ZTOP+ZUMO

Entrevista: Vinte minutos com o pai do Dell XPS

[Dell World 15] Batemos um papo com Paul Struhsaker, vice-presidente responsável pelo desenvolvimento e visual dos novos sistemas pessoais da Dell.

Paul Struhsaker é vice presidente e Chief Technology Officer (ou CTO) do grupo de Technology Startegy Solutions que, segundo suas próprias palavras, tem o prazer de liderar um grupo de “gente realmente inteligente” o que inclui especialistas em design, mecânica, hardware, software, materiais etc., além de manter um estreito contato com parceiros/fornecedores de tecnologia como a Intel e a Microsoft.

Isso permite que seu time seja capaz de conceber e prototipar um novo produto a partir do zero, o que o coloca na vanguarda no desenvolvimento de novos produtos na Dell e — é claro — também o coloca numa numa posição de grande responsabilidade, já que é preciso garantir que esse processo ande da maneira mais suave possível.

No último dia do Dell World 15 tive a oportunidade de entrevistar com exclusividade o executivo para falar sobre o seu trabalho. A seguir, os principais trechos da conversa:

Ztop+Zumo: Nestes últimos anos a Dell tem feito um excelente trabalho na concepção e design da sua linha de produtos. Como isso aconteceu?

Paul Struhsaker: O que fizemos aqui na Dell foi criar um conceito que chamamos de “Inovation Pipeline”, que é formado por três estágios: a primeira é a da concepção, onde juntamos um monte de idéias que depois passam por um processo de depuração onde elegemos aquelas que são mais viáveis, e que são mais trabalhadas e submetidas a um fórum de decisão que determina o que será realmente adotado.

Depois disso tem início o processo de incubação onde juntamos todos os componentes que formam o equipamento — como se fosse as peças de um quebra-cabeças — sendo que neste estágio ele ainda passa por uma constante análise crítica para garantir que todas as peças se encaixem e funcionem perfeitamente. E então o produto entra numa fase de finalização e daí já pode ir para a manufatura.

Mas para garantir que isso funcione, quem são aqueles responsáveis pelas tomadas de decisões em todo esse processo? — Para isso criamos um Time de Liderança em Inovação ou ILT (Innovation Leadership Team) formado por três pessoas: o líder do grupo de design, um executivo que enxerga o negócio como um todo (ou seja, como este produto se encaixa no lineup da empresa e se ele atende às demandas do pessoal de marketing) e finalmente o CTO (neste caso, o próprio Paul Strushaker).

Um exemplo bem sucedido do uso desse conceito foi o desenvolvimento do novo Dell XPS 13 …

Dellworld15_showcase_XPS13

… onde todas as partes desse projeto se encaixaram tão bem que ele foi rapidamente para a linha de produção e ainda viabilizou uma segunda leva de produtos na forma como o XPS 15 e do XPS 11 2-em-1.

E isso não pára por ai, já que este processo de inovação constante direciona todas as nossas atividades do dia a dia, de modo que somos bastante sistemáticos e utilizando tanto a área de design quando a de negócios para desenvolver produtos cada vez melhores.

Z+Z: Já conversei com outros chief designers e o que já ouvi deles é que no seu dia-a-dia sempre existe uma eterna disputa entre o que desejável e o que é possível. Isso também acontece no seu trabalho?

Struhsaker: Sim. E é por isso que colocamos tudo numa escala do tipo verde, amarelo e vermelho até para mantermos as coisas simples, ou seja, verde OK, amarelo é arriscado e vermelho é algo que podemos tanto abandonar quanto guardar para o futuro, já que, muitas idéias que não são viáveis hoje,  podem ser num futuro próximo a medida que a tecnologia evolui.

De um certo modo, a tecnologia sempre irá conseguir dar um jeito, mas o importante neste caso é sempre entender por que abandonamos uma idéia, já que existe muito dinheiro envolvido neste processo e precisamos ser bastante cuidadosos nessas decisões.

Z+Z: Quanto tempo vocês levam para criar um novo visual ou implementar um novo recurso, digamos, do conceito até o produto final?

Struhsaker: Isso depende. Se algo é simples, podemos decidir pela sua implementação 12 meses antes do produto chegar ao mercado. Se for algo mais complexo, podemos levar de 18 a 24 meses. Essa escala de 6 meses existe em razão de alguns eventos do mercado, como por exemplo, a vendas de fim de ano ou a época de retorno às aulas.

Fora isso, precisamos trabalhar em harmonia com outros ciclos de produtos, como a renovação das plataformas da Intel e outros componentes menores, como câmeras, telas, e até tecnologias inovadoras como a recarga de bateria ou conectar o monitor de vídeo por meio de conexões sem fio.

O nosso objetivo nesses casos é de sempre proporcionar a melhor experiência de uso possível para nossos usuários. De fato, um trabalho bem interessante que desenvolvemos foi na parte de teclados, onde bolamos um jeito de fazer com que uma tecla passe a sensação de que ela se move muito mais do que na realidade, o que é algo muito relevante à medida que os notebooks ficam cada vez mais finos.

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E isso sem falar nas inovações que não ficam à vista dos usuários. Por exemplo, fizemos pequenas implementações na BIOS do sistema para que ele envie nos dados sobre o seu estado, como dados de consumo, carga da bateria e saúde dos HD, etc. Todas essas informações são coletadas e analisadas pelos nossos sistemas de Big Data e ferrmentas de Analytics, o que nos permite até alertar o usuário que seu sistema não está funcionando corretamente, o que pode ser um grande passo na direção de uma estratégia de suporte técnico mais proativo.

