exclusivas) aos seus perfis no Facebook (“fulano ficou fã da gente” era o sonho de muito diretor de marketing deslumbrado) e, claro, seus Twitters com centenas de milhares de seguidores pagos a preço de ouro pela mensagem (maioria da audiência feita a base de scripts, spammers e garotas de programa, mas tudo bem. O número é o que importa, certo?).

Mas os superhomens e supermulheres da mídia social, sempre tão críticos e ácidos em relação aos velhos e bons dinossauros da velha mídia (jornais, revistas e até mesmo sites de notícias 1.0 eram jurássicos, eles apontavam o dedo pra jornalista que tinha o azar de cobrir algo que eles estavam), tinham seu ponto fraco:  eram bons apenas na hora de se comunicar com os outros pelas próprias mídias sociais. Fora dali, eram nada. Na hora de sair da frente do computador ou da telinha do celular, tudo mudava.

Festa atrás de festa, evento após evento, tudo ficou evidente para os deslumbrados (e trouxas) que pagavam o cachê. Eles apareciam, fotografavam, tuitavam, comentavam dos seus smartphones ultraconectados. Mas não tinham nenhum traquejo para a vida social de verdade. Bastava aparecer um humano de verdade, uma pessoa interessante, porém offline, que os midiáticos sociais desabavam. E, ainda que num sentido um tanto distinto, se provavam seres antissociais. Na hora de passar a mensagem, serviam bem. Mas não conseguiam recebê-la de um ser humano sem texto pré-formatado.

Teve um dia, ah, memorável. Foram todos convidados para um festão. Celebridades estavam lá para tuitar ao vivo e debater como era o uso da tecnologia entre os famosos. E os heróis sociais estavam lá, informando tudo e todos do que acontecia.

Só teve um porém. Os donos das empresas que pagavam viagens, anúncios, festas, almoços e oba-obas relacionados, estavam lá. Os caras que criavam produtos também, engenheiros, marketeiros, assessores de imprensa, que sempre fingiam interesse na vida e obra dos seres iluminados, tomaram umas doses de champanhe a mais. E foram conversar com os seres superiores.

Que decepção. Todos os “heróis” foram se acanhando, com distinção de um ou de outro, que se destacaram e falaram com todos, fizeram contatos e viveram felizes para sempre. O resto se juntou num grupinho no canto da festa (não iam perder esse festão, afinal) e de lá não saiu pelo resto da noite. E ainda os até então queridinhos se decepcionaram com a falta de brindes na saída. Os seres sociais tinham mostrado, finalmente, seu lado verdadeiro anti-social. Justiça foi feita e, claro que eles não perderam o patrocínio, mas todo planejador de mídia com dois pés no chão passou a vê-los como eram, não o que representavam.

Por isso quando sempre alguém me pergunta sobre como começar algo na internet, a resposta é sempre a mesma: crie relacionamentos  – não só com uma pessoa, mas conheça gente nova. Faz bem na maioria das vezes.

Sobre o autor

Henrique Martin

Henrique Martin já escreveu na PC World, PC Mag, Folha de S. Paulo e criou o Zumo em 2007. Em 2011, o Zumo se transformou no ZTOP, referência em conteúdo original sobre tecnologia em um mundo pós-PC. Siga-o no Twitter: @henriquemartin

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