IA para saúde depende de dados qualificados

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Especialistas reconhecem o valor da inteligência artificial para o avanço da medicina, mas ainda existe muito trabalho a ser feito na área de prontuário eletrônico.

Assim como diversas áreas do conhecimento humano, o mundo da tecnologia vive de chavões (ou buzzwords, como dizem os anglicanos) sendo que um deles resiste bravamente nesta lista a vários anos — a Inteligência Artificial (ou Artificial Intelligente como dizem esses mesmos anglicanos) — …

… e apesar de muita gente ainda confundir isso com robôs assassinos vindos do futuro essa tecnologia veio para ficar e — a cada ano — torna-se sim cada vez mais presente na vidas das pessoas com a promessa de um futuro melhor para a humanidade (ou nem tanto, diga-se passagem).

Mas ficando do lado dos otimistas, uma das áreas onde a IA promete revolucionar de maneira marcante é no setor de medicina e saúde, onde ela pode ajudar tanto na prevenção quanto no diagnóstico de doenças a um menor tempo a custos menores, desenvolvimento de novos medicamentos, auxílio à telemedicina, etc.

Mas o que de fato está sendo feito com IA em nosso País tanto no setor público quanto privado e o que falta para chegarmos lá?

Esse foi o tema de um painel realizado durante o primeiro dia do Hackmed Conference & Health Hackaton que aconteceu no final da semana passada na cidade de São Paulo cujo tema era Como a Inteligência Artificial pode mudar o futuro da Medicina

… e que contou com a presença dos seguintes convidados (a partir da esquerda):

  • Jacson Barros: Diretor do Departamento de Informática Médica do SUS no Ministério da Saúde.
  • Gisselle Ruiz Lanza: Diretora Geral da Intel Brasil.
  • Paulo Hoff: Diretor Geral do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo e Chefe da Oncologia Rede D’Or.
  • Margareth Amorin: Especialista da SAP no setor de saúde e responsável pela área no Brasil que, na última hora, substituiu Cristins Palmaka CEO da SAP Brasil.
  • Paulo Chapchap: Diretor Geral Hospital Sírio-Libanês.
  • Edgar Rizzattii: Medical and Technical Executive Director do Grupo Fleury.
  • Fábio JateneProfessor Titular da Disciplina de Cirurgia Cardiovascular da FMUSP e Coordenador do InovaInCor (e que também fez o papel de mediador do painel.)

Impacto da IA na prática (da medicina)

Para dar inçio ao diálogo Jatene partiu do básico e perguntou para os debatedores no que a IA irá impactar nas suas vidas profissionais e quem respondeu primeiro foi Rizatti que entende que essa tecnologia pode funcionar “aumentando a nossa inteligência” e ampliando a quantidade (e a qualidade) das informações, que chegam aos profissionais de saúde de maneira pré-analisada, evitando assim a realização de tarefas repetitivas ao mesmo tempo que vai dar mais tempo para o profissional interagir com seus paciente e tratar de outras coisas que realmente fazem a diferença na medicina, de modo que a prática da medicina se tornará uma atividade mais social e humanizada sendo que a IA será o grande habilitador dessa idéia.

Chapchap acredita que a IA irá ajudar a combater dois grandes problemas que existem hoje na área de saúde: A primeira seria a exclusão e a segunda a imprecisão, sendo que a resolver esses dois problemas permitirá o acesso a saúde de qualidade para parcelas maiores da população cuja tendência atual é o contrário devido as diferenças sociais e o envelhecimento da população.

Fora isso, ele observa que os ambientes hospitalares são locais de alto risco para os pacientes, citando como exemplo o fato de que a terceira maior causa de mortes nos hospitais americanos são os chamados erros médicos no ambiente hospitalar logo atrás das doenças cardio e cerebrovasculares e o câncer.

Daí a possibilidade de agregar cada vez mais tecnologias que permitam maior acesso, eficiência e maior precisão em diagnósticos e nos tratamentos, em especial a capacidade de relacionar milhares de diferentes patologias com milhares de diferentes condições genéticas, tratadas por milhares de diferentes pessoas com suas diferentes competências podem levar problemas de imprecisão na aplicação dos tratamentos, de modo que a combinação da medicina com a tecnologia podem vir para resolver isso.

