Números enormes (2): Lenovo compra Motorola

N

Em 2011, quando o Google comprou a Motorola por US$ 12,5 bilhões, escrevi duas coisas importantes que se provaram reais hoje com o anúncio da venda da Motorola (de novo) para a Lenovo por US$ 2,9 bilhões.

1) isso tem a ver com a guerra de patentes em torno do Android. Motorola tem patentes importantíssimas de telefonia e comunicações. Desse modo, o Google se protege (e vai ao ataque contra Apple e Microsoft).

2) Google comprando fabricante de hardware? Isso é NOVO. Pensando no ponto de vista das patentes, tem lógica. E teremos mais aparelhos Android “puros”, sem intervenções bizarras (Motoblur, Timescape) e desnecessárias. Desse jeito, o Google também controla hardware + software + serviços (lembra uma certa empresa com nome de fruta, certo?)

O ponto 1 se torna real (e triste). As patentes todas ficam com o Google, que continua protegido na guerra de patentes (mais sobre isso adiante).

Quem ganha? 
A Lenovo compra uma fabricante de hardware que criou produtos muito interessantes nos últimos anos (destaques para o Razr i, do Moto X e do Moto G), mas não vingou muito em vendas. Reza a lenda que a Lenovo queria comprar mesmo era a Blackberry, mas o Canadá não deixou.

Comprar uma companhia americana não é novidade para a Lenovo. Em 2005, compraram a divisão de PCs da IBM e hoje a Lenovo é número 1 em vendas de PCs/notebooks no mundo. Mantiveram o espírito ThinkPad (e a qualidade dos produtos) e vão fazer o mesmo com a Motorola. Já deu certo uma vez, não tem motivo para não repetir essa estratégia.

Além de fábricas, engenheiros e produtos, a Motorola tem ótimos relacionamentos com operadoras nos Estados Unidos e América Latina, e abre uma porta enorme para a Nova-nova-Motorola ganhar mercado nessas áreas. A Lenovo é forte em smartphones na Ásia, e a adição da Motorola é só mais um ponto adicional para a Lenovo virar um monstro nos smartphones.

O que faz pensar que, para o mercado brasileiro, nada muda com essa troca de mãos (a não ser um susto em todo mundo que trabalha lá, claro).

A Motorola ganha mercado global em um clique, sem perder funcionários (foi o que disse a Lenovo agora na conferência por telefone) ou seu espírito. “Motorola é um tesouro”, disse Yang Yuanqing, executivo-chefe da Lenovo.

Na conferência por telefone, a Lenovo citou diversas vezes a América Latina, mas não citou a CCE, aquisição local e que atua também no mercado de entrada de smartphones e tablets Android.

Nada deve mudar e a CCE deve se manter como marca de entrada (como ficou na área de notebooks) de baixo custo. “Sem mudança. Manteremos marcas Lenovo e Motorola juntas no Brasil. É muito cedo para falar qualquer outra coisa”, comentou Yuanqing. (Curiosidade: Motorola ficou por anos no mesmo conjunto de escritórios em São Paulo, na Vila Olímpia, onde estava até pouco tempo atrás a Lenovo, que foi pra uma sede única com a turma da CCE).

lenovo-motorola

Larry Page, CEO do Google e Yang Yuanqing, da Lenovo (divulgação)

E o Google?
Chegamos ao item 2 da minha análise de 2011.

Não dá certo. Primeiro motivo: Google aprendeu na marra que fazer hardware não é simples e barato como comprar uma Motorola seria.

Dá prejuízo (sempre é bom lembrar que no ultracompetitivo mercado de hardware Android quem ganha dinheiro é a Samsung – e Sony, LG e Lenovo em escala bem menor). Se envolver com hardware, mesmo que de forma terceirizada, dá problema em outros mercados que não o quintal de casa.

Tem que lidar com operadoras, fábricas, fornecedores, clientes, suporte técnico, garantias. Google é um gigante de tudo (com a compra da Nest, já vi gente comentando que Google será maior que a GE em um futuro próximo), mas tudo de software.

