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Entrevista: Microsoft e o Open XML (parte 1)

Você pode nem notar, mas existe uma disputa de padrões em andamento. De um lado, o mundo open source, com aval da IBM, em defesa do ODF (Open Document Format). De outro, a Microsoft, com seu Open XML. Este Zumo tenta entender a bagunça e, por isso, já falou com Cezar Taurion, gerente de novas tecnologias aplicadas da IBM Brasil, sobre o tema.

Roberto Prado, gerente de estratégias de mercado da Microsoft BrasilAgora é a vez da Microsoft defender sua posição. Em uma longa entrevista feita por e-mail, conversamos com Roberto Prado, gerente de estratégias de mercado da Microsoft Brasil, sobre o tema. Por abordar diversos temas, preferimos publicar a entrevista em três partes durante os próximos dias. Na primeira, o tema principal foi “Open XML para leigos”. Leia a seguir os principais trechos.

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Zumo: De que modo se explica a um usuário leigo por que ele precisaria de um novo padrão para criar documentos?
Roberto Prado: Mostrando a ele que estamos oferecendo uma opção de interoperabilidade com outros sistemas, respeitando seu legado, investindo em algo novo e, principalmente, em proporcionar uma possibilidade de escolha e inovação na utilização das soluções. Dessa forma, o usuário terá í  disposição aquilo que melhor for para o seu dia-a-dia.


Explique o que é Open XML e qual a sua importância para a estratégia de produtos da Microsoft?
O Open XML é um padrão aberto para a utilização de documentos eletrônicos. Sua história começou com o Office 2000, que passou a ser compatí­vel com as propriedades da linguagem XML (eXtensible Markup Language). Em seguida veio o Office XP, onde começamos a colocar as planilhas em Excel nesta linguagem. Depois oferecemos o suporte a XML no Office 2003.
O Office 2007, pacote de aplicativos de produtividade da Microsoft, por exemplo, já conta com o formato baseado em Open XML, que possibilita a leitura de documentos do Office 2003, Office XP e Office 2000 a partir de uma atualização gratuita.

Vale ressaltar que o sistema também suporta outros formatos. Quando se desenvolve um produto é preciso fazer escolhas. Ao olhar para trás é preciso também olhar para frente porque o produto traz inovação. Quando vemos o legado e as novidades, o binário não é a melhor opção e o ODF não nos atende plenamente. É necessária uma implementação para garantir a longevidade e o controle dos dados para o cliente.

Se o usuário salvar um arquivo no formato Open XML vai conseguir abrir daqui dez anos. Se o cliente quiser acessar dados de 1997, em .DOC, .PPT ou outro formato, ele pode trazer para o Open XML. Os clientes querem escolha, interoperabilidade e inovação. O Open XML oferece todas essas caracterí­sticas e também possibilita a integração de tecnologias, via tradutores, para gerar mais produtividade aos usuários. As pessoas desejam ter interoperabilidade, respeito ao legado, investimento e, principalmente, possibilidade de escolha e inovação. Por tudo isso, o Open XML atende a estas necessidades.

Qual a diferença básica entre o Open XML e o XML padrão?
Arquivos baseados em XML possibilitam a leitura de quaisquer documentos no seu formato original e ajudam a integrar os processos. Também oferecem oportunidades significativas para os integradores de software (ISVs – Independent Software Vendors) criarem aplicações de alto valor. O Open XML representa um importante avanço em relação í  concretização da visão do XML, pois busca oferecer a ampla interoperabilidade ao permitir que documentos sejam arquivados, reestruturados, incrementados, modificados e reutilizados de forma dinâmica. Outra caracterí­stica é que o formato atende as demandas de usuários portadores de necessidades especiais e aos padrões de certificação digital do governo brasileiro (ICP/Brasil).

Quão aberto é o padrão Open XML? Como a comunidade de usuários e desenvolvedores pode ajudar a melhorar esse padrão?
O Open XML é tão aberto como o ODF – ambos foram avaliados em entidades de padronização (OASIS e ECMA, respectivamente). A comunidade também tem ajudado a melhorar o formato, como nesta fase de receber e discutir os comentários técnicos feitos pelos paí­ses membros da ISO. A organização internacional tem prevista para o dia 28 de fevereiro uma reunião em Genebra, na Suí­ça. Nessa ocasião, todos os comentários serão discutidos e ajustes serão feitos com o objetivo de atender a demanda de usuários e comunidades de desenvolvedores. É importante ressaltar que mesmo algumas empresas que historicamente têm se posicionado contra o padrão Open XML já implementaram em seus produtos esse formato. Isso demonstra que de fato estamos falando de um padrão aberto e de fácil implementação. A Apple, por exemplo, já implementou isso no iPhone.

Quais são os produtos da Microsoft – e de terceiros – que já adotaram esse formato?

