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Dossiê Samsung – parte 1: vamos investir em startups?

Faz pouco tempo que fui até a China conhecer parte da operação de smartphones da Huawei, que prometeu entrar no mercado brasileiro em algum momento deste ano (ainda estamos esperando). Quando a Samsung me convidou para um evento passando pelo vale do Silício, na Califórnia, e depois para a Coreia do Sul, imaginei que seria algo parecido. Não foi (e isso é ótimo).

Nesta primeira parte, falo da estratégia de relação com startups no Vale do Silício e de um prédio voltado aos semicondutores.

Em uma segunda parte, vou falar dos centros de design em San Francisco e Seul e estratégia de produto – incluindo uma conversa muito esclarecedora sobre telas e câmeras.

E, numa terceira, sobre pesquisa, desenvolvimento e laboratórios de teste na Coreia e nos EUA. 

Samsung @ First, o prédio mais alto da região

A primeira parada foi em San Jose para conhecer… um prédio. Ali é a sede da Samsung Semiconductor, vizinha de Intel, Rambus, NVIDIA e todo mundo que está envolvido no mundo de hardware está naquela região.

Aqui uma breve explicação da diferença igreja/estado dentro da corporação: a Samsung Electronics produz os smartphones, TVs, notebooks, geladeiras, aparelhos de ar-condicionado e demais eletrônicos de consumo que conhecemos apenas pela marca Samsung.

Já a Samsung Semicondutor é outra divisão que produz semicondutores (duh!), chips, memórias, componentes etc. para o mercado de tecnologia. Isso inclui vender produtos para concorrentes da área de eletrônicos, como a Apple, por exemplo. Dentro da corporação, essas duas divisões – eletrônicos e semicondutores – são independentes e uma não sabe o que a outra está fazendo, por razões óbvias. 

Em resumo, a passagem por ali foi para conhecer o prédio de menos de três anos de idade coberto por painéis solares no último andar (o décimo), ver que a Samsung oferece benefícios bacanas para os funcionários como a maioria das empresas da região – cafeteria com comida de graça, academia completa, cadeira de massagem em todos os andares, disputa da melhor abóbora de Halloween e por aí vai.

A arquitetura do prédio em camadas se inspira no processo de fabricação 3D de processadores, com espaços vazios com jardins entre andares, e é a única construção corporativa em San Jose com mais de 10 pisos. Curiosamente, o sexto andar do prédio aparece com a marcação “fechado” no folder/mapa do edifício.

Meio óbvio notar, mas fotografia/vídeo nesse prédio somente na área externa apenas. Foi ali também que fui apresentado ao robô-segurança que monitora estacionamentos e calçadas da Samsung – presente no prédio da Samsung Research America, em Mountain View, também.

we are the robots

Ainda no tema semicondutores, visitei uma fábrica incrível de memórias na Coreia do Sul, no subúrbio de Seul. Mas (buaa) fotos não foram permitidas – nem no museu do prédio. Em resumo, vimos a fábrica a partir de um andar com vidro isolando a área limpa, com robôs carregando wafers de silício para lá e para cá em trilhos no teto – e ocasionais funcionários andando em bunny suits.

Siga o dinheiro em Menlo Park….

A parada seguinte foi em Menlo Park. Aqui o prédio, com vista para The Dish na Universidade de Stanford, não é exclusivo da Samsung, mas sim um condomínio com diversos fundos de investimento e venture capital do Vale do Silício. A unidade se chama Samsung Strategy and Innovation Center (SSIC) e aqui deu para entender qual um dos principais interesses dos coreanos no vale: startups.

Empresas de tecnologia com divisões voltadas a investimento em startups não são novidade – Intel Capital e Qualcomm Ventures estão aí faz tempo para contar história.

Em resumo, o SSIC entende que vivemos em uma “economia voltada a dados” e que lidar com isso rende oportunidades para qualquer startup.

Os interesses principais são em novas empresas que estejam envolvidas com:

  • infraestrutura de cloud
  • Internet das coisas
  • Saúde digital
  • Smart machines
  • Soluções para dispositivos
  • Inteligência artificial
  • Interfaces naturais para usuário/Realidade aumentada/realidade virtual
  • 5G

E o que diabos o SSIC faz com essas empresas? Simplesmente investe/compra para a Samsung-mãe? Não necessariamente. Janaina Pilomia, diretora de marketing do SSIC (e uma velha conhecida deste ZTOP desde os tempos de Nokia N900), explicou que o SSIC lidera rodadas de investimento ou participa de rounds com outros fundos/VC. “Queremos retorno sobre o investimento, mas preferimos deixar as empresas independentes”, disse.

Entre as vantagens de ser investida pela Samsung, Janaina explicou que, além de espaço de escritório e mentoria, o SSIC ajuda a “entender a Samsung”: “é a maior plataforma do mundo de produtos. Ajudamos a integrar as tecnologias à Samsung e navegar dentro da corporação”.

Segundo o Crunchbase, o SSIC já fez sete grandes investimentos (a maioria em series A e B), sendo o maior destaque para a Graphcore, que desenvolve sistemas de AI/aprendizado de máquina e recebeu US$ 30 milhões.

…e na Samsung Next

O SSIC não é o único braço de investimento da Samsung. O Samsung Next – presente em um andar do Samsung Research America, em Mountain View – é outro exemplo (e tem sedes também em Berlin, Nova York, Suwon, na Coreia do Sul, San Francisco e Tel Aviv). Apesar de trabalharem com o mesmo conceito – investir em startups – o foco é distinto, de acordo com Brandon Kim, chefe global de ventures no Next. “Investimos no futuro do hardware e integração de software”, diz.

Existem sobreposições, claro, entre o que o SSIC e o Next querem. Numa definição básica, Kim explica que o Next investe mais em produtos que farão parte de produtos de consumo e o SSIC em empresas que farão parte de componentes/serviços oferecidos pela Samsung.

Existe ainda a Samsung Ventures (que não visitei/conheci), que tem o exemplo mais claro da relação dos coreanos com startups e investiu na Princeton Identity, que desenvolveu o mecanismo de segurança de reconhecimento de íris adotado nos smartphones topo de linha da marca desde o (finado) Galaxy Note 7 e depois S8/S9/Note 8/Note 9.

No caso do Next, eles estiveram envolvidos em aquisições de empresas como a VIV (que fornece a tecnologia de AI usada na Bixby) e a Smart Things, que é a central de controle de internet das coisas presente em diversos produtos – de geladeiras a smartphones Samsung.

Voltando ao Next, o que eles procuram hoje tem mais a ver com pesquisa e desenvolvimento de produtos para um futuro próximo: os clássicos IoT – IA – Saúde digital – AR – mobilidade – mas também tecnologias que vão trabalhar junto com o 5G, como computação de borda (edge computing).

“Vemos que o pêndulo da tecnologia hoje está para o lado da descentralização de novo, após uma fase de centralização em serviços de cloud. Vemos que existe uma explosão de dados gerados por internet das coisas, a necessidade de aplicações de latência baixa, como as usadas em carros autônomos, um interesse maior em privacidade e segurança local”, explica Kim. “Não acreditamos que a computação em nuvem vá passar, mas muito dela precisa ser descentralizada”, conclui.

Saí do Samsung Next com um pensamento na cabeça: conheço gente no mercado de tecnologia/games que faria tudo pelo cartão de visitas do sr. Brandon Kim 🙂

Disclaimer: Henrique viajou a convite da Samsung. Fotos (quando possível) e opiniões são dele. A imagem que abre este post é a vista de uma das janelas do SSIC em Menlo Park.