No fim das contas, era tudo pelas patentes mesmo (que pelo visto nem valem tudo isso)

“As patentes continuarão a ser usadas para defender o ecossistema Android”, diz o Google.

Segundo motivo: Google ser dono da Motorola significava ter uma empresa que não poderia ser beneficiada por conta dos demais parceiros de hardware Android. Os aparelhos Motorola Google (Moto X e Moto G) se livraram das frescuras anteriores da turma de Chicago, se tornando quase puros Android. Isso foi bom.

Desse modo, ânimos ficam mais tranquilos na Samsung, Sony, LG, Asus, Huawei e quem mais se aventura em instalar e vender qualquer coisa com Android. Agora podemos (acho que não, mas tudo bem) ter um Motorola Nexus, com Android puro, simplesmente porque a Motorola não é mais do Google.

O bom disso tudo: uma Lenovo forte em smartphones também vai bagunçar muito o equilíbrio de líderes de mercado. Em um ano a partir de agora, será que a Samsung ainda será a número 1 em Android? 

Também envolve brigar com a Microsoft, que é o ponto do meu próximo item.

E a concorrência?
Voltando à lista de 2011, uma previsão se concretizou (número 6): a Microsoft comprou a Nokia no final do ano passado.

Acredito que o verdadeiro cavalo de tróia da Microsoft, se confirmado, será o tal Nokia Normandy/Nokia X, um smartphone Android com sistema modificado (estilo Amazon Kindle Fire) e ainda com acesso aos serviços do Google.

Aí você pergunta:

HENRIQUE, POR QUE DIABOS A MICROSOFT/NOKIA LANÇARIA UM ANDROID? 

Porque faz todo o sentido do mundo (não, não é uma defesa Chewbacca da minha parte).

Primeiro, a Nokia vai descontinuar a linha Asha (rumores indicam que a Nokia já puxou o plug de novos apps para os lindos Asha. Internet para o próximo bilhão? Missão para o Android da Nokia!).

Um aparelho Nokia X com Android não será feito para vender milhões. Será produzido – e vendido – para desestabilizar o mercado e causar (mais) raiva no Google. É um sinal luminoso, piscante e fosforescente para o mercado fabricante de hardware que Android, apesar de tudo, é uma alternativa cara para seus bolsos.

Hoje (e ouvi isso de mais de uma fonte), um OEM Android paga uma licença média de 10 dólares por aparelho vendido (o valor varia de acordo com o uso de codecs e tipo de dispositivo). Parte desse valor vai para a Microsoft (uns 2 bilhões de dólares por ano) por conta de acordos com o Google.

Um Android Nokia/Microsoft seria mais barato, pois não teria esse pedágio – mas esse é só o começo. Não vai ser um Nokia Android “Lumia” com Pureview. Vai ser um baratinho, sub-100 dólares (chute meu) com dois chips.

Reza a lenda que a Microsoft vai tornar em ZERO (que seja 1 dólar, vai) a taxa de licenciamento do Windows Phone 8 para qualquer fabricante de hardware. Epa, o Android ficou caro em grande escala.

E aí faz todo o sentido a Microsoft lançar um Android.

Desestimula os fabricantes de smartphones Android baratos (que estão comendo os Asha pelas beiradas e forçam a liderança do Android) e leva essa turma toda para o Windows Phone – “ei, é de graça”.

De troco, ainda come um bom pedaço de mercado do iOS e do Android.

Mas isso é viagem minha. Tem que esperar o fim do mês de fevereiro (Mobile World Congress) para ver se o Nokia X é real.

Sobre o autor

Henrique Martin

Henrique Martin é o fundador do ZTOP+ZUMO e da newsletter de tecnologia Interfaces. Já escreveu na PC World, PC Magazine, O Estado de São Paulo, Folha de S. Paulo e criou o ZTOP+ZUMO em 2007, referência em conteúdo original sobre tecnologia em um mundo pós-PC.

RSS Podcast SEM FILTRO




+novos