Guerra Fria 2.0: uma trégua libera vendas dos EUA para a Huawei

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A primeira grande batalha da Guerra Fria 2.0 se encerrou hoje em Osaka, no Japão, com uma trégua entre Estados Unidos e China na guerra comercial e uma boa notícia para a Huawei: as empresas norte-americanas podem ser liberadas para fazer negócios com a gigante chinesa.

Isso é bom também para Google, Intel, Qualcomm e todo um ecossistema de semicondutores que estava com faturamento ameaçado por conta do banimento da Huawei. Em resumo, viram que iam perder dinheiro, bateram na porta do governo e ganharam.

Com isso, acabam os medos de “Huawei não vai mais ter Android com Google Play” – mas ainda acredito que a Huawei tem a carta do seu sistema operacional alternativo na manga.

Em uma coletiva de imprensa no encerramento do G20 em Osaka, o presidente Donald Trump disse, de acordo com o Business Insider:

“Concordei em permitir nossas companhias – você sabe, empregos, eu gosto das nossas empresas vendendo para os outros. Então eu permiti que isso acontecesse. São coisas muito complexas. Não é fácil – essas não são decisões fáceis de tomar.

Poucas companhias podem fazer isso, mas a um custo enorme de dinheiro. Nossas corporações ficaram muito irritadas. Essas empresas são grandes, você sabe quem são todas. Mas não estavam muito felizes com isso. Mas estamos permitindo, porque não estava relacionado à segurança nacional.”

Segundo a Forbes, o discurso de Trump não é o encerramento do banimento da Huawei, mas sim uma concessão em nome da guerra comercial. E tudo ainda num clima de “pode acontecer“. A Huawei segue proibida de vender seus equipamentos (de rede, infraestrutura, 5G e mesmo smartphones) nos Estados Unidos.

Na Bloomberg, detalhes do acordo entre EUA e China e uma frase interessante sobre a Huawei, ainda de Trump:

“Companhias americanas podem vender seus equipamentos para a Huawei. Estamos falando de produtos onde não existem grandes problemas de segurança nacional”.

O South China Morning Post tem um resumo da coletiva de Trump no G20, e o Android Central vê com otimismo a notícia.

Uma das contas no Twitter da Huawei disse “Meia volta? Donald Trump sugere que vai permitir que a Huawei volte a comprar tecnologia dos EUA”.

Na CNN, analistas dizem que a Huawei é grande demais (uma empresa de US$ 110 bilhões) e que o ato norte-americano reflete a importância da empresa para operadoras de telecomunicações e fornecedores americanos. No Techcrunch, um lembrete de que o banimento custaria algo em torno de US$ 30 bilhões em dois anos para a Huawei.

Histórico

Na semana de 19 de maio, a Huawei passou a fazer parte de uma lista de empresas banidas de fazer negócios com os Estados Unidos, com a afirmação (nunca comprovada) de que os equipamentos da marca (notadamente de infraestrutura para operadoras) espionavam os clientes. Por conta disso, era uma questão de segurança nacional.

Nos dias seguintes, o Google disse que estava suspendendo seus negócios com a Huawei, que também é a segunda maior fabricante de smartphones do mundo e depende dos serviços do Google para todo o mundo que não ee China. Isso levou a um efeito dominó de outras empresas americanas ou não a também banir negócios da Huawei.

Agora, tudo deve voltar ao normal. O Wall Street Journal definiu bem essa situação toda ontem: quem apanhou foi a Huawei, mas todo o mercado de tecnologia ficou com o nariz sangrando.

No Brasil, a vida seguiu normal

O caso todo do banimento deixa uma história um tanto folclórica para a Huawei no Brasil. A parte de telecom/infra/corp está aqui desde 1999 e, desde o ano passado, a companhia decidiu voltar ao mercado brasileiro de smartphones.

A linha P30 Pro/P30 Lite foi anunciada em março e começou a ser vendida no Brasil em 17 de maio, uma sexta-feira. No domingo seguinte (19) veio a notícia do Google banindo a Huawei – com estoques esgotados por causa da promoção de lançamento e uma onda de dúvida e incerteza na cabeça do consumidor.

A Huawei fez de tudo para acalmar o comprador, disse que os updates estavam garantidos, está interagindo de forma eficiente nas redes sociais. Pelo visto deu certo a estratégia: reza a lenda (não-confirmada) que os P30 Pro (não o Lite, que tem o preço errado) seguem vendendo bem.

Lá fora, a Huawei disse essa semana que vendeu 10 milhões de aparelhos da série P30 em 85 dias, um recorde para a companhia.

E ontem a Huawei anunciou a abertura de dois quiosques de vendas de smartphones em shoppings de São Paulo (Eldorado e Morumbi), que serão inaugurados na semana que vem e começam a expandir a linha de acessórios da marca, trazendo fones de ouvido e capinhas para os aparelhos.

Agora, vida nova sem banimento.

E aguardar as cenas dos próximos capítulos – eu acredito que ainda teremos surpresas na questão do sistema operacional só pra Huawei dizer “olha, a gente consegue se virar sem vocês, tá?”. Como diria o Nagano, “mandando uma banana pra eles”. 😉

Sobre o autor

Henrique Martin

Henrique Martin é o fundador do ZTOP+ZUMO e da newsletter de tecnologia Interfaces. Já escreveu na PC World, PC Magazine, O Estado de São Paulo, Folha de S. Paulo e criou o ZTOP+ZUMO em 2007, referência em conteúdo original sobre tecnologia em um mundo pós-PC.

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