Retrotech: ФЭД-2, a AK-47 das câmeras soviéticas

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Menosprezada pelos fotógrafos capitalistas e reacionários do ocidente, a FED-2 é um belo exemplo de uma indústria que também nos deu o Tanque T-43, a Nave Soyuz e o Coquetel Molotov (que, na verdade, foi inventado pelos finlandeses).

Dentre as diversas câmeras criadas no paraíso do proletariado para sobrepujar a ditadura de sistemas capitalistas como da opulenta Leica ou da Nikon burguesa, a minha favorita é a ФЭД-2 ( FED-2 )

… uma curiosa cópia reinterpretação da opulenta Leica IIa que fala muito sobre o tempo e o mundo que a criou, o que envolve a revolução russa, países satélites, órfãos, comunas de trabalho, jovens delinquentes e até a KGB!

Ainda com a gente? — Ótimo, então senta que lá vem história:

Botando as criancinhas pra trabalhar

Reza a lenda que a fábrica FED teve origem nos anos 1920 em um orfanato da Cracóvia na Ucrânia que se transformou numa comuna de trabalho (ou mais exatamente num centro de reabilitação para jovens delinquentes) fundada por Anton Semyonovich Makarenko, (Антон Семенович Макаренко) que botou a criançada para trabalhar, produzindo inicialmente roupas, móveis etc.

Com o tempo essa comuna evoluiu e se transformou numa espécie de escola técnica sob o controle do Comissariado do Povo Para Assuntos Internos (Народный комиссариат внутренних дел) ou NKVD (НКВД)…

…, uma espécie de ministério do Interior cujas origens vem da Cheka — a primeira polícia secreta da União Soviética — fundada pelo notório Felix Dzerzhinsky, que se tornaria a temida KGB (daí seu apelido, Félix de Ferro).


De fato, a marca ФЭД vem das iniciais de Феликс Эдмундович Дзержинский (Félix Edmundovich Dzerjinsky).

Já a produção de câmeras teve início nos anos 1930 como parte de um esforço da União Soviética de não depender do ocidente (em especial dos alemães) para atender a sua demanda (até militar) de material fotográfico, cuja indústria praticamente inexistia no paraíso do proletariado.

Assim, o pessoal de Cracóvia concentrou seus esforços em reproduzir a opulenta Leica II que, era na época, era considerada a melhor e a mais avançada câmera da sua época, o que também comprovou — na prática — a genialidade dos técnicos soviéticos na arte da engenharia reversa:

Depois de uma pausa durante segunda grande guerra (devido a destruição da fábrica pelos nazistas), a FED se desvencilhou da NKVD e continuou a fabricar câmeras aos montes — quase 9 milhões de unidades até 1997— sendo que seu último modelo (a FED 5/5b/5c) ainda pode ser achada no mercado:

Já a produção da FED-2 teve início em 1955, sendo que o nosso modelo conhecido como FED-2D (PE0455) deve ter sido montado em torno de 1959~60:

Isso porque ela ostenta a letra “A” no seu número de série, o que foi uma medida temporária adotada pela fábrica quando seu sistema de numeração passou de 1 milhão.

No geral, determinar o ano de fabricação de uma câmera ou lente soviética é relativamente simples porque essa informação costuma ocupar as duas primeiras posições do seu número de série.

Por exemplo, o número da lente Гелиос (Helios) 44-2 abaixo é 8955807, o que indica que ela foi fabricada no ano de 1989.

O interessante é que a FED existe até hoje como uma fábrica de equipamentos de precisão.

Desenho elegante e harmonioso

A FED-2 representou um marco para a fábrica, porque a partir dela as câmeras da empresa deixaram de ser uma simples cópia da opulenta Leica para se tornar um produto de personalidade própria.

Para mim, de todas as FEDs o modelo 2 é a que tem o visual mais bonito (ou como dizem os capitalistas americanos “slick“) com suas linhas suaves e elegantes que harmonizam bem com seus controles simples posicionados de maneira lógica e equilibrada — ou seja…

… tudo que você esperaria de uma câmera está lá e de maneira bem clara:

De fato podemos apreciar ainda mais o trabalho do pessoal de Cracóvia se compararmos com esse mesmo esforço realizado pelo pessoal da KMZ (Красногорский механический завод, – Krasnogorskiy Mechanicheskiy Zavod) na Rússia com a Zorki C (1955~58), ou seja, igualmente simples e utilitária, mas tão elegante quanto um tanque KV-2.

Boas idéias (vindas do concorrente)

A FED-2 também foi um marco no sentido que ela implementou novas idéias que mesmo a opulenta Leica de rosca nunca adotou, a não ser a partir da série M.

Talvez a mais interessante delas é o seu sistema de visor com telêmetro integrado, cuja base de medição é de 67 mm, bem mais ampla que os 39 mm usado nas opulentas Leicas de rosca, o que faz na prática que o curso do ajuste de foco da FED-2 seja mais longo e, consequentemente, mais preciso:

Fora isso, a parte de trás da câmera é removível, o que facilita em muito a colocação do filme…

… se comparado com o notório sistema por baixo das opulentas Leicas de rosca:

O curioso é que essas melhorias parecem ter sido copiadas da principal concorrente da opulenta Leica na época — a elitista Contax II — ou a sua versão russa, a Kiev II.

¡No pasarán! (de 1/25s)

Mas do mesmo modo que o fuzil de assalto AK-47 a FED-2 foi feita para ser funcional e efetiva, de modo que o seu mecanismo de disparo é relativamente simples e robusto, contando com apenas cinco velocidades “médias” (1/25s, 1/50s, 1/100s, 1/250s, 1/500s e B).