Além do Office 2007, a Programmers, empresa paulista especializada em serviços de TI, trabalha na criação da E-NotaFiscal. Net, baseada no padrão Open XML. A solução está em processo de homologação final na Receita Federal e deverá ser comercializada já neste primeiro trimestre. Será a primeira no Brasil baseada em Open XML. A interoperabilidade, proporcionada por meio da sua utilização, incrementará a produtividade dos negócios. Já a Serasa desenvolveu em parceria com a Microsoft o Certificado de Atributo Digital. A principal caracterí­stica dessa tecnologia é a qualificação de uma pessoa ou organização por meio de informações. Esse modelo de uso está dentro das regras estabelecidas pela ICP-Brasil (Infra-estrutura de Chaves Públicas Brasileira), órgão federal responsável por elaborar técnicas, práticas e procedimentos de certificação digital a serem implementados nas organizações brasileiras, e aguarda a validação para estar no mercado.

Além disso, representantes de empresas brasileiras de tecnologia que atuam com soluções Microsoft (International Association of Microsoft Certified Partners) declararam que caso o Open XML fosse certificado os negócios registrariam um aumento de aproximadamente 14%. Uma possibilidade maior de atuação em conjunto com desenvolvedores de TI, mesmo entre empresas que atuam com diferentes plataformas, contribuiria para esse ganho. Atento a isso, o estado norte-americano de Massachusetts realizou uma revisão da polí­tica que envolve seu modelo de referência técnica para empresas (ETRM – Enterprise Technical Reference Model). A intenção era permitir a colaboração da comunidade a respeito do tema, fato que resultou em mais de 460 contribuições de pessoas e organizações.

Quais são as vantagens o Open XML em relação aos formatos nativos do Microsoft Office?
A oportunidade de salvar e acessar seus documentos independentemente do tempo em que isso foi feito porque o padrão é interoperável com os outros formatos disponí­veis no mercado. É uma implementação para garantir a longevidade e o controle dos dados para o cliente. Se ele salvar um arquivo no formato Open XML vai conseguir abrir daqui a cem anos. Se o cliente quiser acessar dados de 1997, em .DOC, .PPT ou outro formato, ele pode trazer para o Open XML. Se o cliente quiser usar outro aplicativo para abrir o arquivo poderá fazê-lo, independentemente da plataforma Windows.

A migração dos arquivos Office para Open XML é um processo simples?
O tema interoperabilidade não é novo para Microsoft, pois nossa plataforma interage com praticamente todos os ambientes, do mainframe ao telefone celular. Isso já acontece no Microsoft Office, quando os arquivos produzidos pelo usuário final têm a opção de serem salvos integralmente no padrão XML. Tudo de forma bem simples. A migração é fácil, pois basta instalar no seu aplicativo Office 2000, XP ou 2003 o conversor para OXML.

Existem alternativas ao Office (que não é um produto barato, diga-se de passagem) para usar o Open XML?
Os clientes utilizam nossos produtos porque gostam e tem boa experiência com eles. O Office é utilizado diariamente por mais de 500 milhões usuários no mundo. A alternativa do uso do XML não é nova – começou no Office 2000 e será utilizada sempre que nossos clientes e parceiros demandarem interoperabilidade. Creio que o custo do produto não tem nenhuma relação com o padrão utilizado pelo usuário para armazenar e recuperar arquivos. Acreditamos que temos a melhor opção que permite escolha, respeita o legado, implementa segurança compatí­vel com padrões brasileiros e, finalmente, atende pessoas com necessidades especiais como, por exemplo, deficientes visuais.

Se um cliente ou usuário do MS Office perguntasse se ele poderia ou deveria migrar para o Open XML, qual seria sua orientação?
Nossa resposta seria sim, ele deveria migrar para Open XML toda sua base de documentos (importante ressaltar que isso não está condicionado a produtos). Trata-se de migrar uma base de arquivos binários para formato aberto (Open XML). A principal motivação é garantir a longevidade dos documentos, preservar caracterí­sticas, fidelidade e, finalmente, garantir que não existe dependência do arquivo com produtos ou aplicativos. Para isso, o Office 2007 traz a opção de salvar o arquivo em Open XML. Caso o usuário não tenha essa versão da ferramenta, a Microsoft desenvolveu também o modelo 1.0 do tradutor do padrão Open Document (ODF) e dos formatos de documentos Open XML. Esse tradutor permite a conversão de um para outro e está disponí­vel gratuitamente para download aos interessados no site da SourceForge.net.

A segunda fase do projeto do tradutor, que inclui versões para planilhas (Microsoft Office Excel) e apresentações (Microsoft Office PowerPoint) teve iní­cio em fevereiro de 2007 e já ofereceu as versões betas para esses programas. Prévias da tecnologia de cliente são publicadas regularmente na SourceForge.net e as versões finais estão programadas para serem oferecidas aos clientes brevemente.

