Huawei Mate 30 Pro: como tentar viver sem Google

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O Huawei Mate 30 Pro, como todos sabemos, é o primeiro smartphone da marca anunciado após as sanções dos EUA contra a Huawei, resultado da disputa comercial entre os Estados Unidos e a China. O aparelho roda Android, mas vem sem os serviços do Google instalados.

É um smartphone com um dos melhores designs de 2019 (junto com o Samsung Galaxy Note 10, ambos dificílimos de fotografar por causa do acabamento espelhado na parte traseira), rápido e com uma câmera que promete fazer coisas incríveis.

Update 25/10: consegui instalar os Google Mobile Services (via um modo… alternativo) no Mate 30 Pro.

Vale sempre lembrar que a Huawei não tem previsão de lançar o Mate 30 Pro no Brasil.

Porém, o fato de não ter os serviços do Google significa não ter acesso à loja Play Store e downloads de apps (e suas atualizações automáticas).

A recomendação oficial é usar a Huawei App Gallery (já com mais de 11 mil apps disponíveis, segundo a fabricante, e usada por mais de 390 milhões de pessoas no mundo todo), mas existem outras alternativas.

Mate 30 Pro: ligando o aparelho

Recebi o Mate 30 Pro ontem (09) à tarde na sede da Huawei em São Paulo. É um modelo 4G com software chinês, 8 GB de RAM/256 GB internos, processador Kirin 990.

alertas dentro da caixa de um smartphone de testes

Durante a reunião, liguei o telefone sem configurar rede nem nada. Apenas cadastrei a impressão digital para desbloquear a tela (muito rápido, por sinal). Uma tela inicial com ícones que achei conhecidos/reconhecíveis (como galeria de fotos e navegador), a segunda tela lotada de ícones em chinês. Acabou a apresentação, tomei um sorvete e peguei o caminho de casa.

Esse é parte do conteúdo dos aplicativos pré-instalados no Mate 30 Pro (aqui o horário estava errado ainda – foi antes de me conectar à internet):

No sossego do lar, quase uma hora depois, conectei à rede Wi-Fi, tomei a decisão executiva de apagar todos os apps com caracteres chineses e resolvi checar a App Gallery, que me pediu login e senha da conta Huawei e ofereceu para baixar mais apps em chinês (que ignorei) logo de cara. Mas deveria ter feito isso primeiro, já que o login fez com que o aparelho entendesse que estou no Brasil e trocou a região da loja para cá.

Depois, seguindo a orientação tradicional em um telefone novo – e sem nada do Google para recuperar na nuvem meu backup – usei a ferramenta da Huawei (Phone Clone) para transferir dados do P30 Pro para o Mate 30 Pro.

Demais fabricantes, aprendam. É o melhor app de migração que já usei (ao menos para passar dados de um aparelho da mesma marca para outro). Vieram contatos, músicas, fotos, configurações do sistema e, mais importante, um monte de aplicativos que eu já tinha instalado, em menos de dez minutos (total: 29 GB de dados).

Nesse momento, acreditei que grande parte dos meus problemas sem Google se resolveriam.

Um monte de apps veio na migração, tive um pingo de esperança. Até os dados do Huawei Watch GT2 vieram (mas precisei parear o relógio novamente – uma vez que o app Health esteja instalado em qualquer telefone e conectado a um aparelho – aqui está no Note 9, no P30 Pro e agora no Mate 30 Pro – os dados sincronizam via nuvem muito rápido).

O Mate 30 Pro organizou minha tela inicial igual à do P30, com uma tela principal com cinco pastas e uma segunda tela com duas pastas e alguns apps. Só não migrou o fundo de tela.

O que foi migrado:

  • Pasta 1 (apps de mobilidade): de 11 apps, 6 vieram
  • Pasta 2 (apps de trabalho): de 26 apps, 17 vieram
  • Pasta 3 (som e vídeo): de 29 apps, 17 vieram
  • Pasta 4 (social media): de 12 apps, 7 vieram
  • Pasta 5 (mensagens): de 8 apps, 6 vieram
  • Pasta 6 (apps da Huawei): de 12 apps, vieram os 12
  • Pasta 7 (apps financeiros): de 16 apps, vieram 8.
  • mais 11 apps que estavam na tela e não tinha organizado em pasta ainda

Total: 84 apps migrados de 125 instalados no P30 Pro.

Alguns aplicativos aleatórios apareceram na segunda tela do Mate 30, incluindo dois Facebook (sem ícone oficial, apenas um android verde genérico que, ao ser clicado, levava a lugar nenhum) e dois apps da Samsung (Gear IconX e Galaxy Wear).

Mas a migração em si não significa que os aplicativos vão funcionar – muitos precisam do Google Play Services para rodar, como o Uber e o 99 (dica/questão: Huawei, por que apenas o 99 para Motoristas está disponível na App Gallery?).

