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Dando tiro pra todo lado, Intel matou o IDF

Pessoal de Santa Clara anuncia o fim do seu principal evento técnico alegando que sua entrada em novos mercados tirou o foco do mesmo.

É o fim de uma era.

Depois de quase 20 anos de estrada, a Intel anunciou hoje em seu site que resolveu não mais promover o Intel Developer Forum cancelando inclusive a próxima edição americana que já estava programada para agosto de 2017 na cidade de San Francisco. No seu lugar a empresa sugere que os desenvolvedores procurem a página do Resource Design Center onde os interessados podem encontrar tudo o que precisam com apenas alguns cliques de mouse.

Para quem não sabe, o IDF nasceu da cabeça de Pat Gelsinger que, em 1997 reuniu alguns parceiros de negócios e um punhado de jornalistas técnicos num pequeno evento perto de Santa Clara para apresentar a visão da empresa para a sua comunidade de desenvolvedores, assim como apresentar suas últimas novidades em produtos e serviços que poderiam contribuir para o progresso dessa indústria.

Nós acompanhamos este evento in loco desde 1999, época em que o IDF era coberto por uns 50 jornalistas e algumas centenas de participantes, num aprazível  resort turístico de Palm Spring na Califórnia, um local por sinal tão quente no verão que, reza a lenda que ele foi escolhido para evitar que os participantes fugissem do refrescante ar condicionado do evento.

Depois disso, o evento cresceu junto com a revolução do PC e da Internet acontecendo por alguns anos na cidade de San Jose e…

… logo depois, fixou-se em San Francisco:

Nesta época o IDF chegou a ser um mega evento bianual nos EUA e que também viajava pelo mundo afora por países como Japão, China,  Taiwan, Israel, Alemanha e até no Brasil:

No geral, a quantidade de informação apresentada era tamanha (mais de 200 sessões técnicas em três dias) que a partir de um certo ano, a mídia especializada passou a ter o seu próprio evento dentro do evento, formada com uma intensa programação temática com reuniões, entrevistas e mesas redonda de todo tipo, cor e modelo…

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… sendo que muitas tecnologias que hoje fazem parte do nosso dia a dia fizeram sua primeira aparição pública em um IDF como a portas USB 2.0Thunderbolt, a interface SATA, a porta DVI, o Wi-Fi, o Netbook, o Ultrabook e mais recentemente os computadores 2-em-1, dispositivos wearable, a tecnologia de câmera RealSense, as novas plataformas de exploração Intel Edison, etc:

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Mas também foi no IDF que vimos outras iniciativas mostradas como a próxima grande tendência de mercado — e que depois viraram fumaça — também fizeram sua aparição em um IDF , como LCOS (um chip de imagem para TVs), o UMPC (um tablet x86 com Windows), a inciativa VIIV (tecnologia de infotainment), a GPU Larrabee, o processador Timna (uma APU em 1999!), o Turbo Memory, as memórias RAMBUS, a linha de brinquedos Intel Play, o sistema operacional Moblin/Meego etc.

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De um certo modo, a decisão da Intel de acabar com o IDF não deixa de ser um reconhecimento de que o foco da empresa não está mais em cima dos PCs, sendo que nos últimos anos — em especial após a ascensão de Brian Krzanich ao cargo de CEO — ela tem diversificado seus esforços em novas iniciativas mais ligadas à tecnologia da informação (ou data-centric) tidas como promissoras como a computação embarcada, IoT, servidores, memórias de alto desempenho, VR/AR, drones, IA/Machine Learning, HPC, carros autônomos, robótica, redes 5G, etc. ou seja, a Intel começou a dar tiro pra todo lado pra ver se acerta em algo e acabou matando seu principal evento técnico.

Sob esse ponto de vista, com tantos assuntos a serem abordados em um único evento, o IDF começou a perder um pouco do seu foco, de modo que a Intel preferiu redirecionar seus esforços na forma de eventos menores dedicados à apenas um assunto — como o recente Technology and Manufacturing Day — que por sinal, lembra muito a época em que o foco do IDF era microprocessadores.

Outra estratégia será de marcar uma maior presença em outros eventos (grandes ou pequenos) como a CES ou o SXSW.

Porém, por mais que a empresa se esforce em disponibilizar conteúdo on-line, nada substitui a oportunidade de ter contato direto com os executivos e engenheiros da Intel e até de outras empresas que, com o passar dos anos, deixam de ser apenas uma “fonte” para se tornar um conhecido que a gente sempre pára para cumprimentar, peguntar como vão as coisas, tirar dúvidas…

…e até ver algumas coisinhas bacanas (e muitas vezes confidenciais) que eles tiravam do bolso:

E isso sem falar nos colegas de profissão que a gente faz amizade e reencontra todo ano, que são sempre uma inestimável fonte de fofocas informações técnicas, sendo que muitas delas nem o pessoal da Intel é capaz (ou gostaria) de falar. De um certo modo, o meu contato com esses caras me ajudou a ser um profissional melhor, menos provinciano e, principalmente, muito menos cretino!

Pode até ser que a Intel transmita melhor sua mensagem com seus eventos focados, mas passados quase 20 anos, para o pessoal de Santa Clara algo grande como o IDF é página virada e agora só nos resta esperar o que o futuro nos reserva.

Desde o século passado Mario Nagano analisa produtos e já escreveu sobre hardware e tecnologia para veículos como PC Magazine, IDGNow!, Veja e PC World. Em 2007 ele fundou o Zumo junto com o Henrique assumindo o cargo de Segundo em Comando, Editor de Testes e Consigliere.

  • Henrique Martin

    faltou a foto da coleção de garrafinhas d’água!

    • Mario Nagano

      Elas estão perdidas no meio da minha bagunça. :-/

  • Wesley S Lauzem

    A lágrima chega a escorrer aqui tamanha a ligação de vcs com o IDF

    • Mario Nagano

      Sim, para nós o IDF foi um verdadeiro curso intensivo de como cobrir um evento internacional (na porrada) já que nos primeiros anos o esquema era simples: Taqui sua passagem, procura o fulano de tal lá no evento e parabéns — você vai ser o único jornalista brasileiro por lá.

      No início foi uma experiência meio assustadora porque vc fica meio que perdido no meio daquele monte de gente que nem nota a sua presença. Mas ao mesmo tempo isso força você a se integrar com o pessoal de outros países, coisa que acontece bem menos quando você viaja com outros brasileiros, já que neste caso a tendência é formar um “bando” que anda junto, come junto, passeia junto e etc. junto.

      Minha sorte é que fui “adotado” pelo “bando” de jornalistas alemães (mesmo sem saber falar um p*to de alemão) e, a partir deles, pude criar um longo relacionamento com outros profissionais europeus, incluindo um turco bem caxias (Hi Niso!) que me ensinou todos os truques dessa profissão, incluindo a melhor dica de todas.

      Disse ele:

      “Por mais que você não perceba, você representa seu país nesses eventos, de modo que tudo o que você fizer (de bom ou ruim) por aqui, poderá abrir ou fechar as portas para você e outros (jornalistas) brasileiros que virão depois — ou seja — trabalhe direito, siga a risca a sua programação e não arrume confusão que a empresa sempre irá chamar você de volta.”

      Fato é que segui o conselho dele e voltamos para o IDF por 18 anos consecutivos, e isso sem falar de outros eventos da empresa aqui e lá fora.

      Ah Niso, saudades desse cara.