De fato ele até afirma que daqui a algum tempo, os médicos irão olhar para trás e pensar como é que eles conseguiam trabalhar sem esses recursos de interação e capacidade de analisar dados.

Como uma profissional da área de tecnologia, Margareth explicou que um dos objetivos de uma empresa como a SAP é a de melhorar a vida das pessoas e usar todas as tecnologias da sua empresa — como IA, Block Chain, IoT, Advanced Analytics, aprendizado de máquina, etc. — para alcançar esse propósito, o que inclui a área de saúde é claro!

Ela cita o exemplo do uso da tecnologia de aprendizado de máquina que pode ser usado para auxiliar na tomada de decisão e no suporte da conduta médica sendo que, em hipótese alguma, haverá a substituição do médico (de carne e osso) servindo mais como um auxiliar para a sua prática profissional, em especial no caso de diagnósticos por imagens onde o computador é capaz de identificar detalhes milimétricos que podem ser a indicação e/ou início de uma doença, sendo que o sistema pode se tornar cada vez mais preciso com o uso do aprendizado de máquina, permitindo assim que o médico possa tomar medidas preventivas para minimizar os efeitos desses males.

Já do ponto de vista de um gestor, Hoff afirma que as tecnologia de IA na medicina tem duas facetas: A primeira delas é que ela é complementar ao trabalho médico e a outra é que ela é sim substitutiva — ou seja — a gente até pode mascarar, pintar de outra cor mas fato é que uma parte da inteligência artificial será substitutiva ao trabalho médico, afirma o executivo.

Ele afirma que essa parte de complementação já existe no mercado sendo que já não existe praticamente nenhuma clínica ou hospital que já não utilize algum tipo de ferramenta de IA para melhorar o conhecimento imediato do médico de modo que eles não precisam de ter uma coleção de informações guardadas dentro do nosso cérebro para a prática da profissão já que tudo está disponível no computador, já que ele facilita em muito a distribuição de informações de maneira mais complementar e acessível a todos.

Mesmo na área cirúrgica além do uso de recursos robóticos, haverão algoritmos que vão ajudar os cirurgiões a operar melhor ainda, ajudando a evitar erros durante os procedimentos.

Mas qual o problema atual nisso? — Hoff cita um recente estudo americano que mostrou que um médico numa consulta de 20 a 25 minutos está gastando 16 minutos na entrada de informações num prontuário eletrônico o que é algo preocupante, já que esse procedimento pode ser moroso e até frustrante para o médico já que ele pode achar que ele poderia aproveitar melhor o seu tempo interagindo com o paciente do que preenchendo formulários no computador.

O grande problema nesse caso é que esses dados formam o chamado Big Data que serão usados criar bons algoritmos bons algoritmos que serão usados nas aplicações de IA — ou seja, dados “ruins” poderão gerar algoritmos ruins e, consequentemente numa IA ruim.

Resumindo: Hoff afirma que o maior motivo de frustração médica nos EUA está exatamente com o prontuário eletrônico pela dificuldade na entrada dos dados de modo que ele diz que todos devem colaborar para melhorar esse processo — em especial na inserção de dados — que irá gerar uma boa base de dados, que irá gerar um bom Big Data, que irá gerar um bom algoritmo, que irá gerar uma boa ferramenta de IA que finalmente irá ajudar a estender o conhecimento médico!

Já no que se refere parte substitutiva, ele diz que a China (até pela falta de médicos) já está trabalhando nessa área, liberando as primeiras cabines de consulta onde o paciente é atendido por um robô que até emite receitas!

Se isso é bom ou não é bom eu não sei. Se isso melhora ou não melhora a humanização tenho certeza que piora.” conclui o executivo, de modo que para ele manter a humanização e o controle do ser humano sobre a máquina será o grande desafio nessa segunda etapa.

Assim como Margareth da SAP, Gisselle da Intel é uma representante da indústria de tecnologia e, como tal, também tem como um de seus objetivos resolver os grandes problemas da humanidade e que a inteligência artificial é parte integrante dessa estratégia.