Aparece uma mensagem assim:

Apps da vida

Pausa para uma lista dos aplicativos que eu preciso ter em um smartphone para funcionar como ser humano no dia a dia:

  • um cliente de e-mail
  • câmera
  • WhatsApp e Telegram
  • Calendário do Google
  • Twitter
  • Uber
  • VPN
  • reprodutor de MP3
  • Navegador web (Firefox ou Samsung Internet ou o que estiver disponível)
  • App do MailChimp
  • Google Drive
  • Google Apps (ou apps do Microsoft Office 365)
  • um teclado decente (Swiftkey ou Gboard)
  • Google Photos (para backup automático das fotos)
  • capacidade de transmitir para o Chromecast
  • Gerenciador de senhas (1Password)

Opcionais úteis, mas que consigo viver sem:

  • Moovit
  • Google Maps
  • Instagram
  • Netflix / Amazon Prime Video / YouTube
  • TikTok
  • Spotify
  • Google Fit
  • Photoshop Express / Snapseed / VSCO ou outro app de edição de imagem

Existem outros apps pontuais – de cias. aéreas, bancos, jogos – que não listei aqui porque estão ativados em outros aparelhos (como os de banco e sua burocracia para colocar em novos smartphones) ou não preciso deles agora (cias. aéreas).

Hora de ir para as lojas alternativas

Apesar do domínio do Google Play em apps (e sua facilidade de uso imensa), existem lojas alternativas de apps com arquivos de instalação.

Encontrei três no caminho (e mais duas no Twitter por indicação de seguidores), além da Huawei App Gallery:

  • Amazon App Store (que eu já usava e veio na migração, não precisa de Play Services),
  • Aptoide (instalei o app pelo navegador)
  • Uptodown (que demorei a instalar o app porque a página deles parece um site pornô descontrolado de 2008 e você não sabe onde clicar nas áreas que não são anúncio).
  • APK Pure (instalei o app pelo navegador)
  • F-Droid (instalei o app pelo navegador)

Não vou partir para alternativas esotéricas (e controversas) de instalar por fora o Google Play Services. Ainda mais porque essas alternativas estão offline ou são complicadas demais (ou offline e complicadas!).

Ontem à noite recebi uma notificação do pessoal da Huawei América Latina para atualizar o Mate 30 Pro. Atualizei e aproveitei para ver, da lista de apps migrados, quais estavam funcionando e quais não estavam.

Dos 84 aplicativos migrados, 12 não funcionaram – seja pela falta de Google Play Services (como 99, Uber, Cadê o Ônibus, Google Opinion Rewards, Airtable, VSCO, Adobe Scan, Google Tarefas), por motivos desconhecidos (abrem e fecham, como Air France, AR Ruler), por ser código antigo (Bejeweled 2) ou por dizer que o aparelho não é compatível com o app (Netflix).

Em um momento de “apertei um botão no lugar errado”, troquei o teclado nativo para o chinês (!), mas consegui instalar o SwiftKey depois.

Coloquei todos os apps com problemas em uma pastinha:

Hoje cedo teve mais um update (agora com a EMUI versão 10.0.0.132).

Mate 30 Pro: breve conclusão

Com ajuda das lojas, acredito que resolvi 90% da minha lista de prioridades de aplicativos lá em cima – vale lembrar que essas appstores alternativas têm muita porcaria.

Uma lição é clara para quem vive no mundo ocidental: depender de um fornecedor de tecnologia apenas é problemático demais quando esses serviços – por questões relativas a interesses comerciais de nações, não do consumidor que não tem nada a ver com isso – afetam a vida da gente. Somos dependentes demais de poucas empresas de tecnologia.

Usar o Mate 30 Pro faz pensar: e se acontece alguma coisa e o Google deixa de funcionar? Minha vida digital está toda lá – todas minhas fotos dos últimos 15 anos, e-mails pessoais e de trabalho, registros de domínios, locais que visitei. Eu dependo do Google, em resumo. Você também, leitor.

Mas voltando ao tema principal. Essa é a minha tela inicial agora e os apps instalados:

No momento, não tenho o app do Uber (mas dá para pedir um carro via navegador, o que é ótimo) e ainda preciso descobrir como sincronizar o calendário nativo do telefone com o meu calendário do Google (para e-mail, o Microsoft Outlook não funcionou porque precisa do Chrome instalado no smartphone, agora estou usando o cliente nativo da Huawei).

Em caso de emergência, o navegador (o excelente Samsung Internet Beta) está conectado à minha conta do Google e consigo acessar os serviços necessários por lá (Drive, o próprio Gmail, calendário).

Usar o Mate 30 Pro no mundo real já é possível, mas não é para qualquer um. Ainda estou pensando quando vou colocar meu SIM card nele e se migro o WhatsApp (o app funciona, mas não sei ainda como vai lidar com os backups no Google Drive) – provavelmente durante o final de semana. De qualquer forma, vou tentar usar o Mate 30 Pro nos próximos dias como meu aparelho principal.

Configurar o Mate 30 Pro deu trabalho (sentimentos da época de 2008 quando o Android era muito mais complicado de usar, ou quando tentava usar tablets no mundo pré-iPad). Dá para usar? Sim, mas não vou arriscar sair de casa sem um smartphone reserva em caso de emergência.

Update 25/10: Google Mobile Services rodando tranquilo. Isso é assunto pra outra hora.

Sobre o autor

Henrique Martin

Henrique Martin é o fundador do ZTOP+ZUMO e da newsletter de tecnologia Interfaces. Já escreveu na PC World, PC Magazine, O Estado de São Paulo, Folha de S. Paulo e criou o ZTOP+ZUMO em 2007, referência em conteúdo original sobre tecnologia em um mundo pós-PC.

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