Já numa revisão posterior desse mecanismo (onde o seletor de velocidades passou a ser formado por duas partes ao invés de uma) a câmera passou a adotar uma escala mais moderna/ (1/30s, 1/60s, 1/125s, 1/250s, 1/500s e B)…

… sendo que só com a chegada da FED-3 em 1961 que a câmera passou a ter velocidades “baixas” (1s, 1/2s, 1/4s, 1/8s, 1/15s, 1/30s, 1/60s, 1/125s, 1/250s, 1/500s e B).

Só que para abrigar esse novo sistema de velocidades baixas (que usa um mecanismo de escape de relógio), a empresa teve que reduzir a base de medição do telêmetro para 41mm ficando assim mais próximo da opulenta Leica de rosca, o que tornou o seu visual mais quadrado e sem graça:

No geral, as câmeras russas dessa época tem a tendencia de sofrer de falhas mecânicas causadas tanto por um controle de qualidade — digamos, “complacente” — quanto por problemas de “endurecimento” e até de travamento causados pelo uso de lubrificantes que, com o passar dos anos, tendem a secar e formar uma espécie de goma que gruda nas peças como se fosse cola.

A boa notícia é que devido a simplicidade do mecanismo da FED-2, ela tende a ter menos problemas desse tipo e mesmo se isso ocorrer…

… a sua manutenção é relativamente simples, existindo diversos tutoriais na Web que ensinam como fazer esses ajustes e reparos:

Maia sobre isso aqui e aqui.

Objetivas

Por ser baseada na opulenta Leica II, a FED-2 a baioneta de rosca LTM ou M39, o que permite que essa câmera aceite uma grande variedade de lentes de diversas marcas e modelos para todos os bolsos e gostos.

A FED-2 já saia de fábrica com uma lente normal de ~50mm começando com a ИНДУСТАР-10 (ou Industar-10) de 50mm/f3.5 passando depois para a
ИНДУСТАР-26 ou И-26 (52mm/f2.8) e terminando finalmente com a ИНДУСТАР-61 (55mm).

No nosso caso, a objetiva que veio foi a И-26m (aparentemente um modelo PT4365) fabricada pela própria FED e que bate com a época/modelo da câmera ou seja, ela parece ser original de fábrica e não foi retirada de outra câmera. O curioso é que o design dessas lentes não é baseada nos modelos da opulenta Leica e sim da corporativa Zeiss — ou mais exatamente no desenho Tessar.

Para mim, o grande problema dessas lentes é que elas foram feitas de alumínio sem pintura, o que faz com que elas não resistam bem a prova do tempo sofrendo mais com maus tratos como riscos, quedas, corrosão. o que pode dificultar em muito a sua restauração — se é que vale investir nisso, já que os custos para tal podem exceder o valor da lente que, foi fabricada aos milhões na União Soviética:

E qual o desempenho da И-26m?

Como dissemos antes, um dos grandes problemas das câmeras e lentes soviéticas é o seu controle de qualidade beem “complacente” para os padrões ocidentais, o que faz com que adquirir uma objetiva dessas (que foi feitas aos milhões) seja meio que um exercício de fé comparável a um sorteio de prenda de festa de igreja.

No geral essa И-26m produz imagens até que boas (ou pelo menos bem melhores que minha outra Industar-61 que parece ter sido aprovada por um inspetor de qualidade cheio de vodka muito complacente), mas não é nada que empolgue, mas isso também pode ser devido ao fato das lentes do tipo Tessar f2.8 costumam não performar tão bem quanto as versões de f3.5.

(As imagens abaixo foram tiradas com a И-26m instalada na minha câmera digital Olympus OM-D por meio de um adaptador M39 para M4/3:)

Já o seu desempenho em preto e branco também é bem bacana mas, novamente, nada melhor do que já vimos em outras cópias de Tessar:

No fim das contas, vale a pena investir numa FED-2?

para nós, ter uma câmera russa é mais ou menos como ser dono de um Fusca, ou seja, alguns vão achar super bacana, já outros vão achar que você é um pobre, pão duro ou só meio doido excêntrico já que existem opções bem mais interessantes no mercado, mesmo para aqueles meio doidos excêntricos que gostam de tirar fotos com câmeras antigas.

O que estamos querendo dizer é que o usuário não deveria depender pessoal ou profissionalmente de uma câmera russa, mas é inegável a sua atração e até charme para aqueles que gostariam de sentir um gostinho de fotografar com uma legítima cria da Guerra Fria.

Outra recomendação é que o usuário não se empolgue e também não pague demais para ter uma FED porque primeiro — definitivamente, ela não é uma câmera rara (lembre-se quase 9 milhões de unidades fabricadas, fora as Zorki feitas pela KMZ) — de modo que não acreditamos que alguém deveria gastar mais do que R$ 100~150 num modelo em bom estado com a lente. Talvez um pouco mais se vier na caixa original junto com sua capa de couro.

E segundo, certifique-se que ela esteja funcionando de maneira adequada antes de bater o martelo.

Se você tomar esses Pequenos cuidados podemos assegurar que você poderá ter uma câmera super bacana que pode te conquistar tanto pela sua simplicidade quanto pelo seu visual realmente simpático, o que também conta pontos — é claro — na hora de impressionar as garotas e os amigos nerds.

O camarada Pablo que o diga (apesar de que fazer cara de mau e usar dois relógios no mesmo pulso também ajuda):

Sobre o autor

Mário Nagano

Desde o século passado Mario Nagano analisa produtos e já escreveu sobre hardware e tecnologia para veículos como PC Magazine, IDGNow!, Veja e PC World.
Em 2007 ele fundou o Zumo junto com o Henrique assumindo o cargo de Segundo em Comando, Editor de Testes e Consigliere.

Por Mário Nagano

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