No caso da medicina, ela acredita que a IA nos levará para uma verdadeira revolução na personalização dos tratamentos e também uma oportunidade para melhorar a assistência e o acesso a saúde o que é um grande desafio para diversos países do mundo — incluindo o Brasil.

Finalmente como representante do governo (ou mais exatamente do Ministério da Saúde), Barros afirma que o SUS é para todos e que ele não vê diferenças do uso de IA no setor público ou privado e se não juntarmos esses dois mundos nosso País nunca irá alcançar o chamado “Brasil profundo” formado por diversos “Brasis” que possuem realidades distintas com características e demandas próprias.

Ele afirma que o Ministério da Saúde tem tanta informação armazenada em seus supercomputadores que eles mal conseguem olhar para elas, de modo que antes de debater IA é preciso antes falar sobre a disponibilidade da informação sendo que existe muita gente interessada em ter acesso as nossas bases de dados.

De fato, nenhum país do mundo tem tanta informação médica consolidada em um só lugar como no Brasil afirma o executivo — só que, infelizmente — somos incapazes de processá-las.

Assim, uma das prioridade do atual governo é fazer com que essas informações voltem para os estabelecimentos de saúde nos estados e municípios para que eles ai sim possam gerar inteligência para a gestão tanto interna quanto da própria gestão pública.

Com relação a inteligência artificial, hoje ela é condição sine qua non para uma boa administração. Porém Barros acredita que muita atenção tem sido dada a tecnologia e pouca à gestão das pessoas e em especial treinar as pessoas a olharem esses dados representados de maneiras até bem simples como interpretar a curva de um gráfico e tirar uma conclusão em cima disso.

Fora isso, a estratégia do governo com IA é de equilibrar a chamada “oferta e demanda” porque há um imenso desequilíbrio numa área onde o objetivo é bem simples: levar a saúde para quem realmente precisa no momento em que ele está precisando.

Esse é o nosso papel e nisso não vejo diferenças entre o setor público e o privado, concluiu o executivo.

De zero a dez, nota onze (pero no mucho!)

Para animar o debate Jatene perguntou para os participantes que nota eles dariam para a importância da IA (de 0 a 10) sendo que a média ficou em 10 pontos. Não porque todos deram a mesma nota e sim porque Hoff deu um 11 e Rizzatti uma nota 9.

Isso nos leva a crer que o consenso entre os debatedores é que IA é uma coisa bárbara e a salvação para todos os nossos males.

Porém diante de tanto otimismo, Jatene questionou o grupo se eles enxergavam o risco de algo dar errado com IA e ela se transformar num grande fiasco — ou uma grande fake news — como já aconteceu no passado com grandes promessas da ciência como o DDT, a fusão a frio ou o bug do milênio.

A resposta de Paulo Hoff é que sim isso é possível e já está dando errado.

Isso porque é muito fácil treinar um algoritmo com dados enviesados, bastando para isso só alimentá-lo com informações racistas e sexistas (alguém se lembra de Tay?) e isso sem falar nos estímulos econômicos que, se implementados sem nenhum critério ético ou moral, podem levar a resultados desastrosos de modo que é muito importante a presença humana nos resultados do algoritmo é fundamental e as agências regulatórias terão que analisar os algoritmos, em especial aqueles que sejam prescritivos (que emitem receitas médicas).

Dai novamente a importância de alimentar os sistemas de IA com dados de alta qualidade de livres de más influências e/ou interesses comerciais e que isso seja feito da maneira mais fácil e descomplicada possível, já que, como foi citado antes, um dos maiores motivos de burnout entre os médicos americanos é o preenchimento do prontuário eletrônico e na área que você menos espera que é na atenção primária, que são aqueles profissionais que ficam na linha de frente que precisa atender o paciente no menor tempo possível e ainda tem que brigar com um prontuário que ele considera pouco amigável, o que pode gerar dados ruins para o sistema.