Outra nova frente relevante que ganha cada vez mais importância é a opinião de nossos clientes. Mas fato é que — em muitos casos — eles não sabem o que querem. Sim, eles têm uma boa percepção do que é qualidade, do que é ser bem tratado e até sabem que confiabilidade é algo importante. Mas além disso, é claro que pensamos em design e inovação e outras coisas — mas se conseguirmos combinar tudo isso — que produtos maravilhosos poderemos criar.

Z+Z: E como vocês reagem às críticas e sugestões de seus clientes?

Struhsaker: Tenha certeza que tudo que você disser para o nosso time estará sendo anotado e devidamente analisado. De fato sempre promovemos pesquisas sistemáticas em eventos deste tipo (como o Dell World)

Z+Z: Poderia citar um exemplo?

Struhsaker: Sim, tivemos um caso no XPS onde alguns reviews disseram que não gostaram do touchpad. Se você observar o novo XPS 15 poderá notar que modificamos essa parte.

Z+Z: Em poucas palavras, como o senhor descreve o atual estilo de design da Dell?

Struhsaker: Eu acho que temos um design industrial de ponta, já que, antes de tudo, somos uma empresa comercial e fora alguns linhas diferenciadas como a Alienware, nossos clientes comerciais preferem um design mais limpo com linhas sólidas, elegantes e sem muita frescura. E cá entre nós, isso é algo bem difícil de realizar já que, por exemplo, as telas tem que ser finas mas não podem entortar com uma simples pressão dos dedos!

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Z+Z: O senhor confirma alguma influência “texana” no design da Dell?

Struhsaker: Sim, eu atribuiria uma influência utilitária, já que nós texanos temos a tendência de valorizar a forma e função e — no geral — o povo daqui gosta de coisas simples e práticas, ou mais exatamente, descomplicadas. E isso faz parte do nosso design.

Z+Z: O fechamento do capital da Dell tornou o seu trabalho mais fácil?

Struhsaker: Absolutamente sim! Agora somos muito mais consistentes e para os engenheiros, consistência significa mais liberdade, permite pensar num longo prazo respeitando é claro a época em que os produtos devem chegar ao mercado (time to market). Mas isso não significa que não nos preocupamos com datas, e sim que não precisamos mais fazer coisas realmente estranhas ou estúpidas para cumprir os prazos.

Isso também nos permite investir mais em pesquisa e desenvolvimento já que, na situação antiga, poderia ser interpretado como recurso mal gasto — e isso é ruim para a empresa. Agora podemos apostar em idéias de maior prazo o que também ajuda a reenergizar as baterias do nosso grupo, e isso é um ponto de inflexão na nossa empresa.

Z+Z: Falando em novas tecnologias, o que o senhor acha da tecnologia RealSense da Intel?

Struhsaker: Eu tenho certeza que com o passar do tempo, as câmeras 3D serão uma necessidade, especialmente em aplicações de realidade aumentada e acho que hoje ainda estamos no limiar dessa tecnologia, de modo que ainda precisamos evoluir muito especialmente na parte de software para que possamos realmente usar essa nova tecnologia de maneira correta. A Intel tem nos dado dicas e incentivado a implementar sua tecnologia em alguns de nossos produtos…

… mas a verdade é que na minha opinião, essa tecnologia ainda precisa amadurecer ou seja, ainda estamos no início de um círculo virtuoso. Existem muitas expectativas com relação à essa tecnologia o que nos expõe a várias idéias que não são lá grande coisa, mas espere por uns 4 ou 5 anos para ai sim ver aplicações realmente impressionantes.

Z+Z: Qual seria o produto que o senhor mais se orgulha de ter ajudado a desenvolver?

Struhsaker: Recentemente? O XPS 15 que eu acho ele lindo e tivemos ótimos feedbacks de nossos clientes e o trabalho que temos desenvolvido na linha de deskops Optiplex e workstations Precision — uma área em que muitos dizem que não há mais o que melhorar, mas que nós ainda continuamos inovando.

E é isso que tenho muito orgulho.

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Disclaimer: Mario Nagano viajou para a República Popular de Austin a convite da Dell, mas as opiniões e fotos bacanas são dele.

 

Desde o século passado Mario Nagano analisa produtos e já escreveu sobre hardware e tecnologia para veículos como PC Magazine, IDGNow!, Veja e PC World. Em 2007 ele fundou o Zumo junto com o Henrique assumindo o cargo de Segundo em Comando, Editor de Testes e Consigliere.

  • marcelomartins 04/11/2015, 22:19

    Eu perguntaria: Por que vários DELLs estão vindo com portas do lado direito, local onde a maioria das pessoas usa o mouse, e não do lado esquerdo, local onde a maioria das pessoas deixa livre.

    🙂

    • tuneman 05/11/2015, 20:13

      aposto que o designer do notebook era canhoto. hehehe

  • dflopes 05/11/2015, 16:48

    excelente entrevista!

    Mas pq o abandono de conexões legadas em equipamentos profissionais (DB9, VGA, etc)?

    • Mario Nagano 05/11/2015, 22:13

      A medida que os notes se tornaram cada vez mais leves e finos, os fabricantes começaram a eliminar essas portas legadas, alegando falta de espaço físico ao mesmo tempo que propunham como alternativa o uso de docking stations e/ou adaptadores USB para qualquer coisa.

      Fora isso, não podemos ignorar o fato de que os fabricantes de hardware estão investindo cada vez mais em conexões sem fio, sendo os próximos da fila a ligação com o monitor de vídeo e depois a recarga da bateria.