CES Asia 2016: Duas visões diferentes de futuro

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No primeiro dia da CES Asia 2016, Huawei e Intel fizeram seus (já tradicionais) discursos sobre tecnologia e futurismo. Mas, no fim das contas, as visões são bem distintas entre as duas companhias.

Huawei

A manhã começou com o keynote de Kevin Ho, presidente da unidade de dispositivos móveis da Huawei. A promessa era falar sobre como a Huawei vê o futuro – e é uma visão bem sombria.

Para quem não conhece, a Huawei é fabricante de produtos de infra-estrutura de telecomunicações e terceira maior vendedora de smartphones no mundo, atrás apenas da Apple e da Samsung – isso porque já entraram e saíram do mercado brasileiro de celulares várias vezes, sem muito sucesso.

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Ho – falando em chinês, com tradução simultânea neurótica para o inglês – citou vários exemplos de como seria assustador para um homem de 1.000 anos atrás se viajasse no tempo e viesse para 100 anos atrás. Ou como o homem de 100 anos atrás se comportaria hoje. 

“Seria assustador para esse homem”, repetiu Ho, várias vezes. Tudo isso com uma dose de Ray Kurzweil e sua teoria das mudanças aceleradas (mais inovação, mais progresso, mais mudanças rápidas e profundas no futuro, em resumo).

“A taxa de mudança está se tornando cada vez mais curta. Com tantos ciclos de inovação, fica difícil imaginar o futuro. A próxima fase de mudança, em 25 anos, é um distante ponto de preocupação, mas até lá a morte não será mais um problema, já que a vida estará no próximo ciclo de mudanças”, afirmou. Enquanto isso, o powerpoint no telão, cheio de cores escuras, ajudou a dar um tom sinistro.

E foi além: “Vamos atingir a imortalidade física, unindo homem e máquina, usando órgãos artificiais, chegando a uma imortalidade espiritual com nosso eu digitalizado. Você vai salvar a trajetória da sua vida, com a informação analógica dentro de um novo mundo digital paralelo. É um avanço enorme”. (Matrix, alguém?). “Teremos um mundo digital paralelo com uma sociedade física formada”.

É interessante ver um fabricante de infra-estrutura e smartphones falar algo assim ousado. Kevin Ho ainda apresentou conceitos do que será necessário para chegar a esse mundo físico-digital – necessidade de banda de internet, armazenamento cada vez maior, uso de tecnologias individuais e de segurança, tudo indo para a nuvem, muito rápido.

Depois disso, o executivo disse, claro, que a Huawei está pronta para executar cada passo descrito anteriormente, cumprindo o ritual clássico de vender seu produto/conceito em uma apresentação desse calibre.

“Claro que isso que falei são discussões internas ainda. Mas acreditamos que toda a sociedade e os indivíduos vão se desenvolver nesse futuro. Se quiser fugir e morar nas montanhas, tudo bem. Saiba que o desenvolvimento tecnológico não pode ser interrompido”, concluiu. “Não dá para imaginar o futuro com certeza, mas não podemos parar de explorar as possibilidades”.

(e aí todo mundo chorou de medo deitado no chão da sala de conferências. brincadeira).

Intel

Fui cético ao keynote da Intel, no fim do dia. Nagano suspeitava que iam anunciar alguma coisa nova e pediu pra eu verificar. Não teve um grande anúncio, mas foi um grande show de entretenimento tecnológico para mostrar que “internet das coisas” já é algo bem real. 

Teve até um pré-show de artes marciais combinadas com tecnologia (na foto que abre este post): a atleta usou braceletes e tornozeleiras com tecnologia Intel Curie que interagiam em tempo real com o telão, criando efeitos incríveis.

E entrou no palco o veterano Josh Walden, vice-presidente do grupo de novas tecnologias da Intel. Aí embaixo ele tem um chip Curie na mão.

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E foi muito interessante ver a guinada do discurso da Intel durante a apresentação. A Intel sempre falava, com pompa e circunstância, de como suas soluções x86 eram incríveis para PCs e smartphones. Agora, com o fim da linha Atom para dispositivos móveis, o negócio é tocar a bola pra frente e falar de internet das coisas e o que mais tiver para pensar no futuro.

O executivo até citou chips Core i7 para notebooks/desktops no meio das demonstrações, mas nada demais.

Voltando ao tema, a apresentação da Intel foi sobre como já temos muitas soluções prontas de internet das coisas. “Estamos em uma explosão cambriana da computação, com tudo com sensores integrados. Em 2020, teremos 50 bilhões de dispositivos conectados. Mas o que isso significa?”, afirmou Walden.

“O que importa agora não é mais o dispositivo ou produto, mas a experiência feita para mim. Os consumidores querem melhores experiências”, disse, definindo três tendências que movem a tecnologia hoje:

  • mundo inteligente e conectado (=smartphones, dãa)
  • tudo com sensores (internet das coisas)
  • tecnologia que amplia minhas capacidades (=faço mais com isso)

Walden falou – e demonstrou – rápido novas soluções com tecnologia Iris Pro para games (e vendeu o peixe do Intel Extreme Masters em Shanghai no segundo semestre). Falou também de soluções para saúde e bem-estar, como os produtos da Recon Instruments, uma empresa da própria Intel que cria óculos de realidade aumentada para esportes (ciclismo, ski etc.). Citou uma parceria de telemetria com o canal ESPN para mostrar o desempenho em tempo real de atletas – e fez uma demo em tempo real com uma dupla de skatistas.

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Ainda no uso cotidiano de produtos com Curie integrado, veio ao palco Yao Yingjia, vice-presidente de “smart lifestyle” na Lenovo, para uma demonstração do protótipo de… tênis conectado da Lenovo. Além de LEDs piscantes (desculpa pra todo adulto que quer tênis com luzinha, claro), os sensores no calçado podem interagir com apps e jogos – um game de corrida, por exemplo. Divertido, mas ainda sem muita aplicação no mundo real.

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No final, a apresentação da Intel ainda teve demos de “operário conectado” (um bombeiro em situação de risco em que não consegue falar, mas envia, via gestos, mensagem para a central) e de novas soluções vindouras de Realidade Virtual com tecnologia Real Sense integrada – basicamente para imergir o gamer de VR no título com as próprias mãos. Tem também um drone com Real Sense que consegue “ver” e desviar de obstáculos, com árvores. E acabou com uma demo musical (também com ajuda de Curie).

Moral da história: a Huawei apresentou uma visão distópica do futuro distante, a Intel trouxe soluções do mundo real para um futuro mais próximo.

***

Bônus track: vi no estande da Huawei o novo smartphone P9, novo topo de linha da fabricante. Que coisa linda, com chances mínimas de ser lançado no Brasil.

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Sobre o autor

Henrique Martin

Henrique Martin é o fundador do ZTOP+ZUMO e da newsletter de tecnologia Interfaces. Já escreveu na PC World, PC Magazine, O Estado de São Paulo, Folha de S. Paulo e criou o ZTOP+ZUMO em 2007, referência em conteúdo original sobre tecnologia em um mundo pós-PC.

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