Haveria algum problema se o usuário desejasse ficar com os formatos antigos do Office?
Nenhum, porque o Open XML também salva os arquivos em diferentes formatos. Nessa relação está presente, inclusive, a opção de salvar em ODF, PDF, XPS, além de todos os formatos já conhecidos e utilizados em larga escala (DOC, XLS, PPT).

Quais as empresas e entidades no Brasil ou no mundo que já fecharam com o Open XML como padrão de fato/obrigatório?
Temos diversos exemplos, como o Estado norte-americano de Massachusetts, que ratificou oficialmente sua polí­tica de incluir o formato de arquivo ECMA Open XML. Empresas como Apple, Barclays Capital, BP, Biblioteca Inglesa, Essilor, Hewlett Packard Corporation, Intel, Lexmark International, NextPage, Novell, Sony, Statoil, Toshiba, além da Biblioteca do Congresso Americano apóiam a interoperabilidade proporcionada pelo padrão Open XML. No Brasil, empresas como Programmers, Siemens e Serasa já implentam e usam o formato Open XML.

Os funcionários da Microsoft utilizam internamente o Open XML?
Sim, todos os funcionários utilizam esse padrão nativamente. Isso nos permite, por exemplo, integrar nossa planilha de despesas (relatório de despesas de viagem) com nosso sistema financeiro de forma muito simples e rápida. Dessa forma minimizamos erros de digitação, ganhamos tempo no processo e garantimos a interoperabilidade.

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Na segunda parte dessa entrevista, Prado compara o Open XML com o ODF e fala sobre o esforço da Microsoft em aprová-lo como norma internacional. Fiquem ligados!


Desde o século passado Mario Nagano analisa produtos e já escreveu sobre hardware e tecnologia para veículos como PC Magazine, IDGNow!, Veja e PC World. Em 2007 ele fundou o Zumo junto com o Henrique assumindo o cargo de Segundo em Comando, Editor de Testes e Consigliere.

  • A segunda parte que me parece mais interessante: porque cargas d’água eles dizem que o ODF não os “atende plenamente”, e porque não tentar melhorar o ODF (já que é um padrão aberto…) para os atender ao invés de criar o seu próprio “concorrente” do zero.

  • “Existem alternativas ao Office (que não é um produto barato, diga-se de passagem) para usar o Open XML?
    Os clientes utilizam nossos produtos porque gostam e tem boa experiência com eles. O Office é utilizado diariamente por mais de 500 milhões usuários no mundo. A alternativa do uso do XML não é nova – começou no Office 2000 e será utilizada sempre que nossos clientes e parceiros demandarem interoperabilidade. Creio que o custo do produto não tem nenhuma relação com o padrão utilizado pelo usuário para armazenar e recuperar arquivos. Acreditamos que temos a melhor opção que permite escolha, respeita o legado, implementa segurança compatível com padrões brasileiros e, finalmente, atende pessoas com necessidades especiais como, por exemplo, deficientes visuais.”

    Bom… eles não responderam a pergunta, responderam? Primeiramente a questão de que não importa o preço, que para mim é um dos fatores principais quando vou pagar por um software, e depois ele não citou nenhuma alternativa ao Office para trabalhar com o Open XML de forma completa.

    Aliás, melhor: é possível, através apenas da especificação de mais de 6.000 páginas, fazer com que minha suposta ferramenta de produtividade (que está sob a licença GPL, seja a versão 2 ou a versão 3) trabalhe 100% em Open XML sem empecilhos jurídicos? Ou que eu tenha que fazer algum acordo com a empresa? Ou qualquer destas coisinhas que eu não teria que fazer se fosse trabalhar com o ODF (já que a Microsoft diz que o seu formato e tão livre quando o concorrente).

  • Parabéns ao Zumo pela iniciativa. Pena que o entrevistado se recusou a responder a maioria das perguntas e fugiu de todas as respostas.

    Gostaria muito de focar nos seguintes pontos:
    – Interoperabilidade com que? Então quer dizer que vou poder imprimir meu trabalho escolar como se fosse uma nota fiscal? Ele não é compatível sequer com as suites legadas da Microsoft…
    – Se é fácil converter do formato antigo para OpenXML agora, será fácil fazer o mesmo daqui 100 anos, graças à vida longa do OpenXML (e compatibilidade). Ou seja, melhor continuar usando os formatos antigos que, por enquanto, são compatíveis com 90% dos editores que temos no mercado.
    – Como eles querem manter um padrão aberto se o próprio tradutor que eles disponibizaram roda apenas em Windows? E olha que roda apenas em Windows NT, 2000, XP e versões de 64 bits. E como fica o legado, como o entrevistado mencionou acima?

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