Outro exemplo citado no debate é o uso da ferramenta errada pelo público errado, caso do MD Anderson Cancer Center que implementou uma ferramenta de IA no seu prontuário para ajudar seus médicos na decisão de processos e que foi descartado em pouco tempo.

Isso porque a ferramenta era voltada para ajudar profissionais com um conhecimento geral a se aprofundar numa área de especialização (nesse caso, cancer) o que foi aplicado num contexto onde todos os médicos eram extremamente especializados nessa doença — ou seja — dinheiro jogado fora.

Agora, disponibilize essa ferramenta numa clínica no interior de Roraima onde existe apenas um oncologista para atender toda a população e imaginem o bem que ele pode fazer com ela.

Elizabeth também comentou que também precisamos nos preocupar com a segurança e a acuracidade dos dados pessoais dos pacientes cuja privacidade deve ser protegida a todo custo.

Mas ao mesmo tempo precisamos reconhecer que existe um grande valor nessas informações para a indústria (tanto de equipamentos quanto de medicamentos) já que eles precisam saber se os resultados dos tratamentos realizados com seus produtos estão dentro do esperado e, caso negativo, essas informações tornam-se ainda mais relevantes para ajudar a identificar os erros e corrigí-los resultando assim em produtos e tratamentos cada vez melhores.

Matéria prima para IA

No geral, o consenso desse painel é que estamos numa espécie de jornada do uso dos dados, ou seja, não adianta falarmos de IA se antes não tivermos uma boa matéria prima que seriam os dados— e dados qualificados não surgem do nada — de modo que as pessoas que entram com esses dados não fazem a menor idéia do valor desse trabalho e para que elas serão utilizadas.

Jacson Barros disse que a qualidade dos dados administrativos do Ministério da Saúde é boa e são os mais utilizados por quê? — Ou você me manda os dados direitinho ou a gente não te paga! — simples assim.

Esse modelo também está sendo usado em um novo teste piloto de unidades de atendimento primário na saúde, cuja liberação de novos recursos estará diretamente vinculado ao recebimento dos dados gerados pelo prontuário eletrônico — novamente, ou você me manda os dados direitinho ou a gente não te paga! — simples assim.

E a idéia é que esse modelo seja aplicado nas mais de 40 mil unidades básicas de saúde, o que representará uma quebra de paradigma que irá gerar uma melhor qualidade dos dados.

O problema é que “como a gente não confia em nada e já parte do pressuposto que todo mundo faz algo errado, a gente cria uma burocracia que dificulta a obtenção desses dados” comentou Barros.

Um bom exemplo disso é o caso do programa de Farmácia Popular onde o governo investe algo em torno de R$ 300 milhões por mês e o ministério não tem a mínima idéia da sua eficácia e o quanto desse investimento está realmente evitando que uma pessoa vá para o hospital.

A boa notícia é que esses dados começam a ser cruzados com outras bases de dados (como bem estar e educação) e os resultados serão usados para pensar em saúde de maneira estratégica.

Talvez um dos grandes objetivos dessa jornada do uso de dados (pelo menos no Brasil) é a consolidação de todos os dados de saúde de todos os brasileiros em um cadastro único

Para isso haverá um decreto de lei que obrigará todos os estabelecimentos de saúde — seja ele SUS, privado ou público — a se conectarem à Rede Nacional de Dados de Saúde (RNDS) que já está no ar o projeto piloto será no estado de Alagoas por meio de um programa batizado de Conecte SUS. A previsão é que esse projeto seja implementado no resto do País em maio de 2020.

Nesse primeiro momento esse sistema irá trabalhar com cinco grandes conjunto de informações: Atendimento, sumário de alta, medicamentos usados, vacinas e exames realizados.

Barros reconhece que não é um grande prontuário, mas se trata de um início para começarmos a pensar diferente — como por exemplo usar o CPF para identificar os usuários do SUS.

Sobre o autor

Mário Nagano

Desde o século passado Mario Nagano analisa produtos e já escreveu sobre hardware e tecnologia para veículos como PC Magazine, IDGNow!, Veja e PC World.
Em 2007 ele fundou o Zumo junto com o Henrique assumindo o cargo de Segundo em Comando, Editor de Testes e Consigliere.

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