Google chuta baldes e derruba censura na China

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Boa, Google! Mega orgulho de entrar no seu blog corporativo e descobrir que, por conta de problemas de segurança cibernética (ei, isso É verdade!) você vai derrubar a censura na China em qualquer busca feita na sua seara e ainda ameaça sair do mercado chinês (mm, isso não é bom, certo?).

Diz o Google Blog, num texto assinado por David Drummond, advogado-chefe da empresa (minha tradução):

“Esses ataques e a vigilância que eles mostraram, combinados com as tentativas no último ano de tentar limitar a liberdade de expressão na web, nos levaram a concluir que devemos rever a viabilidade de nossas operações comerciais na China. Decidimos que não vamos continuar a censurar os resultados no Google.cn, e nas próximas semanas vamos discutir com o governo chinês bases para continuar operando um mecanismo de buscas sob a lei, se possível. Reconhecemos que isso pode levar ao fechamento do Google.cn e potencialmente nossos escritórios na China.

A decisão de reavaliar as operações comerciais na China foi muito difícil, e sabemos que sofreremos potenciais consequências. Queremos deixar claro que esta ação foi motivada por nossos executivos nos Estados Unidos, sem o conhecimento ou envolvimento dos empregados na China, que trabalharam duro para tornar o Google.cn o sucesso que é hoje. Estamos comprometidos a trabalhar responsavelmente para resolver os difíceis tópicos levantados agora”.

Os motivos para tal atitude são claros no post do Google: ataques sofisticados à infra-estrutura corporativa vindos da China, que levaram ao roubo de “propriedade intelectual” do Google, mas com foco também em pelo menos outras grandes empresas de tecnologia, internet, finanças, mídia e setor químico. Veja que em nenhum momento o Google aponta o dedo para governo ou hackers – apenas “veio da China”.

E o post segue:

“Temos evidências que sugerem que o alvo primário dos ataques foi acessar contas do Gmail de ativistas de direitos humanos chineses. Baseado em nossa investigação, até o momento acreditamos que o ataque não conseguiu cumprir seu objetivo. Apenas duas contas do Gmail parecem ter sido acessadas, com atividade limitada a informações da conta e linhas de assunto, em vez do conteúdo dos e-mails”.

Posso estar errado, mas é a primeira vez que vejo uma grande corporação batendo de frente com um governo em público, e as consequências disso podem ser enormes. Primeiro, financeiramente falando – mesmo sem ser líder (posto ocupado pelo Baidu), isso pode significar perder receita significativa e papais e mamães acionistas não gostam nada disso. Segundo, o fim da censura por um site não vai fazer os geeks chineses a deixar de usar VPNs e proxies comuns China para barrar o “Grande Firewall”.  Terceiro, se eu fosse funcionário do Google China, estaria em pânico: imagina seu chefe americano tomar uma atitude dessas SEM te avisar (óbvio que o alto escalão sabia…).

Yahoo! e Microsoft, nessa hora, se escondem embaixo da cama por manter sua censura nas buscas na China – ou será que vão apoiar o grande inimigo Google numa causa comum? 2010 começa quente, muito quente. Ainda sobre os ataques, o blog Google Enterprise dá mais alguns detalhes.

Curiosamente, uma busca rápida em sites de notícias chineses (em inglês) não mostra NENHUMA repercussão local (ei, estão 12h na nossa frente) sobre o caso. China Daily, Shanghai Daily, Xinhua Net (a agência de notícias oficial), não trazem (até o momento) nenhuma linha sobre o assunto.

Updates de 13/01:

1) A Adobe diz também que foi atacada, mas não fala que foi a China. Curiosamente, o post no blog da Adobe subiu 16 minutos depois do post no blog do Google (via Wired)

2) O TechCrunch diz que o problema é grana – um mercado enorme, com concessões a serem feitas (=censura), que pega mal no Ocidente – e não direitos humanos.

3) Robert Scoble discorda e diz que a questão de sair da China é pura hipocrisia, já que desistir desse enorme mercado online (e crescendo) não compensa – mesmo sendo o número dois (num país de 1 bilhão de habitantes, ser número 2, 3 ou 50 não tem muita diferença). Além disso, a China é um ótimo celeiro (barato) de engenheiros. Mas que o tópico dos direitos humanos é importante, e o Google nunca foi tão bonzinho como a Microsoft ou o Yahoo para jogar o jogo da burocracia governamental chinesa. Um porta-voz do Google disse a Scoble que a questão não é o market share: “nossas receitas vindas da China não contam muito, mas tivemos nosso melhor trimestre de todos os tempos”.

4) Na China, tem gente colocando flores na frente do prédio do Google. Impressionante. (via Future Perfect)

5) Tia Hillary Clinton apóia o Google e quer explicações do Governo Chinês.

Sobre o autor

Henrique Martin

Henrique Martin é o fundador do ZTOP+ZUMO e da newsletter de tecnologia Interfaces. Já escreveu na PC World, PC Magazine, O Estado de São Paulo, Folha de S. Paulo e criou o ZTOP+ZUMO em 2007, referência em conteúdo original sobre tecnologia em um mundo pós-PC.

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